Em abril de 1975,
funcionário de uma companhia aérea americana adotou mais de 300 pessoas para
poder tirá-las do Vietnã e salvá-las das tropas vietcongues.
Vietnã, 24 de abril de 1975. Na sala do homem forte da Pan
Am em Saigon, o boletim matinal da rádio BBC de Londres anuncia o avanço das
tropas vietcongues em direção à capital. Os americanos e seus aliados do Vietnã
do Sul já não oferecem muita resistência e a queda da cidade é iminente. Ao
ouvir a notícia, Allan Topping, diretor de operações da única companhia aérea
comercial em atividade no país, levanta-se de sua cadeira e caminha na direção
de um velho mapa da cidade, pregado na parede em frente à sua mesa. Ali, ele
marca o avanço do exército inimigo com tachinhas vermelhas. Havia pelo menos
uma semana, aquilo se repetia diariamente. Parece o início de um filme, né? E
é. O filme The Last Flight from Saigon, feito para a TV americana, em 1998, e
baseado nos depoimentos dos protagonistas desses eventos , começa assim: apreensivo
com seu futuro, o “Schindler” de Saigon está preocupado com as centenas de
funcionários da empresa que ainda estão na capital do Vietnã.Havia mais de um mês Allan estava organizando um plano para tirá-los dali. Primeiro, conseguiu que os funcionários americanos partissem, junto com diplomatas e empregados de outras companhias americanas como a IBM, Citibank, Exxon, Bank of America e Chase Manhattan Bank. Agora, no entanto, estava num impasse: restavam os funcionários vietnamitas. Depois de 10 anos de uma guerra sangrenta onde quase 2 milhões de vietnamitas do norte haviam morrido, qualquer um que fosse identificado como colaborador dos americanos seria considerado traidor e corria um risco enorme. “Se ficássemos em Saigon, tínhamos certeza de que a maioria seria presa e executada”, diz Allan Topping, que hoje está com 65 anos e mora em Miami. “Foi naquele momento, em meu escritório, que tive mundo dali.” Restava saber como.
A idéia de Allan parecia simples. Ele tinha uma equipe de prontidão no comando de um último avião que pousaria normalmente no aeroporto de Tan Son Nhut, em Saigon, onde seria abastecido e manteria a fachada de um vôo comercial comum. Nele, no entanto, não embarcariam passageiros comuns, mas ele e seus funcionários. Allan consultou o presidente da Pan Am, e os executivos da companhia se comprometeram a evacuar, também, a família imediata de cada empregado – ou seja, cônjuge e filhos. Mas a operação seria bem mais complicada e perigosa do que Allan poderia supor. Os vietnamitas não tinham a papelada necessária para entrar nos Estados Unidos e nem para deixar o próprio país. Na verdade, pelas regras do aeroporto de Tan Son Nhut, que estava sob intervenção militar, os civis estavam impedidos até de entrar no local, que dirá ir até a pista, subir num jato e partir do país.
Mas o primeiro problema era decidir quem partiria no último vôo. Allan reuniu os cerca de 60 funcionários e pediu que eles fizessem uma lista com seus nomes e os de seus parentes mais próximos. “A primeira relação tinha mais de 700 nomes”, lembra. “Eles haviam incluído avós, tios e primos.” Como o Boeing 727 que faria o vôo de volta tinha apenas 375 assentos, eles teriam de escolher. “Para mim era impossível decidir, eu simplesmente não era capaz de fazer isso”, diz Allan. Ele devolveu as listas e pediu que os próprios funcionários resolvessem. Eles se reuniram por horas num salão da companhia. No final, entre lágrimas e muita gritaria, entregaram uma lista de cerca de 350 nomes. De todos os empregados, apenas um optou por ficar em Saigon. Nguyen Van Luc era uma espécie de braço direito do diretor da Pan Am no Vietnã, e tinha nove filhos à época. Sua mulher estava doente e ele não quis abandoná-la.
Mas havia ainda a questão dos vistos. Para driblar o impasse, só havia uma saída. Allan precisaria adotar todo o grupo. Àquela altura, ele estava praticamente morando no escritório da Pan Am no aeroporto, e foi ali que, numa manhã calorenta de abril, Allan tornou-se pai de seus funcionários e das famílias deles, somando mais de 300 pessoas.
“Não havia tempo para ler os documentos. Passei o dia inteiro assinando papéis sem ao menos saber o nome das pessoas que estava adotando”, afirma Allan. “Eu só pensava que se chegássemos em solo americano, eu seria responsável por todos eles.”
O telégrafo ainda recebia o final da mensagem vinda dos Estados Unidos, quando Nguyen Van Luc entrou desesperado na sala de seu chefe. Era 22 de abril e faltavam apenas dois dias para todos embarcarem no avião que os levaria para longe de Saigon. Na tal mensagem, o Federal Aviation Administration, órgão que regulamenta a aviação nos Estados Unidos, informava que todos os vôos comerciais de ou para a capital vietnamita estavam cancelados. A notícia caiu como uma bomba na sala de Allan, que imediatamente ligou para os Estados Unidos para tentar reverter a situação. Seriam 24 horas de angústia. O jeito, mais uma vez, foi improvisar e transformar o avião, que vinha de Manila, nas Filipinas, num vôo militar e não comercial. A força aérea americana deu sinal verde e o 727 da Pan Am tornou-se, temporariamente, um avião militar. Mesmo assim, ele ainda corria o risco de não poder aterrissar, pois a torre do aeroporto inevitavelmente ficaria sabendo do engodo quando avistasse a marca da Pan Am na aeronave.
Naquela noite, o escritório da companhia no centro de Saigon ficou pequeno para acomodar tanta gente. Funcionários e seus familiares dormiram ali mesmo para, na manhã seguinte, ir direto para o aeroporto. O grupo seria dividido em três ônibus, que não dispunham de assentos suficientes para todo mundo. A confusão foi inevitável e o vaivém frenético dos carros e bicicletas nas ruas da capital atrasou ainda mais a partida dos retirantes.
Na frente da sede da companhia, uma multidão disputava qualquer espaço dentro dos ônibus. Uns atiravam suas malas sobre o bagageiro dos veículos, enquanto outros escalavam suas laterais. Um terceiro grupo que não tinha nada a ver com a história aproveitou a situação caótica para se infiltrar e, assim, conseguir fugir do país. Antes de partir, um funcionário ainda teve tempo de colocar um aviso quase irônico, escrito às pressas, na porta do escritório: “fechado temporariamente”.
O trânsito limitava a velocidade dos ônibus e cada minuto perdido era importante. No trajeto, eles encontraram um outro grupo que embarcaria no mesmo avião. Eram 50 voluntários vietnamitas do hospital americano de Saigon, que estavam sendo ameaçados pelos vietcongues e haviam conseguido uma vaga no vôo da Pan Am. A maioria não tinha documento algum que os permitisse sair do país. Contava apenas com a sorte e a esperança para poder escapar da mira do inimigo. Com o tempo, foi ficando claro que a informação sobre a partida do vôo da Pan Am havia vazado.
O pequeno comboio chegou a Tan Son Nhut e passou sem problemas pelos portões. Com a lista dos mais de 300 nomes em mãos, Topping conseguiu liberar a entrada dos ônibus e outros veículos que se juntaram ao grupo – havia ainda uma ambulância do hospital americano, com alguns funcionários disfarçados de pacientes. Ao passarem pela entrada, um grupo de soldados vietnamitas começou a acompanhar os ônibus. Longe do alcance dos olhos de seus superiores, eles tiraram os uniformes, esconderam as armas debaixo da roupa e misturaram-se ao grupo. Na porta do avião, os comissários os barraram. “Não era para eles estarem ali, mas não podíamos impedi-los de entrar”, diz Allan. “Apenas pedimos que entregassem suas armas ao piloto e garantimos que elas seriam devolvidas. Eles concordaram e puderam embarcar.”
O avião já estava na pista, pronto para decolar, esperando apenas a autorização da torre de controle, que, àquela altura, devia estar se perguntando o que uma aeronave comercial estava fazendo ali. Lá dentro, os passageiros se acomodavam como podiam. Quase todos os 375 assentos já estavam ocupados e os corredores ainda transbordavam de gente. Nas contas dos comissários de bordo, havia 463 pessoas a bordo, que se ajeitavam nos corredores e até nos banheiros. Boa parte não levava bagagem e muitos deixaram suas casas apenas com a roupa do corpo e uma ou outra peça sobressalente.
Tanta movimentação chamou a atenção do chefe do Departamento de Imigração. Escoltado por soldados que disparavam tiros para o alto, o homem, em trajes civis, gritava como um doido quando chegou à porta da aeronave. Queria ver os documentos de todas as pessoas a bordo. Allan Topping quis negociar e chegou a oferecer uma quantia em dinheiro. Na pista do aeroporto, a negociação se desenrolou com as metralhadoras apontadas para Topping e seu grupo. “Ouvíamos o som de tiros e explosões. Sabíamos que tínhamos de sair dali o mais rápido possível”, diz Topping. Foi nesse momento que um míssel vietcongue interrompeu a conversa e caiu ao lado do aeroporto, levantando uma enorme nuvem de poeira que pôde ser vista de qualquer canto de Tan Son Nhut. A comunicação que já era difícil por causa do idioma, agora estava quase impossível devido aos gritos, ao tiroteio e à pressão. Foi quando um segundo míssel estourou. Allan Topping deu sua última cartada. Pediu para deixá-los partir, afinal o chefe da imigração não teria nada a perder com isso. Um funcionário da Pan Am ainda o convidou para entrar no avião e o aconselhou a deixar o Vietnã. O homem cedeu e pediu que todo o dinheiro fosse entregue a seus soldados. Virou as costas e entrou num jipe do Exército.
Um silêncio inquietante tomou conta do avião quando as portas foram fechadas. Até a autorização da torre, foram 15 minutos de suspense e agonia. Esses sentimentos ainda perdurariam pelas próximas duas horas, tempo que o vôo levaria para chegar à base aérea americana de Clark, nas Filipinas. “Só quando vi os navios americanos pela janela do avião, foi que senti que estávamos a salvo. O comandante deu a notícia e todos começaram a chorar. Foi um alívio geral”, recorda Allan Topping.
De Clark, o vôo fez escala em Guam antes de seguir para os Estados Unidos. Alguns funcionários da Pan Am desembarcaram e reconstruíram suas vidas ali mesmo. Outros foram para a América e a maioria foi trabalhar nos escritórios da própria companhia. Seis dias depois, Saigon cairia ante as tropas vietcongues.
Allan Topping voltou ao Vietnã 15 anos depois. Ao desembarcar no mesmo aeroporto de Tan Son Nhut, reconheceu a escada de acesso ao avião e passou na sua ex-sala, agora um espaço usado por militares. Reparou que muita coisa havia mudado por ali. Mas, curiosamente, a placa da Pan Am ainda estava colada em sua porta, como se fosse uma doce lembrança de tempos amargos.
"Subornei soldados para fugir"
Funcionária voltou ao
trabalho três dias depoisLien Ta
“Os tempos eram caóticos e estressantes, para dizer o mínimo. O ambiente era confuso e ameaçador, e apenas alguns poucos de nós tinham uma noção clara do que podia acontecer. Deveríamos fugir do país? Para onde deveríamos ir e o que faríamos se conseguíssemos escapar? Além das dúvidas, haveria ainda a dor e a incerteza de deixar nossa terra natal. Apesar dos problemas, aquele ainda era nosso país. Mas o medo e a esperança, ainda que remota, acabaram nos guiando para algum lugar distante.
Eu tinha 29 anos e trabalhava no Atendimento de Passageiros da Pan Am, no aeroporto de Tan Son Nhut, quando deixamos Saigon. Naquele dia, embarcamos sob um estresse extremo que beirava o pânico.
Eu e alguns outros funcionários ainda trabalhamos no dia da fuga, e nossa principal tarefa foi entrar com as famílias dos empregados no aeroporto sem levantar muitas suspeitas. A maioria não tinha passaportes nem outros documentos para deixar o país. Mas o exército desconfiou e, quando o ônibus já estava na pista, ao lado da aeronave, um soldado se aproximou com a intenção de checar os documentos. Na hora, não tive dúvida. Pedi para que todo mundo colocasse o dinheiro vietnamita que tinha num saco – afinal, ele não teria nenhum valor fora do Vietnã – e entreguei para o soldado. Ele aceitou prontamente e não fez mais pergunta e nenhum esforço para checar nossos papéis.Decolar trouxe um grande alívio para todos, é claro, mas ainda não nos sentíamos confortáveis porque o que aconteceria dali em diante era uma completa incógnita. Primeiro, desembarcamos numa base naval americana nas Filipinas, onde desceram praticamente a metade dos passageiros e quase todos os soldados que haviam embarcado clandestinamente.
Eu deixei o vôo na escala seguinte, em Guam, onde comecei a trabalhar na Pan Am três dias depois.
Fugir de Saigon, apesar de tudo,não foi tão fácil assim. Eu tinha que sair de lá, é verdade, mas deixei uma vida muito confortável para trás. Vinha de uma família privilegiada e o emprego numa empresa americana me permitia um bom padrão de vida.
Acabei ficando em Guam por mais dois anos e, depois, fui transferida para o escritório da Pan Am em Washington. Fiquei lá até 1991, quando a companhia foi vendida. Ainda trabalho no ramo e moro em Washington até hoje.”
"O vôo de Pan Am foi minha segunda tentativa de fuga"
Trinta anos depois, refugiada ainda teme represálias
T. Nguyen
Ainda lembro do momento em que o capitão anunciou que estávamos prontos para partir. As portas se fecharam e um silêncio profundo tomou conta do avião – e assim ficamos durante todo o trajeto até as Filipinas. Poucas horas depois, um novo anúncio vindo da cabine informava que havíamos entrado em área internacional. Todo mundo começou a chorar e só então pensamos no que nos esperava do outro lado do mundo. Não sabíamos nada sobre o futuro, apenas que estávamos vivos.
Eu tinha 27 anos quando deixei Saigon no último vôo da Pan Am. Trabalhava no escritório principal da companhia, no centro da cidade, desde 1970. Meu marido era um oficial da marinha americana e um mês antes ele tinha ido para os Estados Unidos para um treinamento. Desde então, fiquei sozinha em Saigon com nossos filhos – um menino de 4 anos e uma garotinha de 18 meses. Estava longe, também, do resto da família, porque minha mãe e meus irmãos moravam em uma cidade a 300 quilômetros de Saigon e não havia como falar com eles. Os meios de comunicação estavam todos cortados.
Eu já havia tentado escapar do Vietnã uma vez, porque estava em pânico, com dois filhos pequenos e sem saber o que aconteceria depois que os vietcongues tomassem a cidade. Eu tentei fugir num barco que nos levaria até Singapura, mas um navio do Exército nos parou e acabamos numa espécie de prisão. Conseguimos sair de lá somente uma semana depois, graças à ajuda de uma amiga do trabalho. O vôo da Pan Am fez uma escala em Manila, onde desembarcaram alguns passageiros, e depois seguiu para Guam. Alguns funcionários – comoeu – acabaram abraçando uma oferta de trabalho ali mesmo, no aeroporto. Trabalhei em Guam por dois anos e meio e fui transferida depois para Washington, onde continuei na Pan Am até 1986.
Em 1975, ninguém da minha família tinha permissão para deixar o Vietnã. Anos depois, dois irmãos conseguiram fugir num barco que os levou até Singapura e, agora, eles moram em Dallas. Há dois anos, uma irmã conseguiu permissão para viver nos Estados Unidos e mudou-se para a Califórnia. Para quem ficou tanto tempo longe da família, a chegada deles foi um grande presente. Mas eu ainda tenho uma irmã e um irmão no Vietnã. Por isso, gostaria que meu nome verdadeiro não fosse publicado. Ainda temo que alguma coisa possa acontecer com eles.”
Bebê a bordo
Órfãos da guerra conseguiram fugir
Aqueles dias de abril de 1975 foram frenéticos em Saigon. A queda da cidade era uma questão de tempo e quem sabia disso não tinha outra escolha a não ser fugir de lá.
Nessa luta coletiva, uma iniciativa ficou famosa pela ousadia das pessoas que a organizaram e, mais ainda, pelos passageiros especiais que carregava. Foi a Operação Babylift, uma ação que tirou do país mais de 3 mil bebês órfãos vietnamitas.
A operação foi oficialmente anunciada pelo governo americano no dia 3 de abril de 1975, mas antes disso já vinha funcionando, mesmo sem o apoio das autoridades. As crianças eram transportadas em caixas de papelão e levadas para vários países para serem adotadas.
O episódio mais marcante da operação foi a queda de um C5A Galaxy – na época, o maior avião do mundo – com mais de 400 crianças e 60 tripulantes a bordo. Ninguém sabe exatamente o que levou a aeronave a cair, mas uma manobra hábil do piloto salvou 170 pessoas e evitou que a tragédia fosse maior. “Essa história aconteceu semanas antes do vôo da Pan Am e nos deixou apreensivos. Algumas pessoas suspeitavam que o avião havia sido derrubado por mísseis vietcongues, mas nada foi confirmado. De qualquer forma, era um temor a mais para nós”, diz Allan Topping.
Até hoje ainda existe uma forte ligação entre os funcionários que ajudaram a executar o plano de evacuação do último vôo e outros sobreviventes da Guerra do Vietnã, como os próprios órfãos que foram levados para outros países. Entre os próximos dias 22 e 24 de abril, eles irão se encontrar na cidade de Washington para celebrar os 30 anos do fato histórico. “É claro que perdi contato com muita gente depois que saímos do Vietnã, mas algumas pessoas se encontram com freqüência. Esse evento acontece a cada 10 anos, mas procuramos sempre manter contato”, diz Topping.
Aventuras na História n° 020
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