quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O BRASIL COMO ILHA, UMA IMAGEM IDEOLÓGICA

Gilson Schwartz

Crescimento econômico brasileiro, fundado em estímulos temporários de consumo, não atravessará incólume a crise mundial.
A linguagem diz tudo. Primeiro, foi “marolinha”, para comparar o efeito da crise global sobre a economia brasileira com o “tsunami” que se abatia sobre as principais economias do mundo. Mais recentemente, circulou a versão de que, se o Brasil “demorou para entrar”, vai ser “o primeiro a sair” de uma catástrofe no sistema de valores internacionais sem precedentes.
No final das contas, essa geléia geral parece retomar, como farsa ainda mais deslocada, a fantasia de que somos uma ilha. De alguma forma, somos mesmo uma ilha: a ilha da fantasia de que não somos o que somos – uma economia subordinada aos fluxos financeiros e comerciais das redes globais, ainda mais vulnerável pela total ausência de projeto geopolítico nacional ou mesmo regional consistente. Mais que ilha, o Brasil é uma baleia perdida em alto-mar.
Dizem que as baleias, como as grandes embarcações e a calota polar, mudam lentamente de posição. Ao contrário de golfinhos e jet-skis, entre decidir mudar de rumo e, de fato, conseguir escapar do iceberg, vai uma longa distância, proporcional ao tamanho. Como no caso do Titanic, avistar o iceberg pode ser inútil quando se trata de evitar a colisão. Para avaliar se essa baleia, ou navio, escapará do choque é preciso compreender a trajetória que vinha seguindo até o surgimento do colapso financeiro global e sistêmico.
O rumo não foi decidido por Lula, que celebrou com júbilo a aliança com o capital financeiro internacional previamente articulada e implementada por Fernando Henrique Cardoso. Lula não privatizou mais, porém bloqueou a desprivatização sempre. O que, no governo Lula, parece resistência à globalização nunca foi, efetivamente, além de “marolinha”.
Isso não significa que o governo Lula assistiu passivo, do ponto de vista das estratégias de desenvolvimento econômico, ao alargamento da exposição global da economia brasileira. Como por tantos anos defenderam alguns economistas críticos da ordem liberal, o Brasil poderia e deveria mudar o modelo econômico da globalização dependente para uma inserção competitiva baseada na expansão do mercado interno. Esses economistas estiveram no poder em duas oportunidades: no governo José Sarney (congelamento de preços) e no governo Lula (expansão do crédito popular e dos programas assistencialistas, não por acaso em aliança com o mesmo Sarney do “tudo pelo social”).
Em tese, é possível pensar um modelo de desenvolvimento econômico amparado num mercado doméstico cuja distribuição de renda é razoável. Historicamente, muito da força do consumismo nos Estados Unidos veio dessa fórmula sócio-econômica. A fórmula funcionou enquanto as bases de produção para a classe média consumir estavam dentro do território americano. Na verdade, perdurou até a virtual extinção da classe média e a simultânea transferência da matriz industrial para a periferia, que destruíram o “sonho americano”.
O caso brasileiro é diferente e especialmente perverso.
A distribuição de renda extremamente desigual limita e segmenta o mercado consumidor interno. Para estimular o fortalecimento do mercado doméstico, o governo lança mão de crédito consignado, expansão de gastos públicos e aumento nas despesas de assistência social (transferência direta de renda e aumento do salário mínimo).
Tais estratégias aumentam a renda disponível para consumo dos mais pobres, sem alteração da distribuição de renda – e de poder – no país. Como efeito  colateral, transferem para o exterior as bases produtivas, já que a acumulação de reservas internacionais e os juros altos inviabilizam a expansão da matriz industrial do Brasil. A desindustrialização não é um mito, mas um fenômeno comprovável pelo deslizamento de nossas exportações rumo às commodities.
Imaginar que a economia brasileira é mais resistente à crise global porque o crescimento econômico interno pode ser sustentado a despeito do colapso da demanda mundial (por tudo, de matérias-primas a telefones celulares) é um raro exercício de auto- ilusão. Equivale a acreditar na fantasia de que o crédito e a liberação de vales e cartões para os mais pobres têm sustentabilidade enquanto o real se valoriza diante do dólar, tornando sempre mais baratas as importações, dificultando as exportações e subordinando o desenvolvimento aos gastos públicos.
À medida em que a metástase da crise global vai invadindo setor após setor da economia nacional, definham os canais de crédito popular, como fruto da queda na renda ou do medo de ficar sem emprego (e renda). Um sopro de curtíssima duração, e suavíssima intensidade, pode animar por alguns meses uns poucos mercados (de bens não duráveis) e atenuar a curva de aumento da inadimplência, como resultado do aumento do salário mínimo. Não é esse sopro efêmero, contudo, que oferecerá ao modelo lulo-tucano de desenvolvimento econômico muitas esperanças de sobrevivência no contexto do atual colapso global.
E nosso comércio internacional? Por muitos anos, os melhores analistas apontaram para a fragilidade de um modelo fundado na “competitividade espúria”. Em poucas palavras, os países que entram no mercado mundial sem transformar ativamente as suas estruturas produtivas em busca de produtos mais sofisticados e com mais tecnologia ficam condenados a viver dos altos e baixos dos mercados de commodities. Mas tais mercados dependem do consumo global e, à medida em que a economia mundial esfria, o Brasil pega gripe.
No passado, oferecemos cana e café para sustentar o poder e a riqueza da nossa elite. Hoje, oferecemos minério de ferro e soja. Nos dois casos, o colapso dos mercados externos liquida rápida, irreversivelmente, nossa capacidade exportadora sem que seja possível contrair as importações com a mesma velocidade após duas décadas de liberalização indiscriminada e valorização da taxa de câmbio.
Sem mercado interno fundado numa sustentável distribuição de renda, o Brasil está totalmente exposto à crise externa. A imagem da ilha é, apenas, uma miragem.

Boletim Mundo n° 6 Ano 19

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