PRIMEIRO, DEBATER OS ESTÁGIOS DO DECLÍNIO PODE SER UMA PERDA DE TEMPO – AS AUTORIDADES PÚBLICAS E OS CIDADÃOS DEVEM SE PREOCUPAR COM UMA QUEDA PRECIPITADA, INESPERADA. SEGUNDO, MUITAS QUEDAS DE IMPÉRIOS ESTIVERAM ASSOCIADAS A CRISES FISCAIS. (...) OS SINOS DE ALARME DEVERIAM, DE FATO, ESTAR SOANDO RUIDOSAMENTE QUANDO OS ESTADOS UNIDOS CONTEMPLAM UM DÉFICIT PARA 2009 DE MAIS DE US$ 1,4 TRILHÃO – CERCA DE 11,2% DO PIB, O MAIOR EM 60 ANOS (...).
(NIALL FERGUSON, “COMPLEXITY AND COLLAPSE: EMPIRES ON THE EDGE OF CHAOS”, FOREIGN AFFAIRS, ABRIL/MARÇO 2010)
Logo depois dos atentados do 11 de setembro de 2001, alguns intelectuais antiamericanos deram um passo à frente para saudar os terroristas jihadistas que teriam acertado um golpe mortal no “imperialismo”.
O júbilo deles era imoral – mas tinha sentido?Há uma tendência quase irresistível a ler a história do presente para o passado.
Os Estados Unidos de 2011 não se parecem nem um pouco com a nação confiante das primeiras horas da manhã daquele 11 de setembro, antes dos aviões seqüestrados se chocarem contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York.
Nos domínios da coordenação global de políticas econômicas, o G-7, clube de países ricos, cedeu lugar ao G-20, fórum heterogêneo que abrange os países em desenvolvimento.
Na esfera econômica, vergado sob uma crise fiscal sem precedentes, os Estados Unidos anunciam amplos, duradouros, cortes de gastos públicos que atingirão tanto a Defesa quanto os benefícios sociais para os pobres. No terreno geopolítico, Washington recua em diversas frentes, retirando tropas do Iraque e do Afeganistão enquanto concede à Europa o papel decisivo na modesta operação militar contra o regime de Muammar Kadafi, na Líbia.
Não estariam as razões de tudo isso nos ataques terroristas promovidos pela Al-Qaeda há exatos dez anos?
A leitura determinista da história oculta tudo que não se amolda à sua lógica narrativa. Especialmente, ela borra o universo de decisões políticas que, em cada momento, conferiram um rumo aos eventos e provocaram séries de conseqüências, muitas delas inesperadas. Os Estados Unidos emergiram da tragédia do 11 de setembro com um vasto leque de opções estratégicas – e com a solidariedade da comunidade internacional. O declínio, tão evidente dez anos depois, não deriva dos atentados terroristas, mas das decisões políticas adotadas em torno das ruínas fumegantes das Torres Gêmeas.
George W. Bush definiu o rumo de seu governo, que tinha poucos meses, no calor da tragédia. Cavalgando a onda de indignação patriótica daquelas semanas, ele soldou os dois componentes de sua coalizão política – a direita cristã isolacionista e os neoconservadores internacionalistas – com a cola da “guerra ao terror”. Inspirado pelo pensamento de intelectuais como Bernard Lewis e Samuel Huntington, o governo Bush delineou o cenário de um confronto entre o Ocidente e o Islã.
A idéia de “cruzada”, uma palavra que chegou a ser usada num desastrado discurso presidencial, contaminou todas as decisões seguintes.
O terror global era uma ameaça verdadeira, não uma fábula, como evidenciaram os atentados sucessivos, sangrentos, cometidos pelas organizações jihadistas contra nações ocidentais, árabes, muçulmanas, asiáticas e africanas. Mas a “guerra ao terror”, nos moldes definidos por Bush, atribuía a violência ao próprio Islã, não à corrente degenerada do fundamentalismo que se organizou sobre a plataforma de uma “nova jihad”. Nos primeiros anos da “guerra ao terror”, a política de Washington contribuiu para a expansão da influência da Al-Qaeda num mundo árabe-muçulmano submetido a ditaduras ferozes e ressentido pela aliança incondicional dos Estados Unidos com Israel.
Washington engajou- se primeiro numa ofensiva militar contra o regime do Talebã, no Afeganistão. Depois, usando o terror como mero pretexto e desafiando a oposição majoritária no Conselho de Segurança da ONU, Bush ordenou a invasão do Iraque. O então senador Barack Obama batizou a operação no Afeganistão como “guerra de necessidade” e a no Iraque como “guerra de escolha – e uma escolha estúpida”. Derrubar Saddam Hussein foi relativamente fácil, mas estabilizar o país ocupado revelou-se quase impossível. O ambicioso projeto imperial de remodelar o Oriente Médio segundo a vontade dos neoconservadores afundou no pântano iraquiano. Irã e Síria, classificados por Bush como integrantes de um “eixo do mal” seriam os alvos, depois do Iraque. No lugar disso, porém, o Irã emergiu como principal potência regional e acelerou seu programa nuclear.
Jihadistas e fundamentalistas islâmicos desprezam as liberdades políticas e as garantias individuais. Em nome da “guerra ao terror”, o governo Bush conseguiu do Congresso americano a aprovação da Lei Patriótica, que restringiu as garantias individuais, subordinando-as ao imperativo da segurança. A tortura de suspeitos de terrorismo converteu-se em prática sistemática na prisão offshore de Guantánamo – e documentos oficiais da Casa Branca delinearam uma política destinada a ignorar os tratados internacionais contra a tortura. Na prisão de Abu Ghraib, no Iraque ocupado, oficiais e soldados americanos torturaram detidos indefesos.
Normalmente, em época de guerra externa, os governos elevam impostos e pedem aos cidadãos que apertem os cintos.
Bush fez o oposto. Cortou os impostos, principalmente para os mais ricos, enquanto elevava as despesas públicas, em especial os gastos militares. O crédito farto, os juros baixos e a especulação financeira aqueceram o fogo da crise das hipotecas imobiliárias.
Nos últimos meses de governo, Bush assistiu ao estouro da bolha especulativa e à quebra do banco Lehman Brothers, que detonou o colapso financeiro global. Aquelas circunstâncias propiciaram o triunfo consagrador de Obama nas eleições de 2008. Uma era chegava ao fim.
O vaticínio do declínio americano não é novo. Há quase quatro décadas, as teorias declinistas articulavam-se em torno dos “choques do petróleo”. Depois, cerca de três décadas atrás, os declinistas asseguravam que os Estados Unidos seriam ultrapassados pelo Japão, uma profecia desmentida em pouco tempo. Hoje, o declinismo garante que a hegemonia americana dará lugar à liderança da China. É preciso cuidado com a nova profecia, mas os sinais de declínio estão por todos os lados.
A Al-Qaeda não venceu a guerra anunciada em setembro de 2001. Pelo contrário, desmoralizou-se no mundo árabe-muçulmano, como evidenciam as revoltas democráticas que eclodiram na Tunísia e no Egito. Mas, dez anos depois, os Estados Unidos não emergiram triunfantes. O declínio pode ser longo e lento, percorrendo diversos estágios intermediários, como imaginam muitos analistas. Pode, ainda, provocar um súbito, catastrófico colapso, derivado de uma intratável crise fiscal, como sugere o historiador Niall Ferguson. O certo é que o apogeu da hiper-potência ficou para trás – e não por culpa dos terroristas da jihad global.
Boletim Mundo n° 5 Ano 19
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