Fernando Eichenberg
Um dos líderes do
movimento que contagiou a França em maio de 1968, Roland Castro não desistiu de
mudar o mundo. Mas hoje, ao contrário daquela época, ele não exige mais o
impossível.No início, era apenas um grupo de alunos da Universidade de Paris querendo o direito de frequentar o dormitório das alunas. Em pouco tempo, a revolta dos estudantes incluiu outras reivindicações e se transformou num enorme movimento contra o conservadorismo do Estado francês. Foi um período de passeatas, greves e embates com a polícia. Charles de Gaulle, então presidente da França, chegou a fugir de helicóptero e, por um dia, refugiou-se na Alemanha. Tudo isso transformaria aquele mês no mítico Maio de 68, que eternizou slogans libertários como “Seja realista, exija o impossível” e “É proibido proibir”. Hoje, as opiniões dos franceses sobre o movimento são bastante divergentes. Mas a maioria concorda que houve grandes conquistas em áreas como os direitos individuais e a liberdade sexual.
Nascido em Limoges, em 1940, Roland Castro foi um dos líderes do Maio de 68. Ele começou a militar aos 13 anos, opondo-se à guerra da França contra a Argélia. Aos 21, foi a Cuba, onde conheceu Che Guevara. Depois de abandonar os movimentos radicais, em 1972, Castro entrou em depressão. Por sete anos, foi paciente do célebre psicanalista Jacques Lacan. Recuperado, dedicou-se à arquitetura e trabalhou para o governo de François Mitterrand. Em 2007, Castro resolveu que era a hora de ele mesmo se candidatar à presidência. Não obteve as assinaturas necessárias para poder concorrer, mas não desanimou: do seu escritório em Paris, onde conversou com História, ele promete continuar seu combate por uma França mais justa e bela. Mas sem os devaneios de 1968.
Qual é sua origem?
Roland castro – Sou filho de imigrantes vindos de Salônica,
na Grécia. Sou judeu-espanhol-grego. Meu pai entrou ilegalmente na França. Digo
isso um pouco brincando, para mostrar que há imigrantes clandestinos que
acabam, talvez, por fazer algo de bom ao país que os acolheu.Quando você começou a se politizar?
Foi por volta dos meus 13, 14 anos. Era a guerra da Argélia. De pronto me engajei contra o conflito, como um pequeno soldado. Da minha geração, muita gente se engajou contra essa guerra colonial.
Em 1961 você fez uma viagem a Cuba?
Fui logo depois do episódio da fracassada invasão americana
na baía dos Porcos (em abril de 1961), com amigos. Permanecemos dois meses lá.
Foi um tipo de “turismo revolucionário”. Tudo era fabuloso. As cubanas da
milícia carregavam fuzis Kalashnikov e tinham o zíper de suas calças na bunda
(risos). Visitamos as fábricas nacionalizadas, encontramos Che Guevara, poetas
e arquitetos. Foi uma bateria de emoções para toda a vida.
Na volta, via Estados Unidos, você foi detido no aeroporto
de Miami?
Sim. E até devo agradecer ao FBI pela prisão, senão
corríamos o risco de ser linchados pelos cubanos contra- revolucionários que
estavam no aeroporto ou no avião. Os americanos retiraram meu visto e também o
direito de passar pelo México. Fiquei oficialmente banido dos Estados Unidos
por 30 anos.
Você foi seduzido pela revolução cultural na China, lançada
por Mao Tsé-tung em 1966?
Apaixonei-me por um conceito, pois não fui olhar de perto o
que acontecia na China. E tornei-me maoísta. Só depois se soube o que realmente
ocorria lá: o massacre da cultura, dos intelectuais. Mao Tsé-tung roubou o
pensamento militar de Napoleão, roubou tudo de Confúcio sobre a moral, roubou
conceitos de Marx sobre a ideologia – e fez uma bela sopa.
Como começou seu
engajamento em Maio de 68?
Foi na Escola de Belas-Artes de Paris, onde eu estudava.
Começamos a questionar todo o sistema de ensino. Nossos professores eram
péssimos. Todas as catástrofes urbanas ocorridas nos subúrbios de Paris foram
obra dos professores dessa época. Fizemos um tipo de revolução cultural na
Escola de Belas-Artes. Isso a partir de 1966. E, em 1968, acontece o “grande
momento de felicidade”.
Qual foi sua participação no movimento?
Participava de todas as manifestações de rua – havia muitas,
todos os dias – e também de ações como a do incêndio na Bolsa de Valores de
Paris. Tudo durou pouco, quatro semanas, até que De Gaulle disse: “Vamos parar
por aqui”. Mas continuei depois, com os grupos operários das fábricas, que eram
os mais radicais. Havia uma facção que não queria parar. Os maoístas se
dissiparam e criei minha própria organização, Viva a Revolução. Apoiamos o
Movimento de Liberação das Mulheres e a Frente Homossexual de Ação Revolucionária.
Fomos bastante atinados, pois nos demos conta do que ocorria na sociedade,
dessa necessidade de individualização. Mas estávamos no limite de fazer graves
besteiras, como os italianos fizeram. Chegamos a discutir a possibilidade de
passar para a violência, e aí decidi parar. Nunca fui favorável a isso, e senti
que estávamos entrando num caminho sem saída. Dissolvi minha organização e
comecei a análise com Lacan, em 1972.
Você chegou a ser
preso em maio?
Fui preso um pouco depois, quando ocupamos o Centro Nacional
do Patronato Francês (associação que reunia os empresários do país). Acabei
condenado a um mês de prisão, com sursis (dispensa do cumprimento da pena).
Você acreditava na época que o movimento poderia mudar o
mundo?
Acreditava que poderia mudar o ser profundo. Mas desde então
aprendi que não se pode mudar as pessoas, podemos fazê-las crescer, não mais do
que isso. Há certas coisas que não se pode mudar. Podemos transformar o mundo,
mas abdicando da idéia de que o homem é bom. A idéia de uma natureza humana
naturalmente generosa é falsa. Não funciona mais. Isso compreendi.
Você costuma dizer que Maio de 68 foi um movimento
imaturo...
Foi sobretudo uma
revolução sonhada. Foi um sonho muito bonito. Mas não foi capaz de
transformações concretas. Transformou os costumes, fez com que os pais e os
filhos passassem a se falar mais, coisas assim. Foram as únicas coisas que Maio
de 68 mudou de verdade: as relações entre pais e filhos, não considerar o
homossexualismo um drama, o despertar das mulheres. Foi uma revolução cultural,
não política. Não há muitos traços de Maio de 68 no pensamento político de
hoje. Desse sonho nada se fez. É preciso trabalhar esse sonho para chegar a
algo concreto. Nesse ponto, foi um movimento imaturo. Maio de 68 foi um belo
parêntese.
Por que você procurou Jacques Lacan?
Eu estava muito mal. Depois que fechei minha organização,
fiquei num estado deplorável. Não sabia mais onde estava. Comecei a psicanálise
porque precisava, urgentemente, falar com alguém. Um dia depois de ter fechado
a organização, passei a ser detestado, me acusavam de ter abandonado a causa.
Houve muito ressentimento contra mim por causa disso. Eu me encontrei só e não
acreditava em mais nada. Eu me lembro de que o golpe de Estado no Chile (em
setembro de 1973) não me provocou nenhum sentimento, nenhuma reação, não fiz
nada contra. Nem participei das passeatas. Não acreditava mais nas
manifestações. Estava acabado. Logo depois passei a me interessar novamente
pelas coisas da sociedade, mas naquele momento nada me sensibilizava. Numa
assembléia de estudantes revolucionários, em 1972, Lacan disse algo que me
perturbou muito: “A revolução é feita para manter a ordem”. Minha análise com
ele durou sete anos. Aos poucos, fui me reconstituindo.
Você voltou a se
interessar pela política em 1981, com a ascensão do socialista François
Mitterrand à presidência?
De novo veio a idéia de mudar o mundo, mas sem ilusões em
relação ao ser humano. Concentrei-me no trabalho com os subúrbios. Encontrei
Mitterrand e consegui convencê-lo de que era preciso fazer algo em relação à
questão urbana, que tinha influência na questão social e política. Isso durou
alguns anos, foi criado o Ministério da Cidade. Quando parei de colaborar com o
governo, passei a investir completamente no meu trabalho de arquiteto. Não
concordava mais com os rumos tomados. Eu acreditei em Mitterrand, mas, como
muitas pessoas, enganei-me totalmente. Ele era um ilusionista admirável. E
detestou Maio de 68. Na primeira vez em que nos encontramos, brigamos por causa
disso. No plano político, ele não chegou à altura de De Gaulle. Depois de Maio
de 68, descobri De Gaulle como escritor. Hoje, quando me perguntam, digo que
sou comunista em cultura, esquerdista em história e gaullista. Não classifico
De Gaulle à direita. Acho que ele é a melhor relação custo/benefício entre as
palavras e a realidade. Sempre digo que a revolta de Maio de 68 contra o pai
tinha uma relação com a qualidade do pai. Não era qualquer pai, era De Gaulle
que nos incomodava.
Anos depois da
decepção com Mitterrand, você retornou à cena política com o Movimento da
Utopia Concreta. Foi para não cometer os mesmos erros de Maio de 68?
Quando veio o 21 de abril de 2002 (em que o líder da
extrema-direita Jean-Marie Le Pen foi para o segundo turno da eleição
presidencial), decidi pensar num projeto de sociedade e criei o Movimento da
Utopia Concreta. E este ano apresentei minha candidatura às eleições
presidenciais. Decidi fazer política e meu trabalho juntos, de forma bastante
ligada. Embarquei na idéia de reconstituir um pensamento político neste país,
em que se assiste a uma campanha eleitoral miserável, sem conteúdo. Esse é o
atual momento da minha vida. Decidi voltar à ativa, de uma forma mais concreta.
Não ser somente um intelectual observador, mas um intelectual concreto. Tentei
fazer uma campanha como um Maio de 68 na maturidade. Mantemos a idéia de fazer
com que a sociedade seja mais habitável. Nossas propostas foram baseadas na
idéia de restauração das relações sociais, de “destribalizar” a sociedade.
Hoje você não acredita nem na revolução nem na esquerda
tradicional?
Acredito numa revolução ética. Não em revolução no sentido
de que os que estão embaixo vão derrubar os de cima. Penso, inclusive, que as
lições que podemos tirar da história das revoluções é que todas elas foram
feitas para manter a ordem, para colocar outra ordem. Eu luto para que a
sociedade seja mais bela e fraterna, menos inspirada no ódio de todos contra
todos. Sou antiliberal, mas não um doente mental. Acho que, para certas coisas,
o liberalismo funciona, para outras é preciso sair da ótica do mercado, como na
questão dos medicamentos, da água. Sou a favor das eleições. A rua não pode
resolver tudo, acredito na democracia representativa, e acho que ela poderia
ser mais horizontal e menos piramidal. Sou bastante radical, mas não
revolucionário no sentido tradicional. E acho que, hoje, a esquerda está sem
projeto para a sociedade, só pensa no poder. Sou a favor de embelezar meu país,
o que já é bastante trabalho.
Você se considera um
otimista?
Eu uso muito a frase de Antonio Gramsci (intelectual e
político comunista italiano): “Pessimismo da inteligência e otimismo da vontade”.
Eu nunca renuncio, e isso vai durar até a minha morte.
Aventuras na História n° 045
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