Novo presidente peruano apresentou-se às eleições de 2006 como um companheiro de armas de Hugo Chávez – e perdeu. Agora, triunfou colando sua imagem à de Lula.
Ollanta Humala prometeu mudanças “consensuais” depois de eleger-se o presidente de número 94 na história republicana do Peru. Não faltaram golpes militares.Há tempos, depois de mais um deles, um jornal peruano estampou a manchete “voltamos à realidade”. Pleito agora em dois turnos, disputadíssimos, com ele e Keiko Fujimori na linha de frente dando um toque feminino.
Keiko herdou votos do pai Alberto, ex-presidente, na cadeia por abuso do poder e corrupção, que construiu sua popularidade aniquilando a guerrilha do Sendero Luminoso e inclusive prendendo seu chefão.
Mas Keiko perdeu e agora emerge uma indagação geral: o que os peruanos terão em palácio? O reformista radical das eleições perdidas em 2006 ou o moderado construtor de consensos de 2011? Seu discurso de vitória pareceu indicar a segunda opção. Indicaria o mesmo a decisão de viajar de imediato ao Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina e, curiosamente, ao Chile. Peru e Chile travaram uma guerra no século XIX e o Peru procura recuperar terras perdidas na Corte Internacional de Haia.
Na mesma Guerra do Pacífico, a Bolívia, aliada do Peru, perdeu sua saída para o mar e tenta recuperá-la. Antes de se eleger, Humala disse que também a Bolívia tem razão, mas “a melhor coisa é não se envolver nisso”. Há, ainda, a economia. O Peru é visto como estrela ascendente do neoliberalismo na América Latina e a grande expectativa era saber se Humala tomaria outra direção, se incorporando à Venezuela, Bolívia e Equador numa entidade bolivariana.
Os indícios continuam sendo que não.
Fica claro, ainda, que Lima, a capital do país, não será o eixo principal da política peruana nos próximos cinco anos. Os eleitores pobres e marginalizados das áreas rurais, com um montão de conflitos sociais, terão prioridade.
Humala ganhou em 18 departamentos do Planalto Central, nas regiões do sudeste. Triunfou em Apurimac, Ayacucho, Cuzco e Puno, por uma grande margem de votos.
Já Fujimori ganhou em Lima e no centro portuário de Callao, mas não obteve triunfos na mesma escala das vitórias de Humala nos outros departamentos. As vitórias de Keiko se concentraram nas cinco regiões costeiras, as mais ricas do Peru. Os resultados consagram o fato de que os dois candidatos finais estavam altamente polarizados e, com algumas exceções, dividiram o país ao meio em suas geografia, demografia e sócio- economia. Em seu discurso, proferido logo depois de conhecida a vitória e de uma passeata de muitos milhares, Humala disse que pretende formar um “governo de consenso nacional que represente as forças democráticas e seja aberto à sociedade civil”.
Procurou, com isso, acalmar mercados financeiros agitados e com quedas acentuadas diante de sua vitória.
Conseguiu. Os mercados se recuperaram um dia depois de terminada a contagem dos votos. Humala procurou dizer que a única forma de garantir a inclusão social é preservando a estabilidade econômica. Há quem veja aí dedos de petistas que “assessoraram” o vencedor no Peru.
O argentino Luis Favre, ex-marido de Marta Suplicy e confidente de Lula, figurou no alto círculo de campanha do novo presidente peruano. Humala também disse acreditar que governar não é um exercício unilateral e se comprometeu a buscar apoio de outros partidos e a recrutar auxiliares independentes. Analistas dizem que não se tratou somente de desfazer preocupações de investidores.
Foi também o caminho escolhido para garantir a governabilidade em mãos de sua coligação “Gana Peru”.
Estará ele à procura de um PMDB?
Humala ficou mesmo sem a garantia de maioria simples no Congresso e muito longe dos dois terços de votos necessários para alterações na Constituição. Além disso, terá de mostrar muito talento em sua disposição de construir consensos. Numa entrevista dada ao jornal peruano República, um de seus esteios na imprensa, Humala revelou que pensa propor referendos nos quais os peruanos decidam pela manutenção ou revogação de mandatos do presidente e de parlamentares. Chavismo? Há, por outro lado, sintomas não chavistas. Ao contrário do venezuelano Hugo Chávez, Humala se recusa a lotar seu gabinete de militares. Diz que aos militares cabe tratar de defesa nacional. E que política é assunto de políticos.
Ele também rechaçou comparações com o general nacionalista Juan Velasco Alvarado, que liderou um golpe militar em 1968, estatizou empresas estrangeiras e encurralou a imprensa. “Foi uma ditadura militar e eu fui eleito”, disse Humala. Prometeu não intervir no Judiciário para libertar seu irmão Antauro, que liderou uma tentativa de golpe em 2005. O candidato vencedor no Peru, embora continue produzindo desconfianças em Washington, faz questão de dizer que quer ter os Estados Unidos como “parceiro estratégico” no combate às drogas. Como combinar isso com o proclamado “anti-imperialismo” de seu partido? Diz-se que Humala teve o apoio de conhecidos líderes cocaleros, cultivadores de coca, dois deles eleitos deputados.
Os cocaleros nunca se definiram apenas como camponeses, mas também como indígenas plantadores e protetores de uma folha simbólica para a sua cultura, a consagrada folha de coca. É movimento social fortíssimo.
Humala conquistou-o com seu indigenismo. Promete apoio à “integração da América Latina, independente de questões ideológicas” como o melhor meio de combater a pobreza, as desigualdades e a fome. Seria “subordinação da ideologia ao pragmatismo”.
Antes de embarcar para sua primeira viagem ao exterior, depois de eleito, Humala encontrou-se com poderosos empresários.
Pediram ao presidente que mantenha o modelo econômico e a nomeação rápida do ministro da Economia e do presidente do Banco Central. Ficou de pé o compromisso de preservar o atual “modelo de crescimento”, que seria, segundo Humala, “o motor da inclusão social”. No papel, é uma mudança e tanto do candidato radical que, há cinco anos, foi descrito como um Chávez peruano.
Boletim Mundo n° 4 Ano 19

Nenhum comentário:
Postar um comentário