quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

UMA VIAGEM AO PAÍS DAS MIL ILHAS

Nelson Bacic Olic

Foi uma viagem sentimental. Meus pais nasceram numa das ilhas do litoral do Adriático pertencentes atualmente à Croácia. Minha mãe veio para o Brasil quando tinha 5 anos de idade e meu pai, dez anos depois. Eles se conheceram e se casaram anos mais tarde. Meu pai sempre desejou rever seus familiares, mas não conseguiu realizar seu sonho. Nessa viagem pretendi ser os “olhos” de meu pai em sua terra natal.
Localizada no sudeste da Europa, a Croácia é um país jovem. Surgiu em 1991, como decorrência da desintegração da antiga Iugoslávia. Com 56,5 mil km2 (quase exatamente a área do estado da Paraíba), tem uma população de aproximadamente 4,5 milhões de habitantes.
A Croácia possui três áreas geográficas distintas. Ao norte está a planície da Panônia onde se situa Zagreb, a capital. Cobrindo cerca de metade do território, ela abriga dois terços da população do país.
A segunda região acompanha a costa do Adriático e está dividida em duas áreas. Ao norte, junto à Eslovênia, fica a Península da Ístria. Mais para o sul, a costa da Dalmácia e suas 1.185 ilhas. A costa, basicamente calcárea, se apóia sobre os Alpes Dináricos, prolongamento balcânico da Cadeia dos Alpes. Com características climáticas mediterrâneas, a Dalmácia, concentra quase um terço da população croata.
A terceira região situa-se entre as duas precedentes e é constituída por dobramentos dináricos, intercalados por platôs de rochas calcáreas. A população é pouco numerosa, em grande parte rural.
Nossa viagem começou por Zagreb, cidade de quase 700 mil habitantes e que, durante o século XIX, se tornou a capital intelectual e política do movimento nacional croata. O que chama a atenção na arquitetura de Zagreb é a mistura de estilos.
De um lado, blocos de  prédios no mais puro estilo socialista e, de outro, especialmente na parte central, construções que datam da época em que o país fazia parte do Império Austro-Húngaro. Os habitantes locais orgulham-se de sua história ligada à monarquia dos Habsburgo.
De Zagreb, seguimos para o litoral por uma moderna auto estrada que atravessa a região dos Alpes Dináricos. Na região litorânea da Dalmácia descortinam-se paisagens belíssimas, tendo como pano de fundo um mar azul-turquesa de águas límpidas. É nesse litoral que se encontra Split, a segunda maior cidade croata, onde situa-se o palácio do imperador romano Diocleciano, construção tombada como patrimônio histórico da humanidade.
Encontram-se por toda a costa do Adriático vestígios de palácios, templos, anfiteatros e cidades fortificadas construídas durante a longa dominação de Veneza.
Uma curiosidade é que muitas das cidades e ilhas da região têm nomes croatas, mas conservam lembranças de seus nomes latinos: Split já foi Spalato e Dubrovnik já foi Ragusa.
No caminho de Split a Dubrovnik, a estrada atravessa oito quilômetros da Bósnia, passando pelo porto de Neum. Em Neum deparamos com um destacamento de soldados espanhóis a serviço da ONU que voltavam de seu “estágio” na cidade de Mostar, atuando como força de interposição entre croatas e muçulmanos naquela cidade bósnia. Apesar de a guerra ter terminado há dez anos, ainda hoje forças internacionais estão ali presentes.
Dubrovnik, a “pérola do Adriático”, patrimônio histórico da humanidade, tem sua parte histórica cercada por uma muralha que durante séculos protegeu-a de invasores. Todavia, entre outubro de 1991 e maio de 1992, a cidade foi intensamente bombardeada por forças federais da antiga Iugoslávia, durante o conflito de independência da Croácia. Cerca de 70% dos edifícios da cidade foram afetados. Isso pode ser constatado do alto das muralhas: a maioria das casas exibe telhas novas, de cor alaranjada que contrasta com aquelas das casas poupadas pelos bombardeios.
De Dubrovnik seguimos em direção do Parque de Plitvice, localizado no interior do país. Nesse trajeto subimos o vale do rio Cetina, uma das áreas mais afetadas pelo conflito entre croatas e sérvios. Grande parte dessa área, antes da guerra civil iugoslava, era habitada pelos sérvios, cerca de 11% da população da Croácia na época.
Quando a Croácia declarou sua independência, em 1991, os sérvios da Croácia, majoritários na região, proclamaram sua própria independência e criaram, nesta área, a República Sérvia de Krajina. A entidade política existiu apenas até 1995, quando os sérvios se retiraram da região, fugindo do avanço das forças croatas. Ao longo da estrada, pude notar não só inúmeras casas destruídas e abandonadas como também cidades que ainda hoje mostram cicatrizes da guerra, especialmente Knin, antiga capital da República de Krajina. Em vários pontos, à beira da estrada, divisam-se sepulturas – as testemunhas silenciosas dos combates que ali ocorreram. O parque nacional de Plitvice, formado por mais de uma dezena de lagos de águas límpidas e cascatas, ficou marcado por um evento trágico: ali tombaram as primeiras vítimas do conflito.
A parte final da viagem foi a ilha de Korcula. Embarcamos em Split e, depois de duas horas, chegamos a Vela Luka, a cidade de meu pai. Entre os poucos e pequenos núcleos urbanos da ilha estão Blato (terra da minha mãe) e Korcula, cidade onde nasceu Marco Pólo, no longínquo ano de 1254. Nesta parte da viagem, surpresas me aguardavam. Pude conhecer a casa em que meu pai nasceu e descobri que, antes de migrar para o Brasil, ele tivera um filho. Infelizmente não pude conhecer meu irmão, que morreu há dois anos. Para compensar, minha família cresceu consideravelmente: uma cunhada, duas sobrinhas e seus filhos.

Boletim Mundo n° 4 Ano 13

Nenhum comentário:

Postar um comentário