Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), no período 2003-04 a área desmatada na Amazônia foi de 26.130 km2, superfície pouco inferior ao estado de Alagoas. O estrago tem dimensões históricas: ele só foi inferior ao que ocorreu no período 1994-95, quando a superfície desflorestada superou os 29 mil km2.
Curiosamente, entre os estados monitorados pelo INPE, apenas Mato Grosso e Rondônia apresentaram índices crescentes de desmatamento. A principal causa para este fenômeno é a expansão da fronteira agrícola, especialmente por conta da ampliação do cultivo de soja, que se associa à frenética atividade de exploração madeireira ilegal.A expansão da soja tem impulsionado o processo de desmatamento na medida em que estaria “empurrando” a tradicional atividade pecuária para áreas da franja meridional da Floresta Amazônica. Para comprovar este processo, constatou-se que em vários municípios da região central de Mato Grosso os rebanhos vêm diminuindo, enquanto a produção se expande. Ao mesmo tempo, registra-se forte crescimento do número de bovinos na porção norte de Mato Grosso, no Domínio Amazônico.
Em cerca de dez anos, a soja expandiu-se celeremente para o norte do estado e a área plantada conheceu incremento de 400%.
A superfície desmatada cresceu mais de 130%, nos últimos dois anos.
Atualmente, pouco mais de 17% da vegetação florestal original de toda a Amazônia foi destruída. Embora grande parte das matas esteja ainda preservada, o ritmo de destruição é cada vez mais rápido. O dado impressionante: até 1978, o desmatamento havia atingido apenas 3,8% da superfície florestada.
Os estados mais afetados pelo desmatamento histórico foram os do Pará, Mato Grosso e Maranhão. Esses três estados concentram cerca de três quartos de toda a destruição, o que confirma que o desmatamento tem sido mais drama tico nas porções orientais e meridionais da Amazônia. Essa vasta área, à qual deve-se agregar Rondônia e a porção sul- oriental do Acre, forma um cinturão denominado de “arco do desmatamento”.
A DESTRUIÇÃO COMO ESTRATÉGIA
Os padrões espaciais da destruição florestal refletem as formas assumidas pelo processo de ocupação da Amazônia brasileira nas últimas décadas. Até os anos 60, o fenômeno do desmatamento era bem pouco expressivo, não só em função da pequena população estabelecida na região como também em virtude do tipo de atividades econômicas ali desenvolvidas.A pesca fluvial, a pequena agricultura de várzea e o extrativismo florestal (borracha, castanha etc.) provocavam danos apenas superficiais ao meio ambiente. Naquela época, a única forma efetiva de penetração na região era por meio da densa e capilarizada hidrográfia.
Os rios funcionavam como os únicos eixos de comunicação regional e o povoamento concentrava-se nas estreitas faixas de várzeas fluviais, o que contribuía para a preservação da floresta.
A estratégia de integração da Amazônia ao Centro-Sul, tal como conduzida a partir da inauguração de Brasília, mudou esse panorama. A transferência da capital federal, concluída em 1960, e posteriormente a construção de rodovias de integração, como a Belém-Brasília e a Brasília- Acre, estimularam a expansão das atividades primárias ao longo das novas estradas que passaram a cruzar a região. Além disso, a descoberta de novas jazidas minerais, o estímulo à colonização e à grilagem das terras, os incentivos a grandes projetos florestais e pecuaristas, impulsionaram a ocupação predatória.
A estratégia de integração nacional inverteu o eixo histórico da colonização amazônica.
Desde a época colonial até meados do século XX, as correntes principais de povoamento moviam-se no sentido leste-oeste, através dos cursos fluviais, estabelecendo núcleos junto às margens dos rios amazônicos.
Nas últimas décadas, os fluxos migratórios passaram a se verificar no sentido sul-norte, através das rodovias que interligam o Centro-Sul à Amazônia. Assim, o processo recente de ocupação e valorização econômica do espaço passou a exercer um impacto inédito sobre o meio natural. O “arco do desmatamento” é um fruto dessa estratégia de Estado.
A geógrafa Bertha K. Becker, uma das maiores especialistas do país em Amazônia, advoga uma mais intensa presença do governo federal na região, no sentido de dar ênfase a atividades econômicas não predatórias e à recuperação de áreas alteradas por desmatamentos ou abandonadas.
Essas áreas poderiam servir tanto para promover iniciativas de reforma agrária como para impedir a expansão da soja e da pecuária pela floresta. Seria o uso da estratégia, com outras finalidades.
No que se refere à reforma agrária, ela afirma que o modelo tradicional de assentamento rural não funciona na Amazônia, pois não atende às necessidades ambientais e sociais da população.
Uma das saídas seria a instalação, em corredores já devastados, de grandes fazendas de colonos em esquema cooperativo.
Becker também defende a idéia de que a floresta só será conservada quando lhe for atribuído um valor capaz de gerar dividendos enquanto ela estiver “em pé”. Nesse sentido há vários campos a serem explorados e desenvolvidos como a nutracêutica (alimentos naturais encontrados na floresta e que geram bem-estar e saúde) e a dermocosméstica (matérias-primas para a produção de cosméticos), especialidades cada vez mais exploradas tanto no Brasil como internacionalmente.
Boletim Mundo n° 4 Ano 13

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