A região das Planícies Centrais do Canadá abrange três das dez províncias do país – e a mais ocidental delas, Alberta, é conhecida como a “Rosa Selvagem”. Nela, 70% do território é composto por planícies, mas sua porção sudoeste apresenta relevo bem mais acidentado devido à presença das Montanhas Rochosas. É nessa área, compartilhada entre Alberta e a província vizinha da Colúmbia Britânica, que se situam os maiores parques nacionais do Canadá, como os de Banff e Jásper.
Alberta concentra cerca de 3,5 milhões de habitantes, cerca de um décimo da população do país. Apesar da grande importância do setor primário de sua economia, mais de 80% da população da província reside mo meio urbano e se concentra principalmente em duas cidades: Edmonton, a capital administrativa (1,1 milhão) e Calgary, o maior núcleo financeiro (1,2 milhão).Fundada em 1905, Calgary desenvolveu-se primeiramente em função da produção agropecuária. Em 1947, com a descoberta de grandes jazidas de petróleo na província, a economia da cidade decolou, adquirindo ainda maior dinamismo com descobertas de novas jazidas nas décadas de 1960 e 1970. A exploração dessas reservas transformou o Canadá no maior fornecedor de petróleo e gás natural para os Estados Unidos.
Quatro horas de vôo separam Calgary de Toronto, a principal metrópole canadense.
O centro da cidade é formado por uma compacta aglomeração de edifícios, que contrasta com uma vasta mancha urbana horizontal, a maior do Canadá. A cidade tem invernos gélidos, com temperaturas que podem atingir até 40 oC negativos.
Em diversos pontos do centro, passarelas fechadas interligam edifícios, projetando-se sobre as ruas. Num belo domingo de sol, do alto dos 190 metros da Calgary Tower, um dos marcos da cidade, avistei não apenas o imenso tapete de urbanização como também, ao longe, os primeiros contrafortes das Rochosas.
A cidade tem várias atrações, como o Museu Glenbow e Calgary Stampede. O primeiro é um dos melhores museus do país, com destaque para a seção indígena, onde se destaca a cultura dos blackfoot e cree, povos que habitavam a região antes da chegada dos colonizadores. O Stampede é algo similar à nossa Festa do Peão Boiadeiro, só que muito maior. No verão, durante dez dias, Calgary toda se transforma e recebe cerca de um milhão de pessoas de várias partes do mundo para ver e participar das competições, realizadas numa enorme arena.
De Calgary, segui de ônibus em direção a Vancouver. Durante cinco dias, atravessei a região das Rochosas, percorrendo trechos dos principais parques nacionais do país, que foram declarados Patrimônios da Humanidade pela Unesco. No trajeto, descortinam-se paisagens naturais de rara beleza. Sob o signo onipresente das Rochosas, com seus picos cobertos de neve, avistei extensas florestas e belíssimos lagos de origem glacial. As estradas que cortam os parques são margeadas de cercas, para preservar a vida selvagem. Em vários pontos delas, existem passarelas cercadas, exclusivas para o trânsito de animais entre um lado e o outro da pista. No caminho, não é incomum vislumbrar os animais em seu habitat natural. Nosso grupo teve a sorte de ver um filhote de urso negro.
Visitei o Columbia Icefield, um enorme campo de gelo formado por doze glaciares que, como em áreas similares do mundo, estão em processo de recuo, provavelmente em função do aquecimento global. Por sua enorme extensão, o fluxo de água que derrete do Columbia Icefield escoa tanto na direção dos Grandes Lagos, como nas do Oceano Pacífico e do Oceano Glacial Ártico.
Vancouver é o principal núcleo urbano da Colúmbia Britânica. Cheguei à cidade nos dias em que ocorriam os jogos finais da Stanley Cup, entre a equipe local de hóquei sobre o gelo – os Canucks – e os Bruins, de Boston, nos Estados Unidos.
O hóquei sobre o gelo é o esporte mais popular do Canadá e há muitos anos os Canucks não atingiam as finais da competição.
Nos dias dos jogos, a cidade praticamente parou, num clima semelhante ao de Copa do Mundo, no Brasil.
A disputa derradeira aconteceu no dia em que deixei Vancouver. No avião, rumo a Toronto, o comandante informou o resultado: os Canucks haviam sido derrotados.
A consternação de muitos passageiros se misturou à alegria de alguns, provavelmente residentes de outras cidades do Canadá. Lá, como cá, são fortes as rivalidades esportivas regionais. No dia seguinte, já no Brasil, li em cadernos de esportes a notícia de atos de vandalismo promovidos no centro de Vancouver por torcedores inconformados dos Canucks, que chegaram a entrar em confrontos com a polícia.
O Canadá Ocidental é uma ponte entre a América do Norte e a Ásia. Em Vancouver, não há como não registrar a presença marcante de comunidades de origem asiática, especialmente chineses e indianos.
Coincidência ou não, as duas vezes em que utilizei táxis, os condutores dos veículos, com seus turbantes e barbas compridas, eram indianos da etnia sikh.
Chinatown é bem grande e, segundo os locais, só fica atrás dos bairros chineses de São Francisco e Nova York. Para minha surpresa, num trecho do Chinatown de Vancouver observei um número relativamente grande de homeless (sem teto) e jovens drogados. Pensei na “cracolândia” de São Paulo: as mazelas urbanas do mundo em desenvolvimento também estão presentes no rico Canadá.
Boletim Mundo n° 6 Ano 19
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