A Grande Depressão não surgiu, diretamente, do crash da Bolsa de Nova York de 1929, mas dos erros catastróficos dos bancos centrais dos Estados Unidos e das potências européias. Diante da crise financeira, os banqueiros centrais insistiram na manutenção das moedas fortes – ou seja, das taxas de câmbio que ligavam as moedas nacionais ao padrão-ouro. Para isso, elevaram as taxas de juros, tornando mais caro o dinheiro num período de escassez de dinheiro. O resultado foi a retração geral dos investimentos, do emprego e do consumo. Hoje, a União Européia reproduz aqueles erros bem conhecidos, condenando os países da periferia da Zona do Euro a uma profunda depressão.
“Nós não obtivemos absolutamente nada, exceto que coletamos dinheiro de um monte de pobres diabos e o espalhamos aos quatro ventos”, explicou Montagu Norman, presidente do Banco da Inglaterra, num tão franco quanto tardio reconhecimento da culpa dos bancos centrais que produziram a Grande Depressão dos anos 1930. Formulados pelo Banco Central Europeu (BCE), os planos de austeridade impostos à Irlanda, Grécia e Portugal pretendem coletar dinheiro “de um monte de pobres diabos” e entregá-los aos bancos credores alemães e franceses, que fizeram apostas especulativas em títulos da dívida dos países da periferia da Zona do Euro. O esquema não vai funcionar – e pode, no caminho, destruir o próprio euro.O BCE opera segundo o dogma da moeda forte. No ano passado, enquanto os Estados Unidos produziam pacotes de estímulos fiscais para a retomada do crescimento econômico, o BCE aumentou suas taxas de juros antes de qualquer sinal sólido de aumento dos investimentos e do consumo.
Os países endividados, já em situação desesperada, rolaram pelo abismo da recessão. Os planos de austeridade, que orientam cortes drásticos, prolongados, de salários, aposentadorias e gastos públicos, só conseguirão produzir o crescimento de dívidas impagáveis. Mas, em nome da credibilidade do euro, o BCE rejeita a alternativa de renegociação organizada das dívidas, com uma divisão de prejuízos entre os países devedores e os bancos credores.
O programa fundamentalista fracassará no terreno da política antes ainda de naufragar na esfera da economia. Planos de austeridade radicais não combinam com a democracia. Na América Latina da década de 1980, época da crise das dívidas externas, planos desse tipo foram firmados com o FMI por ditaduras militares. Seus efeitos sociais devastadores aceleraram o colapso dos regimes autoritários – inclusive no Brasil. Na periferia da Zona do Euro, os sistemas políticos democráticos já sofrem as conseqüências dos programas econômicos impostos pela União Européia. Os partidos governistas são derrotados fragorosamente nas eleições, mas os partidos triunfantes de oposição assumem os governos prometendo aplicar as mesmas políticas rejeitadas nas urnas. É como se os partidos nacionais desaparecessem, dando lugar a um Partido do Euro, controlado de fora pelo BCE.
As tensões resultantes se expressam sob a forma de uma rebelião fragmentária, sem lideranças ou plataformas de ação comum, que origina greves, protestos de rua e, também, o crescimento eleitoral de ultranacionalistas e neo- comunistas.
O projeto do euro nasceu de um gesto político ousado, que foi uma resposta criativa ao dilema político posto pela reunificação alemã de 1990. A moeda única serviria para subordinar a Alemanha ao projeto da unidade européia, afastando os temores de ressurgimento do nacionalismo alemão.
Com essa finalidade geopolítica, criou-se uma união monetária que reúne países economicamente heterogêneos, com taxas de produtividade contrastantes. Nesses contrastes se encontram as raízes da atual crise do euro. Os custos de produção em países como Grécia, Portugal, Espanha e mesmo Itália aproximaram-se dos custos alemães, mas a produtividade não cresceu na mesma proporção. No fim das contas, as dívidas exprimem o diferencial de produtividade entre o núcleo e a periferia da união monetária.
No ponto de partida, a Alemanha agiu sob o imperativo da política, sacrificando a sua soberania monetária, representada pelo marco e pelo Bundesbank (o antigo banco central alemão), à idéia da unificação da Europa. Agora, porém, a Alemanha age sob o imperativo da ortodoxia econômica, subordinando os interesses da unidade européia ao artigo de fé do euro forte e aos interesses dos bancos alemães e franceses. Por isso, a chanceler Angela Merkel cede à vontade do BCE. É um jogo de alto risco, que pode destruir aquilo que foi construído há duas décadas.
A Grã-Bretanha e a soberania monetária
No 6 de junho de 1944, o Dia D, começou a grande operação anfíbia de desembarque na Normandia das forças americanas e britânicas que libertariam a França. Pouco antes do início da operação, Charles De Gaulle, comandante exilado da França Livre, expressou sua gratidão ao primeiro-ministro britânico Winston Churchill. A resposta ficou célebre: a Grã-Bretanha, disse Churchill, sempre que tivesse que “decidir entre a Europa e o mar aberto, escolheria o mar aberto”. Dessa postura imutável decorria que “todas as vezes que eu tiver que decidir entre você e Roosevelt, deverei optar por Roosevelt”.A Segunda Guerra Mundial foi o momento em que a Grã-Bretanha firmou uma aliança estratégica com os Estados Unidos, subordinando seu destino à liderança americana.
A Europa ficaria em segundo plano diante da prioridade da aliança transatlântica.
Por isso, os britânicos demoraram a ingressar na Comunidade Européia e, depois, se recusaram a participar da união monetária.
A atual União Européia é um projeto oriundo da aliança entre França e Alemanha.
O euro nasceu de uma barganha entre o francês François Miterrand e o alemão Helmut Kohl. Os britânicos preferiram conservar o Banco da Inglaterra e a libra, uma decisão compartilhada pelos partidos Conservador e Trabalhista. A soberania monetária britânica é a contrapartida, no terreno econômico, do acordo geopolítico expresso por Churchill naqueles dias dramáticos da etapa derradeira da guerra mundial.
Boletim Mundo n° 4 Ano 19
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