quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O LIXO DA HISTÓRIA

A Revolução Árabe, que prossegue, não obedece à cartilha do fundamentalismo islâmico. Mais que qualquer “guerra ao terror”, é ela a responsável pela falência do fundamentalismo jihadista.

Quase um ano atrás, a auto imolação de Mohammed Bouazizi, vendedor ambulante de hortaliças, na localidade de Sidi Buzid, na Tunísia, deu início às revoluções árabes. Até agora, praticamente nenhum dos grandes objetivos das revoluções populares foi alcançado. Mesmo assim, destacam-se pelo menos dois grandes derrotados no horizonte: de um lado, o fundamentalismo islâmico, em particular o seu ícone mais conhecido, o grupo Al-Qaeda, de Osama Bin Laden; de outro, os que afirmavam a impossibilidade do surgimento de movimentos democráticos no mundo árabe-muçulmano.
A Revolução Árabe estava em pleno desenvolvimento em 1º de maio, quando o presidente americano Barack Obama anunciou a captura e execução de Bin Laden, por tropas de elite dos Estados Unidos, na cidade paquistanesa de Abbottabad. Exceto por pequenas manifestações isoladas, não houve surtos de protestos nas principais capitais, cidades e cenários das mobilizações de rua. Bin Laden não foi transformado em mártir. E a Al-Qaeda, grupo por ele fundado nos anos 1980, mostrou-se incapaz de praticar os prometidos atos de vingança. As revoluções populares passam à margem e ao largo da lógica fundamentalista.
Isso aconteceu, em primeiro lugar, porque as revoltas tiveram como alvo principal os ditadores sanguinários, as monarquias parasitas e os governantes e funcionários públicos corruptos. Elas não foram motivadas pelo fanatismo religioso, nem pela convicção ideológica e muito menos pela lógica fantasista do “choque de civilizações”.
Tampouco surgiram como resultado mágico das redes sociais,  como acreditam alguns entusiastas da “democracia tecnológica”.
A miséria e a opressão foram os motores da revolução. Durante a ocupação da agora famosa Praça Tahir, no centro do Cairo, a principal pixação, multiplicada nos muros e mesmo nos tanques era: “Nós queremos mudar o sistema”. Muito mais para 1968, como se vê, do que para o Corão.
Tampouco foi por acaso que justamente o Egito tornou-se o centro do movimento revolucionário árabe, o pólo que captou todas as atenções. Ali, mais do que em qualquer outro país árabe, houve um processo histórico que formou lideranças de trabalhadores, estudantes e intelectuais que participaram de lutas políticas e sociais sem subordinação a preceitos ou ideais religiosos.
Durante 16 anos, a partir de 1954, o Egito foi governado por Gamal Abdel Nasser, responsável, em 1956, pela nacionalização do Canal de Suez, e pela resistência, quatro meses depois, ao assalto combinado de tropas britânicas, francesas e israelenses que queriam recuperar o controle sobre o canal. Com Nasser, o mito da “grande nação árabe” encontrava o seu momento histórico mais brilhante: um líder carismático, símbolo da luta contra o imperialismo britânico, finalmente demonstrava a possibilidade de os povos árabes recuperarem sua dignidade e auto estima.
O detalhe mais significativo é o fato de que o desenlace da Guerra de Suez foi obtido graças à mobilização massiva da população, armada pelo governo para resistir aos invasores. O evento estimulou manifestações populares em todos o mundo árabe. Como resultado delas, caíram o primeiro-ministro Nuri al-Said e a monarquia iraquiana, em julho de 1958. Também como resultado da campanha de Suez, e por impulso de correntes nacionalistas sírias, principalmente organizadas pelo Partido Baath, foi criada, em 22 de fevereiro de 1958, a efêmera República Árabe Unida (RAU), integrando Egito e Síria e projetada para ser o embrião do primeiro Estado pan-árabe.
Contudo, após a Guerra de Suez, Nasser reprimiu violentamente e perseguiu os próprios aliados, incluindo militantes de sindicatos e partidos de esquerda, bem como a Irmandade Muçulmana, precursora do fundamentalismo islâmico contemporâneo.
Em seguida foi humilhado pela fragorosa derrota árabe na Guerra dos Seis Dias, de 1966. Mas o mito sobreviveu à história, e foi ainda reforçado, em certa medida, pela vitória do Exército egípcio, indissoluvelmente vinculado à figura de Nasser, na fase inicial da Guerra do Yom Kippur contra Israel, em outubro de 1973.
É dessa história que deriva o imenso prestígio do Exército egípcio, o décimo maior do planeta, como também a recusa de seus generais a disparar contra a multidão, embora o próprio ditador Hosni Mubarak, deposto em 11 de fevereiro, tenha comandado a Força Aérea, entre 1972 e 1975, antes de assumir a presidência. Os generais não atiraram pois isso destruiria a fábula do “exército popular”, fonte de poder e barganha dos seus comandantes.
Mubarak caiu, mas seu regime não. O “sistema” não foi mudado. As batalhas decisivas ainda não foram travadas no Egito e delas dependem, em grande parte, o destino da Revolução Árabe como um todo. A pior notícia seria a vitória de uma recomposição de forças entre as facções herdeiras do regime de Mubarak e a Irmandade Muçulmana, organização religiosa de grande prestígio popular, que ocupa 88 dos 454 assentos na câmara baixa do parlamento egípcio.
Mas, mesmo uma aliança desse tipo, com tudo de nefasto que possa implicar para os revoltosos, incluindo o restabelecimento de uma ditadura corrupta e sangrenta, não significaria uma vitória do fundamentalismo islâmico. Por uma simples razão: a Irmandade Muçulmana está muito longe de ser o grupo fanático equivocamente pintado pela mídia. Ela não propõe nem apóia ações violentas, embora tenha feito uso de atentados e ataques armados no passado, entre a data de sua fundação, em 1928, e meados dos anos 1970, ainda sob perseguição da polícia nasserista.
Mesmo nos países onde as batalhas se desenvolvem de forma mais sangrenta, em especial na Síria de Bashar Assad e na Líbia de Muammar Kadafi, a resistência não se dá em nome da religião, mas da liberdade.
Não há lugar para a Al-Qaeda nesses combates, e é difícil imaginar, hoje, uma situação em que o terror jihadista possa exercer qualquer influência real, para além de eventuais simpatias momentâneas. A Revolução Árabe destinou a Al-Qaeda ao seu verdadeiro lugar: o lixo da história.

Boletim Mundo n° 5 Ano 19

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