(...) Essa votação na ONU – na Assembléia Geral e no Conselho de Segurança; em certo sentido, nem faz diferença – dividirá o Ocidente: Estados Unidos de um lado; árabes, de outro. Abrirá em fendas as divisões que há dentro da União Européia, entre europeus do leste e europeus do oeste; entre Alemanha e França (Alemanha apoiando Israel pelas razões históricas de sempre; a França atormentada pelo sofrimento dos palestinos). E, claro, será como cunha cravada entre Israel e a União Européia.”
Com seu habitual poder de síntese, o correspondente britânico Robert Fisk descreveu o impacto político global do pedido de reconhecimento oficial do estado palestino feito pelo presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas, em 23 de setembro, à 66ª Assembléia Geral das Nações Unidas. Abbas, aplaudido de pé pela imensa maioria dos delegados presentes, entregou formalmente o seu pedido ao secretário-geral Ban Ki-Moon. A reunião foi aberta por um discurso da presidenta Dilma Rousseff – a primeira mulher a abrir uma Assembléia Geral da entidade –, que defendeu a criação do estado palestino.O pedido de Abbas tem que ser apreciado pelo Conselho de Segurança da ONU, integrado pelos cinco países com poder de veto (Estados Unidos, Rússia, China, França e Inglaterra).
Mas, mesmo antes de o pedido ser feito, o presidente americano Barack Obama já havia anunciado sua intenção de vetá-lo. De olho nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, no próximo ano, Obama não se atreve a desafiar o poderoso lobby sionista em seu país. Após a consumação do veto americano, a proposta deverá ser apreciada pelo plenário da Assembléia Geral e, uma vez aprovada por maioria de dois terços (o que é quase certo), a representação palestina ganhará status de membro observador (não pleno).
O pedido de Abbas aprofunda o quadro de tensão regional no Oriente Médio. Com a recusa em reconhecer o estado palestino, os Estados Unidos perderam o pouco de credibilidade que ainda tinham entre as lideranças árabes, e se tornam alvo fácil do ódio das camadas populares. Israel está mais isolado do que nunca, após a queda do ditador egípcio Hosni Mubarak, seu aliado de três décadas, e especialmente após a recente crise diplomática com a Turquia, outro ex-tradicional e poderoso aliado, por sua recusa em desculpar-se pelo ataque à Flotilha da Paz turca que levava suprimentos aos palestinos de Gaza, em 2010.
Os ânimos tendem a se exaltar nos territórios palestinos ocupados, e um sintoma disso foram as críticas do Hamas, grupo que detém o poder na Faixa de Gaza, à proposta de Abbas. Para o Hamas, o reconhecimento de um estado palestino sob ocupação israelense implicaria, na prática, abandonar a população palestina na diáspora (isto é, os palestinos que foram expulsos de suas terras em 1948, quando foi criado o estado de Israel), a renunciar à soberania (pois o novo estado nasceria sob ocupação) e a abandonar a luta pelas fronteiras delimitadas em 1948.
Esse novo quadro fortalece os discursos mais radicais, como o do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, que, na mesma Assembléia Geral, responsabilizou o apoio incondicional dos Estados Unidos a Israel pelo impasse criado com os palestinos. Durante o seu discurso, as delegações americana e européias retiraram-se do plenário, numa clara demonstração do abismo que se aprofunda.
Para a Europa atormentada pela crise econômica, o aumento das tensões no Oriente Médio é um pesadelo, por várias razões. Em primeiro lugar, porque novos levantes populares ameaçam a estabilidade do fluxo de petróleo para o continente e gera fortes oscilações do preço do barril, o que, por si só, já pode causar um dano considerável nos bolsos já vazios dos consumidores. Segundo, porque as tensões tendem a ganhar amplitudes maiores, com a agitação das comunidades de imigrantes árabes e muçulmanos que vivem nos países europeus. Por fim, porque tudo isso mexe com o imaginário já bastante nervoso dos que temem novos ataques terroristas a qualquer momento.
Assim, para além dos impactos gerados dentro dos próprios territórios ocupados e em sua relação com Israel, o pedido de Abbas assume uma importância mundial.
Mais uma vez, o conflito entre palestinos e israelenses são colocados no centro de um imenso e complicadíssimo tabuleiro de xadrez, sobre o qual se decide os destinos do planeta. “No novo Oriente Médio, com o despertar árabe e a revolta de povos livres que exigem dignidade e liberdade, esse voto da ONU – aprovado pela Assembléia Geral, vetado pelos EUA se for para o Conselho de Segurança – constitui uma espécie de pino que faz girar tudo que a ele esteja ligado: vira-se aí uma página, e marca-se também o fracasso do império”, diz Robert Fisk. E continua: “A política externa dos Estados Unidos tornou-se de tal modo presa a Israel, tão temerosos, tão assustadiços ante Israel tornaram-se quase todos os deputados, deputadas, senadores e senadoras dos Estados Unidos – a ponto de amarem mais Israel que os Estados Unidos –, que os Estados Unidos, essa semana, deixarão de ser a nação que gerou Woodrow Wilson e seus 14 princípios de autodeterminação, não o país que combateu o nazismo e o fascismo e o militarismo japonês, não o farol da liberdade que, como nos dizem, os seus Pais Fundadores representaram –, e se revelarão ao mundo como estado autista, intratável, acovardado, cujo presidente, depois de prometer novo afeto ao mundo muçulmano, é forçado a apoiar uma potência ocupante contra um povo que nada pede além do reconhecimento do estado independente ao qual tem perfeito direito.”
Boletim Mundo n° 6 Ano 19
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