segunda-feira, 21 de maio de 2012

Solar Rangel: a história do Brasil em uma casa

Tâmis Parron

Solar no interior de São Paulo abriga a mesma família há seis gerações e sintetiza toda a história do ciclo do café, da escravidão à Revolução de 32.
O passado do interior paulista é riquíssimo e, como todo tesouro, precisa ser desenterrado. Com isso em mente, o Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisa em Educação, Cultura e Ação Comunitária) arregaçou as mangas e remexeu toda a memória do Vale do Paraíba e do Médio Tietê. A pesquisa levou um ano e resultou em 12 documentários, uma exposição sobre a cultura caipira (veja pág. 63) e três livros de história sobre a velha elite cafeicultora, o folclore e os mitos paulistas. Entre as jóias encontradas pela equipe está o “Solar Rangel de Camargo”, um imponente casarão de Guaratinguetá que protagonizou os eventos históricos mais significativos do Brasil entre 1870 e 1930.
Construído em 1866 por João Baptista Rangel, tropeiro e cafeicultor paulista, o solar é ocupado pela mesma família há seis gerações. A atual proprietária, Thereza Maia, é bisneta do tropeiro e ainda vive com o marido, uma filha e três netas naqueles 16 cômodos. Quem entra na antiga mansão dá de cara com um piano francês Pleyel da década de 1860, trazido do litoral no lombo de uma mula. Esse cômodo era chamado de “sala dos homens” porque as mulheres não podiam participar das conversas sisudas dos varões barbudos e tinham que passar direto para outro recinto: a “sala das mulheres”. Hoje, a sala das mulheres virou o quarto da filha e da neta caçula de Thereza. Está ali um curioso armário colonial: quando se gira a chave, um sininho badala dentro da fechadura. “Era para evitar que as escravas roubassem os bens de valor”, diz Tom Maia, marido de Thereza.
Histórias de escravos povoam a casa. Na década de 1870, um escravo apaixonado por uma mucama resolveu se vingar do amor não correspondido. Preparou guloseimas, pôs veneno em uma delas e entregou-as ao seu amor platônico. Mas a escrava dividiu a prenda com a cunhada de Rangel, de apenas 12 anos. Quem ficou com a bala envenenada foi a sinhazinha. “Ela nem amanheceu. Morreu no mesmo dia”, lembra Thereza. A menina soltou seu último suspiro na cama onde hoje dorme a Angélica, que, aos 6 anos, se enrola no lençol do Sítio do Pica-pau Amarelo e nem desconfia dos problemas do passado.
Embaixo da casa, no porão, funcionava o armazém do tropeiro fundador. Com a República, a chegada dos trens e a urbanização, as tropas desapareceram e o armazém deu lugar ao escritório de advocacia do avô e do pai de Thereza. O Brasil entrava na República Velha, e o Solar Rangel de Camargo não perdia o passo. Como todos os cafeicultores que procuravam ocupar os cargos do governo após a queda do Império, o avô e o pai de Thereza lançaram-se na carreira política. O problema é que o mandão em Guaratinguetá era ninguém mais ninguém menos que o irmão do presidente Rodrigues Alves. Enquanto a família Alves tinha a última palavra em todo o país, os Rangel queriam dominar a cidade. Para dar voz à oposição, eles instalaram, em 1923, no velho armazém, a gráfica do jornal O Pharol, que circulava em todo o Vale do Paraíba. “O jornal foi quase empastelado uma porção de vezes. Os aliados dos Alves atiravam barro nas paredes da casa, quebravam as janelas”, lembra Tom.
As rixas só acabaram quando Getúlio Vargas botou um fim na política do café-com-leite e tirou São Paulo da política nacional. E os donos do periódico encerraram as atividades em 1931. No mesmo porão, ainda existe uma antiquíssima Remington, usada para compor os textos ácidos do Pharol.
Mas o interior paulista não ficou quieto, nem o solar. Quem sobe do antigo armazém para a cozinha se defronta com um cartaz: “Cozinha dos Sargentos”. Depois que Getúlio deslocou São Paulo da política, os paulistas prepararam a Revolução Constitucionalista. O plano dos constitucionalistas era simples: concentrar tropas no Vale do Paraíba, esperar pelo apoio de Minas Gerais e seguir rumo ao Rio de Janeiro. Ao ocuparem as cidades mais importantes da região, improvisaram um QG no solar. Como o apoio mineiro nunca chegou, as tropas federais contra-atacaram e varreram os paulistas do Vale. Em seguida, ocuparam o casarão, montando na sala dos homens um correio para transmitir as boas-novas das vitórias militares. Depois, o solar ficou duas semanas abandonado. “Quando as tropas federais saíram da casa, deixaram uma banheira com carne apodrecendo. Quando meus pais voltaram para cá, um enxame de moscas rondava o teto, como se tivesse cadáveres aqui dentro”, diz Thereza.
Com a decadência do café, o casarão deixou de protagonizar os eventos políticos do Brasil. Saía da história para entrar na memória do país. Na mesma sala de jantar onde havia sessões da Câmara Municipal na década de 1890 e, hoje, um Toshiba Stereo MT8 que transmite o Campeonato Brasileiro, o historiador Sérgio Buarque de Holanda varava as noites contando piadas e histórias. “Ele tinha um papo ótimo. Falava mais do que eu e adorava tomar o uísque Queen Anne”, lembra Tom. “A Maria Amélia, mulher do Sérgio, não gostava que ele bebesse tanto e aguava seu uísque. Ela era descendente dos Alves. Infelizmente, nem todos são perfeitos”, diz Tom, mostrando que até as rixas políticas morrem, mas a memória não.

140 anos de solidão
O passado brasileiro nos cômodos do solar.
1866-  O tropeiro João Baptista Rangel passa a trabalhar no comércio de café e constrói o solar com os lucros que obtém.
1870- Um escravo do solar, recusado por uma mucama, prepara biscoitos envenenados para a amada. Quem acaba caindo na armadilha é uma das sinhazinhas, de 12 anos, neta do fundador do casarão.
1923- O armazém do tropeiro Rangel de Camargo, no subsolo, dá lugar ao jornal O Pharol, veículo de oposição ao presidente Rodrigues Alves.
1930- Com a decadência do café, o solar entra para a memória do país, sendo visitado por historiadores que fundam a identidade nacional do Brasil, como Sérgio Buarque de Holanda.
1932-  Durante a Revolução Constitucionalista, soldados legalistas montam um quartel-general no solar. Com a ofensiva das tropas federais, o Exército usa a casa como central de comunicação.

Aventuras na História n° 020

Nenhum comentário:

Postar um comentário