O movimento estudantil chileno alastrou-se e ganhou apoio da população. Todo o ensino superior é pago, o que gera um endividamento de longo prazo da juventude do país.
Em janeiro de 2011, de férias, visitei Santiago pela primeira vez. Com olhos de turista, me encantei pelas cordilheiras, parques e pela arquitetura antiga que cobre boa parte da cidade. Eu jamais poderia imaginar que, apenas sete meses depois, voltaria à cidade e, com olhos de jornalista, veria um Chile submerso em manifestações públicas.Logo que cheguei, no caminho entre o aeroporto e o albergue onde ficaria por uma semana, percebi a dimensão das mobilizações que se estendiam no país há quase três meses. Frases contra o modelo educacional chileno salpicavam os muros da cidade, e aumentavam em quantidade conforme eu me aproximava do centro. “Todos estão se levantando, e você, quando se levantará?”, li na parede de uma igreja. “Detenhamos o lucro na educação”, dizia uma pichação ao lado.
Só consegui entender com exatidão a segunda frase no dia seguinte, quando Oscar Gamboa, um simpático chileno, levou a mim e a um colega jornalista ao colégio Raimapu, onde estudam suas filhas. No colégio, que presta educação básica, fundamental e média, cadeiras empilhavam-se nos portões. Em todo o país, é desta forma que os estudantes sinalizam que o local foi ocupado.
Fomos recebidos por Taide Zaror, uma tímida estudante de 15 anos, e conversamos por toda a tarde.
Descobri que, no Chile, o lucro na educação superior é proibido por uma lei expedida no fim da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). Aquele decreto privatizou toda a educação universitária chilena, mas proibiu que os donos de instituições de ensino superior lucrassem com as atividades. A proibição, instituída para amenizar os conflitos entre a esquerda e a já desgastada ditadura, não é respeitada atualmente. Os proprietários de universidades acharam diversas formas de burlá-la. A mais comum é fundar uma construtora e alugar terrenos para a sua própria instituição de ensino.
Com Oscar, fomos à Praça Ñuñoa, localizada em uma região boêmia da cidade. Por volta das nova da noite chegamos à praça, onde cerca de 200 pessoas batiam panelas e cantavam músicas de protesto. Fui informada de que aquele era um sábado incomum no local pois, como efeito do feriado da segunda-feira, reduzira-se o número de manifestantes. A professora de filosofia Valéria Gabera, enrolada em uma bandeira chilena onde se lia Educação gratuita e de qualidade, me contou que a praça costumava receber cerca de três mil pessoas todas as noites, e que conflitos com os carabineros, a polícia militar chilena, eram quase diários.
Pouco depois chegaram pessoas com tambores, e os manifestantes que estavam na praça se dirigiram a um cruzamento de ruas mais à frente. Não muito longe avistava-se a luz piscante de um carro dos carabineros atravessado na avenida. Quando os manifestantes tomaram a rua, um evento revelou o tom lúdico das manifestações chilenas. Os carabineros deixaram claro que não permitiriam que as pessoas parassem o trânsito. Em tom jocoso, os presentes resolveram o impasse esperando na calçada até que o farol de pedestres fique verde; então, pulavam para a rua expondo cartazes aos carros, dançando e cantando.
Meia hora depois, chegou um carro da polícia com mangueiras de água. Os carabineros se afastaram e um jato d’água foi descarregado. Perguntei à filha de Oscar, Catalina, de 15 anos, se aquilo que sai do carro é só água.
“Quando isso cai no rosto arde. Fizeram análises e descobriram fezes nessa água”, garantiu a garota.
Andar por Santiago era uma experiência singular. As reivindicações estudantis estavam em todos os cantos, das mais diversas formas. De apresentações de dança e música tradicional chilena a corridas em volta do Palácio de La Moneda, eram muitas as formas de protestar – e não eram só os estudantes que se levantavam. Dos mineiros de cobre aos funcionários do Banco do Chile, diversas categorias de trabalhadores realizaram greves e paralisações, buscando melhorias nas condições de trabalho ou declarando apoio aos estudantes.
Visitei a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e a Casa Central da Universidade do Chile, ambas ocupadas, e entendi outra crítica feita ao sistema educacional chileno: o endividamento estudantil. Como não existem universidades gratuitas, muitos alunos recorrem a um sistema de financiamento do Estado para conseguir fazer um curso superior mas, devido aos altos juros, alguns demoram até 20 anos para pagar seus estudos.
Entendi o impacto social do endividamento no meu penúltimo dia no Chile, quando acompanhei uma das muitas marchas organizadas pelos estudantes. Juntei-me à multidão no centro de Santiago e seguimos pelo caminho combinado com a polícia, pois estava proibido passar pela avenida General Bernardo O’Higgins, principal artéria da cidade, assim como pelos arredores do Palácio de La Moneda. Enquanto desenrolava-se a marcha, os moradores demonstravam seu apoio jogando papéis picados pelas janelas. Apesar da chuva e neve que caíam naquele 18 de agosto, cerca de 120 mil pessoas foram às ruas em Santiago, no que ficou conhecido como “A Marcha dos Guarda- Chuvas”. Eu não imaginava que, três dias após meu retorno ao Brasil, outra marcha reuniria um milhão na cidade.
Um dos momentos marcantes de minha temporada chilena foi a conversa com estudantes durante a marcha. O endividamento é um fenômeno generalizado. Nicole Hernández, estudante de pedagogia, delineou seu futuro: “Quando eu terminar meu curso, vou começar a pagá-lo, mas os salários dos professores no Chile não são altos e estarei muito endividada.
Eu não sei quando vou conseguir pagar.”
Boletim Mundo n° 6 Ano 19
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