Na Líbia, a queda da ditadura de Muammar Kadafi abre os portais para o desconhecido.
Na Síria, o espectro da desestabilização do regime de Bashar al-Assad assusta tanto os iranianos quanto os israelenses.No início do ano, quando eclodiram revoltas populares em vários países árabes, analistas ocidentais saudaram o que consideravam o surgimento de um irresistível movimento democrático – a Primavera Árabe – que varreria as ditaduras do Oriente Médio com a mesma velocidade que, em 1989, manifestações populares derrubaram os regimes comunistas do Leste europeu feito um dominó.
Acreditava-se que a onda revolucionária sepultaria também o fundamentalismo islâmico, já que este não teria tido nenhum papel na mobilização das massas árabes.Assim como foi incapaz de prever a implosão do bloco soviético, o Ocidente viu-se frente a uma realidade mais complexa e fragmentária do que supunham aquelas análises. Na Tunísia e no Egito, os ditadores caíram, mas os regimes sobreviveram, a ponto de controlar as rédeas da transição. Os protestos atingiram Bahrein, Iêmen, Marrocos e Argélia, mas seus governos vêm resistindo. Na Líbia e na Síria, dominadas por tiranos megalomaníacos, a expectativa de revolução deu lugar a sombrias incertezas.
Na Líbia, os protestos contra o ditador Muammar Kadafi evoluíram para uma guerra civil, o que provocou uma intervenção militar da França, Grã-Bretanha, Itália e Estados Unidos. Eles conseguiram que o Conselho de Segurança da ONU aprovasse a Resolução 1973, criando uma zona de exclusão aérea para “proteger” de massacres a população civil líbia. A operação ficou a cargo da OTAN, mas a zona de exclusão aérea rapidamente foi transformada em ataque aeronaval de mísseis às forças de Kadafi.
Paralelamente, franceses e britânicos forneceram armas aos rebeldes e reconheceram o Conselho Nacional de Transição (CNT) como governo legítimo da Líbia. A resistência de Kadafi, contudo, foi muito maior do que se esperava. Ninguém, nem mesmo uma ditadura, governa um país por 42 anos sem o apoio de parte da população. Em agosto, os rebeldes tomaram Trípoli, mas as forças leais ao ditador ainda resistiam em Sirte.
Por que a intervenção ocidental ocorreu na Líbia e não no Bahrein ou no Iêmen?
Uma das principais razões foi a necessidade de manter aberto o acesso às riquezas naturais do país (petróleo e gás). O conflito provocara um colapso no fornecimento de petróleo líbio: a produção despencou de 1,6 milhão de barris/dia (2% da produção mundial) para 60 mil barris/dia, embora o país tenha capacidade de produzir quatro milhões de barris/dia. A continuação do impasse seria dramática para a Europa, mergulhada em grave crise econômica.
A França tomou a iniciativa para conquistar um lugar no espaço hoje ocupado por China, Espanha e Itália. Antiga potência colonial da Líbia, a Itália tem laços históricos com o país e o primeiro-ministro Silvio Berlusconi era um dos melhores “amigos” ocidentais de Kadafi. Mas os italianos não perderam tempo: a Eni, maior empresa petrolífera estrangeira na Líbia, assinou um acordo com o governo provisório para o fornecimento de gás natural e petróleo. Por seu lado, o presidente francês Nicolas Sarkozy deixou claro que espera que as companhias francesas tenham acesso preferencial aos futuros contratos com a Líbia.
O problema é que pouco se sabe sobre o que se deve esperar do futuro governo.
Vários líderes do CNT, como Mustafá Mohammed Abdul Jalil (presidente), Omar al-Hariri (assuntos militares) e Ali Issawi (assuntos estrangeiros) são trânsfugas do antigo regime. Um deles, o líder militar Abdelhakim Belhadj, ligado ao Talebã e à Al-Qaeda, foi preso pela CIA na Malásia e entregue a Kadafi antes de virar rebelde.
Outros representam tribos cujo único denominador comum era a oposição ao ditador.
Kadafi governava equilibrando-se sobre uma estrutura tribal, distribuindo benesses e jogando um chefe contra o outro, o que impediu a Líbia de desenvolver instituições nacionais estáveis. Agora, ninguém sabe quem controlará o país.
Situação inteiramente diversa, mas com desfecho igualmente imprevisível é a da Síria, dominada um ditador cruel, Bashar al-Assad.
Lá, a minoria alauíta governa há 41 anos e enfrenta uma rebelião da maioria sunita, ferozmente reprimida – cerca de três mil pessoas já morreram. Até agora, o Ocidente só propôs a adoção de sanções brandas contra Damasco. Nada de “intervenção humanitária”, como na Líbia. E isso levando- se em conta que a Síria sempre foi aliada do Irã, estigmatizado pela Casa Branca como Estado que apóia o terrorismo. De fato, o regime dos aiatolás usa os préstimos de Assad para armar o Hezbollah (Partido de Deus, que comanda uma milícia xiita libanesa) e o Hamas (Movimento de Resistência Islâmica, que controla Gaza). Ambos têm em comum o desejo de varrer Israel do mapa.
Ironicamente, a posição estratégica da Síria faz com que a preocupação com o destino de Assad seja compartilhada por Irã e por Israel. “A Síria é um caso interessante porque é, talvez, o único assunto no qual Irã e Israel coincidem plenamente. O Irã investiu profundamente no regime de Assad e teme o aumento da influência sunita na Síria”, diz George Friedman, analista do portal Stratfor. “Já Israel está bastante preocupado com a possibilidade de que Assad – um demônio conhecido e manejável do ponto de vista israelense – possa cair e ser substituído por um regime islâmico sunita com laços com o Hamas e vulnerável à Al-Qaeda”, completa.
A revolta árabe não seguiu o roteiro prescrito pela maioria dos analistas.
“Havia três princípios que formavam a narrativa ocidental sobre a Primavera Árabe”, escreveu George Friedman. “O primeiro era que esses regimes eram esmagadoramente impopulares. O segundo era que a oposição representava a esmagadora vontade do povo. E o terceiro era que, uma vez iniciada, a rebelião era irrefreável”. Acrescia-se a isso a idéia de que as mídias sociais facilitaram a organização da revolta e a crença de que a região estava na iminência de viver um processo de transformações radicais.
Ledo engano, com conseqüências geopolíticas difíceis de se prever.
Boletim Mundo n° 6 Ano 19
Nenhum comentário:
Postar um comentário