Nos últimos dez anos, o comércio exterior brasileiro atingiu um novo patamar.
Nesse período, o país tornou-se um dos principais participantes em diversos segmentos (soja, minério de ferro, açúcar, café e carnes), ampliou o leque de produtos exportados e diversificou seus parceiros comerciais. Os valores das exportações mais que triplicaram. O Brasil também se tornou uma voz importante nas negociações realizadas no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).Tais resultados foram conseqüência de uma combinação de fatores, com destaque para o crescimento extraordinário do consumo mundial, puxado pelos países emergentes, especialmente a China, que ampliou a participação das matérias-primas agrícolas e minerais (commodities) na pauta global de exportações. Assim, o comércio exterior ganhou maior importância na economia brasileira, passando a ser uma fonte crucial de divisas para o país.
Se, na década de 1990, a participação das exportações no conjunto do PIB variava entre 6% e 9%, na primeira década do novo século essa participação ficou entre 10% e 15%. Mesmo assim, a importância do Brasil no total do comércio mundial continua pequena – cerca de 1,5%.
Para melhorar seu desempenho internacional, o Brasil precisa superar grandes desafios, especialmente no que tange aos investimentos na infra-estrutura viária e energética, além de modificar seu arcaico sistema tributário. Além disso, persistem as barreiras comerciais e os subsídios domésticos, especialmente nos mercados desenvolvidos, que continuam criando obstáculos à expansão das vendas e conquista de novos mercados. A crise econômica atual deve acirrar ainda mais as práticas protecionistas.
O Brasil não tem todo o tempo do mundo para solucionar os seus gargalos internos, antes que eles ponham em risco a continuidade desse processo de crescimento.
A primeira década do século foi um período de ouro do comércio exterior, mas as suas oportunidades excepcionais não perdurarão indefinidamente.
Uma transição acompanhou a virada de século. Depois de passar praticamente toda a década de 1990 experimentando saldos negativos em sua balança comercial, a partir de 2001 o Brasil passou a realizar sucessivos superávits. De 2001 a 2006, o crescimento dos superávits foi constante.
Todavia, o ritmo começou a arrefecer a partir de 2007, recuperando-se um pouco em 2009 e voltando a cair em 2010.
Neste último ano, o saldo da balança comercial foi o menor desde 2003 – e menos da metade do registrado em 2006.
Os resultados dos primeiros sete meses de 2011 confirmam a continuidade do superávit comercial, que deverá ser maior que o de 2010 mas inferior aos registrados entre 2004 e 2007. As exportações cresceram em relação a 2010, pois a voracidade de matérias-primas por parte da China conserva o preço das commodities em patamares bem elevados. Mas as importações também cresceram, em decorrência da valorização do real. O segundo semestre deste ano provavelmente não será tão auspicioso. A crise econômica mundial dá sinais de estar afetando a China, nosso principal parceiro comercial, que ainda registrará um crescimento robusto, mas com queda de ritmo.
Nosso comércio exterior é muito sensível às variações cambiais. Até 2006, as vendas para o exterior tiveram um incremento bem mais rápido que as importações, situação que se inverteu a partir de 2007, com a valorização do real. Em 2010, o valor absoluto das importações (US$ 181,6 bilhões) foi dos mais elevados da história, mas o mesmo ocorreu com as exportações (US$ 201,9 bilhões), cifra que superou o recorde obtido em 2008 (US$ 198 bilhões).
Nos últimos dez anos, o Brasil também diversificou seus parceiros comerciais, principalmente junto ao mundo em desenvolvimento, com destaque para a Ásia e Oriente Médio, e reduziu sua dependência dos Estados Unidos e da Europa. No início da década, os Estados Unidos eram os maiores compradores dos produtos brasileiros (22% do total) e também nossos maiores fornecedores (24%). Com o tempo, essa participação foi diminuindo e, em 2009, pela primeira vez, os Estados Unidos foram desbancados pela China. Em 2010, as exportações brasileiras para a China foram bem maiores que as exportações para os Estados Unidos. Em termos de importação há praticamente um “empate técnico” entre esses dois parceiros. Todavia, há uma diferença importante: enquanto obtém superávits – cada vez menores – com a China, com o Brasil registra saldos negativos constantes no comércio bilateral com os Estados Unidos. A Argentina, nosso principal sócio no âmbito do Mercosul, é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil.
Em termos de blocos econômicos a União Européia continua sendo um importante parceiro, responsável ao longo de toda a década por cerca de 22% de nossa corrente de comércio (exportações e importações somadas). A Ásia aumentou sua participação e hoje representa quase 30% da corrente comercial do Brasil. Os Estados Unidos diminuíram sua participação, representando cerca de 13%. O Mercosul, fundamentalmente a Argentina, responde por pouco mais de 10% de nosso comércio exterior. O declínio da importância do Mercosul reflete tanto as mudanças no panorama do comércio mundial quanto as dificuldades enfrentadas pelo bloco do Cone Sul.
No que se refere à pauta de produtos, tanto exportados como importados, houve grande diversificação. Apesar de exportar produtos de tecnologia avançada, como aeronaves, automóveis e veículos de carga, o Brasil sofre uma “primarização” das exportações, com participação crescente das matérias- primas minerais e agrícolas. Em 2010, as commodities representavam cerca de dois terços do total de nossas exportações. Aí, também, o “efeito China” é decisivo.
Boletim Mundo n° 5 Ano 19

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