sexta-feira, 4 de maio de 2012

Usina de Três Gargantas: operação resgate


Artur Fonseca
Um enorme rastreamento arqueológico acompanha as obras da maior hidrelétrica do mundo, na China.

Um dos maiores resgates arqueológicos já realizados está acontecendo nas margens do rio Yang Tsé, na China, que abrigará a represa da maior hidrelétrica do mundo, a Usina de Três Gargantas. Só na primeira parte do projeto, que se concentrou nas áreas com até 135 metros de altura (as primeiras a serem alagadas pelo lago que deve chegar a 270 metros de profundidade), foram salvas cerca de 6 mil relíquias consideradas preciosas e outros 50 mil artefatos comuns. De um total de 140 sítios arqueológicos que serão alagados, há tanto achados do Período Paleolítico (1 milhão - 10 mil a.C.) como relíquias das dinastias chinesas. Entre elas, 470 tumbas aristocráticas e cerca de 300 estruturas de construções das dinastias imperiais Ming (1368-1644) e Qing (1645-1911).
Fundado em 1995 com uma verba inicial de 125 milhões de dólares, o projeto engloba dois terços dos institutos de pesquisa arqueológica do país e envolve mais de 1200 profissionais divididos em equipes por mais de 20 cidades e províncias da região. A idéia é rastrear os 1084 quilômetros quadrados do lago até 2009.
Apesar de ainda estar na metade, o resgate já mudou o que se sabe sobre o passado pré-histórico chinês. Descobertas em alguns sítios nas regiões de Gaojiazhen e Yandunbao, por exemplo, trouxeram pistas de que as construções chinesas do período paleolítico remontam até 100 mil anos atrás, e não a 50 mil, como se pensava. Tesouros mais antigos também têm levantado pistas sobre a existência do grupo étnico Ba, que viveu no local durante as dinastias Xia (2100-1600 a.C.), Shang (1600-1100 a.C.) e Zhou (1100-221 a.C.). Mais: o conjunto das descobertas dos últimos anos tem levado os pesquisadores à conclusão de que a área deveria ser considerada berço da civilização chinesa.
Tanto empenho do governo chinês tem motivo. O sonho de erguer a usina, alimentado desde o início do século 20 (leia quadro ao lado), tem sido encarado como mania de grandeza por ambientalistas e pelo próprio Banco Mundial, preocupado com os prejuízos que o fim do turismo na região pode causar. Investir no resgate arqueológico foi a forma que o país encontrou para acalmar os ânimos internacionais.

Negócio da China
Esses quatro tesouros receberão tratamento especial.

Vila de Dachang
Esse povoado tem mais de 1700 anos e abriga hoje 37 mil pessoas, que terão que ser removidas por causa do alagamento. Com cerca de 100 mil metros quadrados, o povoado foi construído no final da dinastia Ming (1368-1644) e é um dos melhores exemplos das construções residenciais do período. Desenhistas e engenheiros estão registrando a fachada e as dimensões da vila para construir uma réplica a 5 quilômetros do local atual.

Templo de Zhang Fei
Construído em homenagem ao general Zhang Fei, o templo é uma das grandes demonstrações da arte chinesa do período dos Três Reinos (dos anos 220 a 280), com uma fusão de pelo menos três estilos arquitetônicos: Jieyilou, Wangyunxuan e Deyueting. Dentro dele também há diversas obras de arte, com quadros de personagens ilustres da história da China. Sua réplica será construída a 32 quilômetros do local original, com o replantio de 126 árvores antigas.

Pedra de Baiheliang
Com inscrições de 1200 anos, é considerada pela Unesco a única e mais antiga estação de hidrometria preservada do mundo, usada para medir o nível de água de acordo com as estações do ano. Trata-se de uma pedra de 1,6 mil metros quadrados na qual os chineses fizeram inscrições para indicar épocas de colheita. Os engenheiros chineses revestiram a pedra para conservá-la e constroem um museu aquático para exibi-la quando estiver submersa.

Zaldeia de Shibao
Construída durante a dinastia Ming, é considerada uma das estruturas feitas em madeira mais complexas do mundo. Tem o interior repleto de caligrafias e pinturas antigas. A aldeia é composta basicamente por um portão e uma torre com um templo budista no topo. Como o conjunto ficará 1,5 metro abaixo do nível da água, os engenheiros constróem um dique ao seu redor, para que os turistas possam chegar de barco à futura ilha.

Um sonho antigo
Usina está nos planos chineses desde 1919.
Primeiros planos
Ao final da Primeira Guerra Mundial, a China ficou dividida entre nacionalistas e comunistas. O líder nacionalista Sun Yatsen foi o primeiro a propor a construção da represa, em 1919.

Socialismo sensato
Com Mao Tsé-Tung no poder, o país entrou num período de desenvolvimento similar ao soviético, de investimentos nas indústrias de base. A construção da represa ganhou importância, mas foi abortada porque seria cara demais e alagaria muitas áreas férteis.

Risco de sabotagem
Na década de 1960, a idéia da represa retornou como meio para industrializar o sudeste do país. Mas, com a Revolução Cultural, de 1966, o país tornou-se inimigo da então expansionista União Soviética. E o temor de sabotagem soviética melou o projeto.

Modernização
Com a queda de Mao, em 1978, e o período das Quatro Modernizações, a demanda energética do país cresceu muito. Em 1983, foram feitos estudos de viabilidade para construção da represa, que teve o projeto aprovado em 1989. Em 1993, começaram as obras.

  Aventuras na História n° 019

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