Ao longo da história, muros ou qualquer barreira física sempre tiveram a função de separar. Marcos de limites exagerados, essas barreiras surgiram em trechos de fronteiras entre impérios e países ou separaram populações dentro de um mesmo país ou de uma mesma cidade, assinalando o contraste entre sistemas de governo e grupos sociais. De modo geral, na esfera simbólica, segregaram os “civilizados” dos “bárbaros”.
Na segunda metade do século XX, o mais emblemático dos muros foi o de Berlim, por conta de suas implicações políticas, sociais e humanas. A barreira, fortemente policiada, separou durante 28 anos e três meses a população de um só país, hoje reunido. Dividiu em duas a cidade de Berlim, antiga capital alemã, cujo setor ocidental foi rodeado por um muro com mais de 170 quilômetros de extensão. Ao fazê-lo, tornou quase impermeável a fronteira entre os dois Estados alemães – a República Federal Alemã (RFA) e a República Democrática da Alemanha (RDA). Desse modo, converteu-se em símbolo maior do confronto Leste-Oeste da Guerra Fria.O Muro de Berlim foi erguido em agosto de 1961, após uma decisão tomada numa reunião do Pacto de Varsóvia realizada na semana anterior. A decisão da aliança militar liderada por Moscou anulava o que havia sido estabelecido pelas potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial durante a Conferência de Potsdam, em julho e agosto de 1945.
Em Potsdam, os Três Grandes – Estados Unidos, Grã- Bretanha e União Soviética – organizaram um sistema de ocupação militar da Alemanha derrotada, dividindo seu território em quatro zonas e dividindo Berlim em quatro setores. A França foi admitida como potência ocupante.
Pouco mais tarde, em 1949, como decorrência da deflagração da Guerra Fria, a Alemanha acabou sendo dividida em dois Estados: as zonas americana, britânica e francesa constituíram a RFA, ou Alemanha Ocidental; a zona soviética converteu-se na RDA, ou Alemanha Oriental.
Berlim, a capital do Reich de Hitler, um enclave no interior da RDA, foi bipartida em Berlim Ocidental e Berlim Oriental.
A capital da RDA era, em tese, Berlim Leste. Contudo, aquilo não passava de uma ficção: as decisões cruciais sobre as relações externas e o modelo econômico da Alemanha Oriental eram tomadas pela União Soviética. A RFA, por sua vez, estabeleceu sua capital provisória em Bonn, junto ao vale do Reno, núcleo urbano de pequena expressão. Bonn funcionaria como capital meramente administrativa de um Estado que deixara de ser uma grande potência e estava comprometido constitucionalmente com o objetivo histórico de reunificação da Alemanha.
Entre 1949 e 1961, mais de 3 milhões de pessoas, quase 15% da população da RDA, em sua maioria jovens profissionais qualificados, deixaram o país através da fronteira aberta de Berlim, recebendo automaticamente a cidadania da RFA. A insuportável sangria demográfica
foi a razão principal para a construção do muro. A barreira física transformou Berlim num símbolo de duplo significado: a cidade do confronto entre Leste e Oeste e, também, do reencontro almejado entre alemães capturados pela armadilha da Guerra Fria.
O Muro destruiu o antigo centro da cidade, obrigando Berlim Ocidental e Berlim Oriental a reinventarem seu centro. Cada lado exprimiu, no empreendimento, sua própria visão de mundo. Na Berlim Ocidental, espécie de vitrine da Europa capitalista, a prosperidade do comércio e dos serviços refletiu polpudos investimentos realizados pela RFA. Em contrapartida, Berlim Oriental experimentou uma persistente, até certo ponto proposital, decadência física que tinha o propósito de desestimular o crescimento demográfico na tensa faixa de fronteira com o Estado inimigo. No lado oriental, nos quarteirões adjacentes ao Muro, configurou- se uma paisagem melancólica de edifícios degradados, habitados por proprietários cujos imóveis já não tinham valor de mercado.
A queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, foi uma conseqüência direta da falência do sistema sócio-econômico implantado no Leste Europeu após 1945. O desenlace dramático decorreu das reformas liberalizantes conduzidas, a partir de 1985, pelo líder soviético Mikhail Gorbachev.
Sem o Muro, a RDA transformou-se numa casca vazia. Os eventos de novembro de 1989 provocaram a reunificação da Alemanha, no ano seguinte, a transferência da capital de Bonn para Berlim e uma completa remodelação da estrutura e da paisagem da cidade.
O Muro foi quase totalmente destruído.
Restou apenas um trecho de algumas dezenas de metros, que cumpre funções de monumento. Nele se encontram as cruzes e lápides em homenagem àqueles que morreram tentando passar para o lado ocidental.
As avenidas e ruas interrompidas pela barreira foram interligadas. Os quarteirões degradados transformaram-se em objetos de desejo, conheceram intensa especulação imobiliária e renasceram como um centro pós-moderno.
A restauração de Berlim como capital significou um reencontro da nação alemã com suas virtudes e também com a memória de um passado sombrio. A reunificação colocou um contínuo desafio de conciliar nacionalismo e democracia, tanto no plano das relações políticas internas quanto no das relações com a Europa e o mundo.
O Muro é o personagem principal do filme A Promessa, de Margarethe Von Trotta, 1995. É quase um Romeu e Julieta da Guerra Fria, cobrindo o período que vai da construção do Muro até sua queda. O enredo conta as desventuras de um casal de jovens namorados que, ao tentar fugir de Berlim Oriental para a parte ocidental da cidade, acaba se separando: ele fica na parte oriental e ela, na ocidental. O casal se reencontra na Tchecoslováquia durante a Primavera de Praga, em 1968, quando um movimento reformista tentava desenhar uma “face humana” no socialismo, mas os dois são obrigados a se separar novamente em função das circunstâncias políticas.
Do fugaz reencontro em Praga, surge um filho. Os amantes só voltam a se ver na hora da queda do Muro e as cenas finais abrem- se a múltiplas interpretações.
Boletim Mundo n° 4 Ano 19

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