Ferrovia construída
pela mesma empresa da Madeira-Mamoré está na raiz da Guerra do Contestado.
A construção da ferrovia Madeira-Mamoré matou quase 2 mil
operários, deu prejuízos astronômicos ao governo e gerou uma minissérie de
sucesso na TV, mas não foi a única construída pelo megaempresário americano Percival
Farquhar a espalhar miséria – e revolta – pelo país.No começo do século 20 – e da República brasileira –, Farquhar tornou-se o principal investidor do país. Dono do Porto do Pará, da concessão de bondes de Nova York e Salvador, das companhias de energia elétrica do Rio, São Paulo, Cuba e Guatemala, ele construiu as principais estradas de ferro que ligam o interior de São Paulo a Santos, como a Estrada de Ferro Sorocabana. Em 1912, ganhou uma faixa de terra de 15 quilômetros para cada lado ao longo dos futuros trechos ferroviários entre Itararé (SP) e o Rio Uruguai e entre São Francisco (SC) e o Rio Paraná, formando a Southern Brazil Lumber and Colonization Company. Assim com Madeira-Mamoré Railway, a Lumber era subsidiária da grande empresa de Farquhar, a Brazil Railway Company. Mais que construir estradas de ferro, o negócio dele era explorar os cerca de 40 mil quilômetros quadrados de terras virgens que recebera.
Nesse latifúndio do tamanho da Holanda, Farquhar montou na cidade de Três Barras, norte de Santa Catarina, a maior serraria do mundo, que chegou a derrubar 5 milhões de araucárias, imbuias e cedros por mês. A partir de 1912, milhares de caboclos que estavam fixados à beira dos trilhos de ferro do progresso foram desalojados de suas roças primitivas, de seus ranchos de pinheiro e fazendas de gado e de porcos: toda aquela terra passou a ter um novo dono. A esses sem-terra, juntaram-se os 8 mil desempregados que o término da construção da ferrovia deixou. Só faltava um líder – o beato José Maria – e uma causa: a formação do governo independente de Campos de Irani, atual Concórdia.
Esses profetas do caos foram os mesmos que atearam fogo às instalações da Lumber em 1914. E que resistiriam até 1916 no Contestado, mobilizando, para contê-los, 6 mil soldados, metade do contingente da época, e aviões, que pela primeira vez no mundo seriam usados em batalha.
Aventuras na História n° 020
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