Ao voltar de suas viagens pelas águas polares do Ártico,
onde testa embarcações, o marinheiro Janusz Kurbiel sempre contava histórias de
miragens. Só recentemente, porém, conseguiu fotografar o misterioso fenômeno,
graças ao qual, diz Kurbiel, os vikings puderam descobrir a América.
Durante doze anos, ao navegar nas piores condições pelo pólo
norte, em pequenos barcos quebra-gelos, fui enganado por meus olhos diversas
vezes. A poucas centenas de metros apenas, vislumbrava gigantescos icebergs e
costas rochosas. Mas, na verdade, o que existia estava dezenas de quilômetros distante. A costa não
era mais do que um penhasco e o iceberg, nada maior do que um bloco de gelo
ilusões ópticas deformando a realidade. É comum ouvir quem viaja pelos desertos
de areia contar histórias sobre miragens. No entanto, os marinheiros dos
desertos de gelo também as conhecem muito bem. Eu só não conseguia prová-lo.Às vezes, passam-se vários dias até se formar uma miragem. Mas, sempre que aparece, é uma imagem nova, uma nunca repete outra. Em todo caso, jamais uma miragem surge do nada: de fato, existe algo, [embora refletido no ar com uma aparência muito diferente da real]. Algumas miragens, como espelhos de parques de diversões, puxam para cima, esticam para os lados, alteram os contornos dos objetos em todos os sentidos. Outras funcionam como simples lupas, aproximando terras e barcos ocultos atrás da linha do horizonte. Apesar de insistir na tentativa por mais de dez anos, não conseguia voltar com a fotografia de um desses fenômenos na bagagem. Na hora de apertar o botão da máquina. a imagem invariavelmente tremia
Pensei até em um psiquiatra
Nas regiões árticas ocorrem, com frequência, grandes diferenças entre a temperatura do mar, com suas correntezas em eterno movimento, e as camadas de ar sobrepostas. [ Por causa disso, o trajeto da luz é desviado de seu caminho normal, criando esse jogo de espelhos.] A menor variação de temperatura, mudança de vento ou de bruma acarretam alterações na miragem ou, até mesmo, o seu desaparecimento. Todas as expedições ao Ártico, que realizei ao lado de minha mulher, Jõelle, foram organizadas para testar barcos - as velas, os mastros, o casco, o motor, o equipamento eletrônico, tudo era cuidadosamente examinado no percurso pelo gelo. Na volta, os laboratórios dos estaleiros tinham um farto material para analisar. Mas, em relação às miragens, eu já me perguntava se algum psiquiatra não se interessaria em analisar o capitão. No ano passado, porém, a sorte mudou. Devíamos testar um barco novo, em que o tradicional casco de aço era substituído por outro de resinas. Com duas equipes de pesquisa a bordo, teríamos mais tempo e condições melhores para navegar distâncias mais longas do que nos anos anteriores.
Um excepcional verão polar: consegui as fotos
Mas o que fez dessa viagem uma temporada de verão polar excepcio¬nal foi o fato de que, pela primeira vez, consegui registrar as miragens do Ártico. Velho marinheiro que sou, essas miragens me oferecem uma ex¬plicação para a fantástica viagem dos vikings, que descobriram a América no início do século XI, quase qui¬nhentos anos antes de Colombo. As sagas nórdicas, assim como vestígios nas costas americanas, atestam a epopéia.
Os navegadores nórdicos deviam ter apenas o Sol como bússola no verão, não há outros sinais no céu nessas latitudes, nem mesmo a Estrela Polar. Apesar disso, eles conseguiram seguir precisamente a única rota que os leva¬ria à América: contornaram a Groen¬lândia pelo estreitíssimo canal de água que separa geleiras à deriva. Navegando sempre mais ao norte – exatamente como eu fiz. Por que será que os vikings continuaram nessa direção, quando a costa noroeste da Groenlândia parece uma geleira intransponível, sem frestas de acesso? Se tiveram condições d viagem idênticas às da minha expedição, então iram surgir acolhedoras costas, provas irrefutáveis de terra. À medida que se aproximavam, a imagem devia se fundir num iceberg. No final, ao alcança-lá, notavam somente um bloco de gelo. Os vikings podem ter se guiado por miragens. E assim, de ilusão em ilusão, descobriram a América.
Causa: diferença de temperatura
Na realidade, não há nada no horizonte. Uma série de condições meteorológicas, porém, fez aparecer uma imensa Ilha. As falsas massas de gelo se devem à diferença de temperatura entre a água do mar e os ventos da superfície.
Causa: camadas de ar desviam a luz
Ao ficar mais próxima, a geleira parece menos alta. O caminho da luz é desviado por camadas de ar de densidades diferentes.
O falso litoral guiou os vikings
O caminho da flecha mostra a rota seguida por kurbiel. Ele contornou a Groenlândia em direção ao norte. Mas a navegação só é tranquila até a baia de Baffin, onde parecem existir apenas geleiras. Essa, porém, e uma região propicia à formação de miragens. Assim, o falso litoral refletido sobre um estreito canal de água – a única passagem possível entre os blocos de gelo – pode ter guiado os vikings
Antes de Colombo
Os conquistadores escandinavos, no final do ultimo milênio, começaram a se tratar de vikings, que em sua língua significa “guerreiros do mar”. Mas alguns deles se tornaram vikings por força das circunstâncias, como Erik, o vermelho. Quando o pai foi expatriado por ter cometido um crime de morte, esse norueguês ruivo pas¬sou a viver na Islândia. Ali, ele também acabou cometendo um crime e fugiu pelo mar em direção ao oeste, onde imaginava existir uma costa. Assim, em cerca de 982, chegou a um lugar cheio de vegetação, a que chamou Groenlândia ou “ terra verde”.
De volta à Islândia, entusiasmou mais de setecentos homens a criar uma colônia e foi seguido por 25 barcos. Uma embarcação, no en¬tanto, se perdeu e, quando final¬mente alcançou a Groenlândia, seu capitão, Bjarni Herjolfsson, falou de uma outra terra que avistara ¬foi, talvez, o primeiro europeu a enxergar a América. Por volta do ano 1000, Leif Eriksson, o filho de Erik, ouviu essa história durante uma viagem à Noruega. Quando voltou à Groenlândia, quase um ano mais tarde, contou que havia passado o inverno na terra que Bjarni havia descoberto. Pela des¬crição que fez, tratava-se da costa canadense.
Revista Super Interessante n° 023
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