França perde o Zaire enquanto Casa Branca ensaia ofensiva para reorganizar o cenário da África austral e equatorial
Desde abril, Mobutu Sese Seko, presidente do Zaire por mais de 30 anos, perdeu o controle sobre grande parte do país. As áreas produtoras de cobre e diamante - principais riquezas desse imenso país da África equatorial - já estavam nas mãos dos rebeldes de Laurent Kabila. Mesmo os Estados Unidos, que durante a Guerra Fria apoiaram o ditador zairense em sua cruzada contra o regime pró-soviético da vizinha Angola, deixaram claro que “a era Mobutu chegou ao fim”.
A situação no Zaire começou a se deteriorar quando da eclosão da guerra entre as etnias tutsi e hutu, em Ruanda, em 1994. Durante os meses de conflito, 2 milhões de hutus se refugiaram em vários países vizinhos de Ruanda, especialmente na fronteira com o Zaire. Formaram-se imensos campos que abrigaram, além dos refugiados de guerra, cerca de 60 mil milicianos hutus, responsáveis pelos massacres de tutsis que deflagraram a guerra étnica em Ruanda. Os milicianos hutus criaram um poder paralelo no leste zairense, e com ajuda de chefes militares locais do Zaire organizavam um exército para combater o novo regime tutsi instalado em Ruanda.
O leste do Zaire é habitado por expressivas minorias tutsis – os baniamulenges - que se sentiram ameaçados pela coalizão entre os milicianos hutus e as forças armadas de Mobutu.
Foram os baniamulenges que, financiados pelo regime tutsi de Ruanda e pelo governo de Uganda, constituíram o núcleo do exército de Kabila. O rápido avanço dos rebeldes atestou o estado de decomposição do exército zairense. As forças de Mobutu, no seu recuo desordenado para o oeste, limitaram- se a promover saques e aterrorizar a população das cidades que abandonavam.
Em inúmeros conflitos que aconteceram na África nos últimos 30 anos, foi decisiva a participação de forças externas ao continente, incluindo as superpotências da Guerra Fria, Cuba e França. A meta dos Estados Unidos, integrada à Doutrina Truman, era a de não permitir a ampliação da influência soviética. Por isso, Washington aprofundou relações com países considerados “aliados preferenciais”, como foi o caso do Marrocos, Egito, Nigéria, Libéria, África do Sul e Zaire. Mas, geralmente, Washington preferia deixar a política africana por conta da Grã-Bretanha e França, cuja influência permaneceu grande nos antigos domínios coloniais.
A União Soviética, por seu lado, explorou as ambigüidades da política externa de Washington na África, apoiando o processo de descolonização.
Contudo, as ações mais contundentes dos soviéticos aconteceram apenas a partir da segunda metade dos anos 70, especialmente na Etiópia e nas antigas colônias portuguesas de Angola e Moçambique.
Nesses três países, a instalação de governos pró-soviéticos só foi possível com intenso apoio político e logístico de Moscou, além da participação de quase 50 mil soldados cubanos.
Na metade meridional do continente, África do Sul e Zaire, aliados dos Estados Unidos, e Angola e Moçambique, aliados da União Soviética, configuraram pólos rivais. As tensões geopolíticas só se desanuviaram com o fim da Guerra Fria.
Mas foi a França que mais vezes enviou tropas à África. A maior parte das intervenções verificou-se em antigas colônias e países francófonos. O Zaire de Mobutu, oriundo do antigo Congo Belga, foi o principal peão da presença francesa na África equatorial.
Além das intervenções diretas, Paris estabeleceu uma extensa rede de acordos de assistência militar e de defesa com regimes africanos. O empreendimento pós-colonial francês na África estruturou-se em torno de considerações geopolíticas e de prestígio.
Acima de tudo, tratava-se de tentar conservar o estatuto de potência mundial de um Estado cujo poder declinava.
Complementarmente, tratava-se de assegurar a influência cultural e comercial no mundo de língua francesa, submetido ao cerco cada vez maior da língua inglesa.
Com o fim da Guerra Fria, a África perdeu o seu apelo como campo de disputas. Afastada dos pólos de desenvolvimento, patinando na miséria e nas crises étnicas, assolada por epidemias, o continente parecia destinado ao caos e ao desinteresse. Mas os acontecimentos no Zaire, associados à consolidação de uma democracia multirracial na África do Sul, apontam para outro horizonte.
A queda de Mobutu assinala a configuração de um bloco de regimes aliados que se estende das antigas colônias britânicas da Tanzânia e Uganda até Angola, abrangendo a área francófona do Zaire, Ruanda e Burundi. Em toda essa região, amplia-se a presença diplomática dos Estados Unidos, enquanto a influência francesa se dissipa. Abre-se uma janela para o projeto sul-africano de uma comunidade econômica na África austral e geram-se oportunidades inesperadas de comércio e investimentos internacionais.
A crise no Zaire, com o seu cortejo de horror, pode assinalar uma etapa nova na vida da metade meridional da África.
Boletim Mundo Ano 5 n° 3
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