quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O DRAGÃO PEDE ÁGUA

Axé Silva

A China, uma das principais potências econômicas do mundo contemporâneo, pode sofrer uma crise sem precedentes em sua milenar e emblemática história. A ameaça não deriva de uma crise financeira global, nem de uma catastrófica desvalorização do dólar no futuro próximo, mas sim da carência de água. Ao contrário de algumas nações de dimensões continentais, como Brasil e Estados Unidos, a China não possui uma vasta rede hidrográfica. Ela detém aproximadamente 7% dos recursos hídricos mundiais, valor insuficiente para abastecer cerca de 20% da população mundial, além de incontáveis empresas interessadas em produzir a custos baixos.
Nos últimos anos, em decorrência da expansão econômica e da crescente urbanização, a água vem sendo utilizada de forma intensa, o que reduziu significativamente sua disponibilidade. Além das razões estruturais, a crise hídrica é conseqüência de secas, poluição e da inexistência ou ineficiência de políticas de proteção ambiental. Estima-se que mais de 70% das superfícies líquidas emersas estejam contaminadas, apresentando, em certos casos, elevados níveis de eutrofização.
De acordo com o Órgão de Proteção Ambiental do país, menos de 50% da água chinesa é segura para consumo humano.
Pouco mais de um quarto do recurso pode ser usado pela indústria e agricultura, enquanto o restante é impróprio para qualquer atividade.
Entre os responsáveis pela poluição das águas no país, estão inúmeras empresas multinacionais. Tais empresas despejam todo e qualquer tipo de detrito nas superfícies líquidas locais. Elas sabem que não serão punidas, pois os mecanismos de fiscalização e controle não são eficientes. Na tentativa de reverter essa situação, o governo chinês pretende reduzir em torno de 30% o uso industrial da água nos próximos cinco anos. Além disso, gastou cerca de US$ 8 bilhões em projetos de tratamento de água. Mas as contaminações ainda ocorrem.
Cerca de dois terços das cidades chinesas sofrem de algum nível de carência hídrica e numa centena delas não há saneamento básico. Fruto disso, um quarto da população chinesa, aproximadamente 320 milhões de habitantes,  não têm acesso à água potável. O comprometimento da qualidade da água provoca enfermidades e aumenta os gastos com a saúde pública.
Na China, como em muitas outras nações, a água é utilizada de forma significativa na agricultura. O setor absorve 65% dos recursos hídricos do país, com elevado índice de desperdício. Sua disponibilidade pelo território, no entanto, é desigual. Há um grave desequilíbrio entre a oferta e a demanda. Enquanto o sul possui cerca de 80% dos recursos hídricos, o norte tem apenas 20%. E é justamente esta última região que responde por mais de metade da atividade agrícola – e, também, onde se encontra grande parte da população.
Para combater a carência, são retiradas quantidades significativas de água dos lençóis subterrâneos. Quase metade da água utilizada no meio rural provém dessa fonte. O ritmo de retirada não é sustentável: se nada for feito, tais reservatórios ficarão secos em menos de 30 anos.
Confrontado com o acentuado desequilíbrio da oferta regional de água, o governo chinês decidiu deslocar parte das águas do rio Yang-Tsé, localizado na porção meridional do país. A transposição sul norte é uma imensa obra, comparável à construção da usina hidrelétrica de Três Gargantas. O deslocamento hídrico será feito por intermédio de dois canais com extensão de 2.430 quilômetros. Também existe o projeto de construção de um terceiro eixo, em direção ao oeste.
A idéia de transpor as águas no território chinês não é recente. Ela existe desde a década de 1950, quando o líder comunista Mao Tsé-Tung disse que o sul deveria “emprestar” um pouco de suas águas para o norte. De lá para cá, o problema hídrico se agravou, levando o governo central a imaginar projetos que minimizem a falta do recurso. A obra completa custará cerca de US$ 62 bilhões, aproximadamente 2,5 vezes o que foi gasto em Três Gargantas, a maior hidrelétrica do planeta.
Críticas não faltam: se, por um lado, o imenso complexo de transposição poderá minimizar a carência hídrica do norte e oeste do país, por outro já provoca deslocamentos em massa de moradores. A retirada teve início em junho de 2010 e terminará em 2014. Nesse período, cerca de 330 mil pessoas deixarão seus lares, que serão destruídos com a construção dos canais. O novo reassentamento será o segundo maior na recente história chinesa.
Perde apenas para Três Gargantas, que ocasionou a remoção forçada de mais de um milhão de pessoas.
Projetos assim não poderiam ser realizados por democracias. O governo chinês não pagará indenização aos desalojados da transposição. Caberá aos órgãos oficiais decidir o local das novas moradias.
Muitos desabrigados, camponeses em sua maioria, não sabem se a terra que receberão possibilitará a produção agrícola.
A China meridional não dispõe de tanta água assim. Outra objeção em relação à obra emerge a partir de indícios de escassez hídrica no sul, que se tornam mais evidentes a cada ano. Os canais de transposição, quando inaugurados, podem transferir a crise hídrica de uma região para a outra, ao invés de solucioná-la.
Os profetas do futuro radioso chinês deveriam pensar duas vezes, pois a falta de água poderá comprometer de forma significativa a estrutura econômica e a qualidade de vida da população. E a preocupação não pode se limitar ao presente.
Em menos de duas décadas, a China terá mais 200 milhões incorporados à sua população, sem que seus recursos hídricos cresçam na mesma proporção.
Apesar de tudo, o Dragão chinês padece de água.
Boletim Mundo n° 5 Ano 19

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