segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

AS ÁGUAS DO NILO E AS INQUIETUDES DO EGITO

Nelson Bacic Olic

O rio Nilo, com seus 6,7 mil quilômetros de extensão, figura juntamente como o Amazonas como um dos dois mais extensos cursos d’água do mundo. Entre suas nascentes, na região dos Grandes Lagos africanos, e o grande delta, no Mediterrâneo, os rios que compõe a bacia do Nilo drenam dez países.
No alto vale, onde suas águas fluem pelos territórios de Ruanda, Burundi e Uganda, o Nilo e seus afluentes são alimentados pelas chuvas equatoriais e tropicais.
Adentrando o Sudão, atravessa os pântanos de Sudd, onde recebe inúmeros afluentes. Nessa área, o rio corre muito lentamente em razão das condições de solo e relevo, tornando a evaporação muito intensa, o que resulta em balanço hídrico negativo. No Sudd, mais da metade do débito fluvial do rio se perde por evaporação.
Um estudo de 1958 sugeria uma série de ações para aumentar a quantidade de água que chegaria às terras do Egito. A principal ação era concluir a construção do Canal de Jonglei, iniciado pelos britânicos no final do século XIX, com a finalidade de fazer o Nilo correr mais rapidamente nos pântanos do Sudd, eliminando a grande curva que o rio descreve nessa região. O aumento da velocidade das águas reduziria os efeitos da intensa evaporação.
O plano não foi adiante e o governo egípcio preferiu jogar suas fichas na construção da barragem de Assuã, localizada nas proximidades da fronteira com o Sudão. As obras do canal permanecem inconclusas até hoje.
Mais ao norte, o Nilo – também chamado de Nilo Branco – recebe pela margem direita o Nilo Azul, um afluente cuja origem se encontra nos altos planaltos da Etiópia. As águas do Nilo Azul aumentam consideravelmente o débito do rio e modificam seu regime fluvial. A partir da confluência desses dois rios, no norte do Sudão, o grande rio não recebe mais nenhum afluente. Assim, parte do médio vale e a totalidade do baixo vale do Nilo, pertencentes ao Egito, são alimentados essencialmente pelas águas originárias do Planalto da Etiópia, que formam quase 90% de seu débito.
Por conta de suas condições climáticas, o Egito possui área agrícola aproveitável muito pequena, quase toda ela situada ao longo das margens do Nilo. Além disso, a população egípcia exibe crescimento expressivo. Atualmente, o efetivo demográfico do país é superior a 80 milhões e as previsões apontam para algo em torno de 120 milhões por volta de 2040. Cerca de 95% das águas do grande rio que percorrem terras egípcias originam-se em países vizinhos.
Aproveitando-se de sua posição de potência dominante da bacia fluvial, o Egito estabeleceu acordos com alguns dos vizinhos meridionais para impedir desvios das águas do Nilo. Mesmo assim, a escassez de água já é uma realidade. Em 1972, cada egípcio consumia 1,6 mil m3 de água por ano. Em 1992, a cota disponível reduziu-se para 1,2 mil m3.
Atualmente, a disponibilidade de água por habitante é inferior a 800 m3. O grande receio do Egito é que, um dia, em razão de uma maior utilização dos recursos hídricos por parte de seus vizinhos situados à montante (Sudão e Etiópia, principalmente), a escassez alcance um ponto crítico. Em 1979, depois da conclusão da paz com Israel, o então presidente egípcio Anuar Sadat chegou a identificar a água como única causa capaz de conduzir seu país a uma nova guerra.
O aumento da população e o desejo de desenvolvimento econômico por parte dos países que estão à montante do Egito originou projetos de utilização dos recursos hídricos da bacia hidrográfica. A Tanzânia e o Quênia, por exemplo, têm declarado que não aceitam qualquer tipo de restrição ao uso de seus recursos hídricos, tanto os do Lago Victória, quanto do próprio Nilo. Essas declarações são vistas pelos egípcios como assunto que afeta a sua segurança nacional.
O tema da repartição dos recursos hídricos da bacia apareceu quando os britânicos passaram a desenvolver a cultura de algodão no Sudão. Desde sua independência, em 1922, o Egito obteve da Grã- Bretanha a promessa de que seria indispensável a concordância egípcia para a construção de qualquer obra sobre o Nilo nas possessões britânicas localizadas rio acima. Em 1929, foi fechado um acordo entre o Egito e o Sudão (na época, colônia britânica) de partilha das águas do Nilo. O acordo, contudo, simplesmente ignorou os interesses de outros países e colônias com terras na bacia hidrográfica.
Em 1959, firmou-se novo acordo de repartição das águas do Nilo entre Egito e Sudão. Mais uma vez, não se fez nenhuma menção a outros países com terras drenadas pela bacia. Por conta disso, países como a Etiópia, o Quênia e a Tanzânia não se vêm obrigados a justificar o uso de suas águas ao Egito. As autoridades egípcias, por outro lado, interpretam como “atos de guerra” qualquer uso das águas sem o seu consentimento.
O Egito usa cerca de 85% de seus recursos hídricos para atividades agrícolas, contra uma média mundial de 70%.
Confrontado com o dilema da segurança  alimentar, o país se esforça para promover programas de reciclagem de água.
Ao mesmo tempo, incentiva a ocupação e valorização de áreas desérticas, utilizando água dos lençóis subterrâneos.
Isso, porém, revela-se insuficiente. Cedo ou tarde, o país terá que abandonar o sistema de uso gratuito das águas pelos agricultores, encorajando novas técnicas de irrigação que não desperdicem o precioso líquido.

Nos intermináveis meandros do Sudd
Sudd, do escritor espanhol Gabi Martinez, foi publicado no ano passado pela Editora Rocco. A obra é, provavelmente, o único exemplo no Brasil de romance que faz dessa região do vale do Nilo o “personagem” principal.
Um navio, reunindo empresários, políticos e representantes de tribos do Sudão, sobe o vale do Nilo a partir da capital sudanesa, Cartum, e segue em direção sul, com a missão de selar a paz entre as regiões norte e sul do país, em guerra há décadas. Só que a embarcação se perde nos labirínticos meandros do Sudd. O argumento desvela a força da natureza nos pântanos do Sudão meridional – e sua influência sobre as relações humanas, até conduzi-las a certas situações-limite. Para escrever o livro, o autor percorreu o Nilo desde as nascentes até o delta, no Mediterrâneo.
Boletim Mundo n° 2 Ano 19

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