Rodrigo Cavalcante
O capitalismo mudou, mas ainda não convence o velho
comunista.Beber um cafezinho é um ato simples – a não ser, é claro, que você tenha a longa e espessa barba de Karl Marx. Enquanto se esforça para não manchar a alva cabeleira facial, o filósofo alemão observa atentamente notebooks, MP3 players e telefones celulares nas mãos dos clientes da cafeteria – franquia de uma rede americana. “Imagine: eu poderia escrever um livro como O Capital numa dessas máquinas, ouvindo Beethoven”, diz. No trajeto que percorreu do cemitério de Highgate, no norte de Londres, até nosso ponto de encontro, ele conta que ficou surpreso com a riqueza da capital da Inglaterra. “Quando estudava aqui perto, na Biblioteca do Museu Britânico, há mais de 140 anos, Londres era bem mais suja e cinzenta. Em compensação, ninguém pagaria tanto por um café.”
O senhor ficou desapontado com o fim dos regimes comunistas?
KARL MARX – Comunistas?! Meu caro, até uma criança sabe que
a experiência russa e de outros países no século 20 não foi comunismo.
Foi o quê?
Capitalismo de Estado, stalinismo, nacional- estatismo... a
escolha é sua. Não houve sequer ditadura do proletariado. Houve uma ditadura
sobre o proletariado.
O senhor então admite que errou ao prever o iminente fim do
capitalismo?
Sou filósofo, não sou cartomante. Como já escrevi uma vez,
os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem. No século
20, em vez de se rebelar contra o capitalismo, a classe trabalhadora optou por
melhorar de vida negociando com os patrões. Veja só o caso do presidente do seu
país, o Lula.
É o fim da luta de classes?
Quando vivi aqui, no século 19, o mundo era dividido entre
proprietários capitalistas, profissionais liberais – que vocês chamam de classe
média – e os proletários, urbanos ou rurais. Mas hoje um proletário se comporta
como se fizesse parte da classe média ou se veste como um capitalista. Assim
fica difícil lutar.
Mas por que lutar? Não está bom assim?
Em termos de renda, não há dúvidas de que há trabalhadores
assalariados que estão muito bem. Mas, apesar disso, eles continuam sendo
explorados por quem tem os meios físicos de produção. Isso não mudou.
Quais são os meios físicos de produção, por exemplo, do
Google, uma empresa que criou um site de busca na internet?
Olha, é verdade que a tecnologia permite que uma empresa
cresça sem muitos meios físicos. Isso só ocorre porque os produtos passaram a
ser menos importantes do que a marca estampada neles. Não é à toa que se paga
um absurdo por um cafezinho. Os marqueteiros dizem por aí que você está bebendo
a “experiência” dessa marca. No fundo, tudo não passa de uma evolução do que
chamei de “fetiche da mercadoria”. Mas termos como esses não estão mais em
moda. Hoje prefere-se estudar marketing para vender mais.
O senhor se considera marxista?
Confesso que, por vaidade, fiquei lisonjeado por ter dado
nome a uma nova corrente filosófica. Foi agradável ver meu nome estampado em
milhares de livros, como os da coleção Os Pensadores. Mas depois, quando me vi
transformado em estátuas naqueles condomínios monótonos da ex- União Soviética,
fiquei deprimido. Descobri que o marxismo, para muita gente, havia se
transformado em religião.
Por falar em religião, o senhor continua acreditando que ela
é o ópio do povo?
Lembre-se de que, quando eu disse isso, o ópio não tinha a
imagem negativa de hoje. Costumo conversar muito sobre esse tema das drogas com
meu amigo Freud, que, por sinal, era usuário de cocaína. Aliás, já está na hora
de voltar para o além. Agora que Deus me convenceu de que existe, ele vive me
chamando para bater um papo sobre filosofia. (Levanta da cadeira) Bem, foi um
prazer! Ah, é você que vai pagar a conta, não é?
Aventuras na História n° 045
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