segunda-feira, 21 de maio de 2012

Cabra-cega: terror entre quatro paredes

Alessandro Meiguins

Filme mostra o desespero dos guerrilheiros perseguidos pela ditadura.
Foram anos de chumbo grosso no Brasil. O governo militar, com plenos poderes desde 13 de dezembro de 1968, quando o Ato Institucional nº 5 foi decretado, podia prender sem avisar, bater sem pedir licença, torturar sem dar trégua. Mesmo assim, uma parte bem pequena do povo brasileiro resolveu arregaçar as mangas e revidar. Não deu certo. Dos incontáveis grupos de guerrilha urbana que surgiram na época, nenhum sobreviveu. A máquina repressora do Estado se infiltrou em todos os lugares e, com uma eficiência cirúrgica, eliminou qualquer resistência.
Cabra-cega, do diretor Toni Ventura, narra o inferno psicológico que a repressão e a luta desesperada dos guerrilheiros provocou. Baleado em uma emboscada, o guerrilheiro Thiago precisa ficar escondido no apartamento do bem-sucedido arquiteto Pedro, que apóia a luta sem participar dela. Até que o grupo arranje um esconderijo mais seguro, Thiago tem como enfermeira e como seu contato com o mundo a jovem Rosa, filha de um operário comunista. As discussões de Thiago, Rosa e Pedro mostram a luta da esquerda em seu momento mais crítico, quando a derrota começou a ser sentida na pele. A claustrofobia da vida nos chamados “aparelhos” abateu os ânimos revolucionários
“Queríamos uma vida melhor, uma sociedade onde os sonhos poderiam ser livres ou possíveis”, conta Robeni Batista da Costa, do grupo de apoio da Ação Libertadora Nacional (ALN). Ela foi presa na época por traduzir livros com “conteúdo comunista”. Rose Nogueira, jornalista, ex-militante do grupo de apoio da ALN, chegou a abrigar diversos revolucionários em sua casa, entre eles Carlos Marighella. “Aprendi até a falsificar documentos. Fiz eu mesma várias identidades falsas”, diz.
Um dos principais testemunhos que inspiraram o filme está no livro Os Carbonários, de Alfredo Syrkis. Também ex-guerrilheiro da ALN, Syrkis participou do seqüestro do embaixador suíço Giovanni Bucher, em 1970, no Rio de Janeiro. Ficou 40 dias vigiando o embaixador, sendo advertido pelos colegas ao falar alto ou quando olhava pela janela. “Comecei a sentir uma necessidade doida de sair dali e ir até o mar. Fazia três semanas que eu estava enlatado naquela estrutura de paredes cada vez mais apertadas.”

Aventuras na História n° 020

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