segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

NOVO CHOQUE DO “OURO NEGRO” AMEAÇA RECUPERAÇÃO GLOBAL

Crise política na Líbia impulsionou os preços do barril de petróleo até a marca de US$ 120.
Na hipótese de desestabilização da monarquia saudita, uma espiral de preços do barril condenaria a economia mundial às profundezas de uma depressão.

O preço do petróleo tem demonstrado uma capacidade infalível de explodir a economia mundial, e o Oriente Médio, com freqüência, fornece o seu detonador. O choque do petróleo de 1973, a Revolução Iraniana, em 1978-1979 e a invasão do Kuwait por Saddam Hussein, em 1990, são dolorosos lembretes de como a combinação regional de geopolítica e geologia pode provocar o caos. Com protestos surgindo na Arábia Saudita, o mundo caminha para um novo choque? Há boas razões para preocupação.
O Oriente Médio e o norte da África produzem mais de um terço do petróleo mundial.
As revoltas na Líbia mostram que a revolução pode rapidamente interromper o fornecimento (...). A  produção na Líbia caiu pela metade, enquanto técnicos estrangeiros emigram e o país se esfacela.”
A advertência, feita por um editorial da revista britânica The Economist, em março, oferece um quadro bastante sintético e real dos riscos provocados pela revolução árabe. As chances de uma “explosão” econômica mundial são agravadas pelo quadro de crise financeira prolongada, iniciada em 2008 com a explosão da “bolha” especulativa nos Estados Unidos.
Por razões óbvias, o súbito aumento do preço do barril do petróleo – que, em fevereiro, momentaneamente, chegou a saltar dos US$ 100 para algo em torno de US$ 120 – é péssima notícia para a economia planetária. Cálculos feitos por especialistas indicam que um aumento consistente de US$ 10 no preço do barril causa a redução de 0,25 ponto percentual no índice de crescimento econômico global.
Pode parecer pouco, mas é um golpe gigantesco quando se trata de um período em que os mercados tentam se recuperar da crise financeira ainda em curso.
O “primeiro choque” do petróleo levou o preço do barril (em valores ajustados à inflação), até perto de US$ 50, em 1975. O “segundo choque” produziu um salto até o recorde de US$ 110, em 1980.
O recordo só foi ultrapassado às vésperas da crise financeira de 2008, quando o preço do barril aproximou-se de US$ 140. O temor atual é de que aquele teto histórico seja atingido novamente, ou mesmo ultrapassado.
O preço do petróleo incide diretamente sobre múltiplos setores da economia, e não apenas sobre o da gasolina (que é, claro, o mais evidente). Os produtos derivados do petróleo utilizados no dia a dia formam quatro grandes grupos:
1. combustíveis  (gasolina,gás natural, gás liquefeito, óleo diesel, óleo combustível, querosene de aviação, combustíveis marítimos);
2. lubrificantes (óleos minerais, óleos graxos, óleos sintéticos e betume);
3. insumos  petroquímicos (nafta e gasóleo);
 4. derivados especiais (parafinas, solventes, asfalto, coque). O subgrupo das parafinas, apenas para citar um exemplo, é aplicado na fabricação do fósforo e utilizado pelas seguintes indústrias: pilhas e baterias eletroquímicas; laticínios e frigoríficos; borrachas e pneumáticos; cosméticos; explosivos; ceras polidoras; farmacêutica (vaselinas e pomadas); agrícola (proteção de frutas e sementes); filmes fotográficos; arroz parboilizado; moldes para próteses dentárias. Ou basta mencionar os artefatos que utilizam plástico – dos sacos de lixo aos telefones celulares. Ou ainda, para citar um outro pequeno exemplo: o uso do gás como fonte de calor nos países temperados.
Nem tudo, porém, aponta para a catástrofe.
O mercado do petróleo é extremamente complexo, por comportar muitas variáveis imprevisíveis, de ordem econômica, geopolítica e financeira. Se, por um lado, basta um boato para fazer com que se instale o pânico e os preços aumentem, por outro lado os “choques do petróleo” da década de 1970 criaram uma cultura de cautela entre os países importadores, que inclui a formação de vastos estoques de reserva.
Por essa razão, os países mais industrializados e dependentes de petróleo importado têm muita “gordura” para queimar, no caso de uma situação de instabilidade prolongada no Oriente Médio. Além do mais, as economias industrializadas tornaram-se menos dependentes do “ouro negro” nas duas últimas décadas: entre os anos 1980 e 2000, o PIB dos Estados Unidos mais do que dobrou, mas o consumo de petróleo permaneceu praticamente no mesmo patamar (passou de 17,4 para 17,8 milhões de barris por dia).
Mas é claro que estatísticas não resolverão o problema, se fato houver um “estouro” no preço do barril. No fundo, muita coisa depende da monarquia saudita, um aliado crucial dos Estados Unidos e União Européia.
A Arábia Saudita, que possui cerca de 24% das reservas mensuradas de petróleo e é o maior exportador mundial do produto, tem capacidade técnica e reservas suficientes para compensar, por algum tempo, o fornecimento interrompido ou diminuído de outros países produtores, como a Líbia. A situação escaparia realmente ao controle se até mesmo a Arábia Saudita for engolfada pela revolução árabe.
Outro dado imprevisível é o comportamento dos “emergentes”, incluindo Brasil, Índia e China, onde o uso do petróleo é proporcionalmente muito mais elevado do que nos países industrializados.
O PIB americano, por exemplo, equivale a três vezes o chinês, mas os Estados Unidos utilizam apenas o dobro do petróleo consumido pela China. O “esfriamento” da economia chinesa, um dos grandes motores da recuperação econômica mundial, poderia provocar um efeito recessivo em cadeia. No Brasil, por outro lado, embora a Petrobrás tenha força suficiente apara atenuar, por algum tempo, os impactos da elevação dos preços dos combustíveis, seria inevitável o surgimento de uma pressão inflacionária, caso a crise se prolongue no Oriente Médio, principalmente no setor de transporte de carga e de produção de insumos agrícolas, uma área estratégica da economia nacional.
O quadro geral, em síntese, não é nada brilhante, mas é tão volátil e explosivo que impede qualquer projeção realista de médio ou longo prazo. Como diz a The Economist, dois fatores, no final das contas, determinam o preço do petróleo: as leis eternas da oferta e procura e o puro pânico. Na situação de incerteza atual, o pânico nada de braçadas.
Boletim Mundo n° 2 Ano 19

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