Claro que as nações em desenvolvimento têm o direito de ocupar, a médio prazo, o posto de direção do FMI ou a chefia do Banco Mundial. Mas penso que, na atual situação, de sérios problemas com o euro nos quais o FMI está fortemente envolvido, existem muitos motivos favoráveis à apresentação de uma candidatura européia.” O raciocínio, exposto pela a primeira-ministra alemã Angela Merkel em meados de maio, continha uma mensagem ameaçadora oculta no invólucro de um argumento absurdo.
O argumento absurdo salta aos olhos.De fato, o FMI é, junto com a União Européia (UE), a fonte de financiamento dos vultosos pacotes de empréstimos emergenciais para os países em crise da periferia da Zona do Euro. Porém, justamente por esse motivo, um europeu não deveria ser escolhido nesse preciso momento para dirigir o FMI. Seguindo a curiosa lógica de Merkel, um grande banco deve colocar à frente da sua diretoria o representante do maior bloco de devedores. Mas, se é assim, o FMI precisaria ter escolhido um diretor-gerente argentino em 2000, um brasileiro em 1999, um asiático em 1997 ou um mexicano em 1994.
A ameaça é mais sutil. O cargo de diretor- gerente do FMI ficou vago dias antes da declaração de Merkel, devido à renúncia do francês Dominique Strauss-Khan, após sua prisão em Nova York sob a acusação de agressão sexual a uma camareira do hotel no qual estava hospedado. Mas um processo sucessório no Banco Mundial só se abrirá no ano que vem, quando se encerra o mandato de seu presidente, o americano Robert Zoellick. Ao mencionar o tema que não estava em pauta, a alemã enviava uma mensagem a Barack Obama.
Ela pretendia dizer que o preço do apoio da UE a uma candidatura americana à sucessão de Zoellick era o apoio de Washington à também francesa Christine Lagarde, a candidata européia ao FMI.
Não há nenhuma regra formal que determine que o posto de número um do FMI cabe a um europeu e o posto similar no Banco Mundial é um monopólio dos Estados Unidos. Mas um acerto informal assegura essa divisão do poder nas duas grandes instituições financeiras internacionais desde que elas foram criadas, na Conferência de Bretton Woods, em 1944.
O “acordo de cavalheiros” fazia sentido.
Assim como o Conselho de Segurança da ONU (CS) foi constituído como um clube das cinco maiores potências militares do pós-guerra, as instituições de Bretton Woods organizaram-se como expressões do poderio econômico dos Estados Unidos e das potências européias capitalistas.
No fundo, o acerto refletia, na esfera das altas finanças globais, a mesma aliança que se traduzia na esfera militar pela existência da OTAN.
Hoje, o “acordo de cavalheiros” converteu-se quase numa relíquia, sofrendo de uma perda de legitimidade semelhante à que desgasta o CS. Na tentativa de reformar o sistema de governança da economia global, procura-se ampliar o peso das nações em desenvolvimento. Assim, o G-7 cedeu suas principais funções ao G-20 e um rearranjo nos direitos de voto nas instituições de Bretton Woods conferiu maior poder às chamadas “economias emergentes”. Não por acaso, em 2007, quando Strauss-Khan foi escolhido para dirigir o FMI, diversas altas autoridades da UE declararam que, depois dele, seria finalmente a vez de um não europeu.
A articulação dos europeus em torno de Lagarde gerou reações furiosas nas nações em desenvolvimento. O Business Standard, da Índia, qualificou os argumentos de Merkel como “espúrios”. Uma coluna assinada no Straits Times, de Cingapura, registrou um “cheiro de colonialismo” na pretensão européia. O Khaleej Times, de Dubai, denunciou o processo de seleção no FMI como uma forma de apartheid. Mais comedido, o ministro da Fazenda brasileiro Guido Mantega disse que as economias emergentes estão sub- representadas na instituição.
O poder, contudo, nunca é concedido voluntariamente: tem sempre que ser arrancado dos seus detentores. Os europeus, organizados na UE, acostumados a operar juntos na arena econômica mundial, formaram sem demora uma frente unida de apoio a Lagarde. Os países em desenvolvimento, pelo contrário, evidenciaram uma desarticulação que espelha seus diferentes interesses nacionais. Como assinalou o The Pioneer, da Índia, os BRICs revelaram-se “incapazes de decidir sobre um candidato comum”. Da desordem, emergiu a candidatura mexicana de Agustín Carstens – que, em função de suas ligações umbilicais com os Estados Unidos, não obteve nem mesmo o apoio do restante da América Latina.
Apesar das mudanças recentes, Estados Unidos e Europa juntos conservam quase 48% dos direitos totais de voto, o que lhes assegura o predomínio no FMI.
Os Estados Unidos, confrontados com a argumentação sem sentido de Merkel, viram-se em situação política desconfortável. Tim Geithner, o secretário do Tesouro americano, chegou a insinuar que Washington preferiria um “processo aberto”, forma diplomática de sugerir um recuo europeu. Contudo, diante da hipótese real de uma retaliação no Banco Mundial, o governo Obama não estava disposto a desafiar a vontade da UE. A prudência de Washington é compreensível. Obama enxerga nos recursos do Banco Mundial uma ferramenta valiosa para a influência futura dos Estados Unidos no mundo árabe em revolução. Além disso, a presidência da instituição funciona como uma âncora da confiança global no dólar, numa época de retrocesso econômico e assustador crescimento da dívida americana.
O triunfo de Lagarde representa uma vitória ambígua para os europeus. A instituição que a francesa comandará lutava para recuperar uma credibilidade perdida. Agora, será vista como um joguete nas mãos dos europeus em sua tentativa de salvar o projeto do euro. Na Ásia, especialmente na China, não são poucos os que ruminam a idéia de criação de um Fundo Monetário Asiático. Seria um passo gigantesco num rumo perigoso de fragmentação da ordem econômica e financeira global.
Boletim Mundo n° 4 Ano 19

Nenhum comentário:
Postar um comentário