Força do Tea Party é resultado de décadas do crescimento da direita religiosa e intelectual.
As discussões no Congresso sobre o plano que permitiu a elevação do teto da dívida pública americana e impediu o default dos EUA revelaram, com todas as letras, a influência crescente do Tea Party, o movimento ultraconservador que vem pautando a agenda não apenas do Partido Republicano, mas de todo o país. Mesmo minoritário no Congresso e entre os republicanos, o Tea Party mostrou força suficiente para obrigar o governo de Barack Obama a engolir cortes de US$ 2,4 trilhões para os próximos dez anos. O movimento ganhou tanta repercussão que pode até indicar o candidato republicano à eleição presidencial de 2012: uma das suas maiores expressões, a congressista Michele Bachmann, venceu a consulta partidária informal em Iowa e saiu na frente na disputa republicana pela Casa Branca.Apesar do que dizem seus líderes, o Tea Party não é exatamente uma novidade no espectro político americano, nem apenas um movimento “de base”, que surgiu espontaneamente para lutar contra uma suposta agenda social-democrata do Partido Democrata depois da eleição de Obama. O Tea Party nasceu um ano depois da eleição, no bojo de uma série de protestos contra aumentos de impostos, mas principalmente contra leis que permitiram o resgate das instituições financeiras abaladas pela crise de 2008. O nome do movimento é uma referência a um dos mitos fundadores dos Estados Unidos, o Boston Tea Party, uma revolta de colonos americanos ocorrida em 1773 contra a taxação de chá pelas autoridades britânicas.
Seus líderes mais conhecidos são Sarah Palin, candidata a vice-presidente na chapa do republicano John McCain em 2008, e os congressistas republicanos Michele Bachmann, Ron Paul e Dick Armey.
O DNA desse movimento pode ser encontrado na nova direita ultraconservadora que se desenvolveu nos Estados Unidos a partir dos anos 1970, em reação ao movimento pelos direitos civis – negros, mulheres, homossexuais – e à contracultura. A corrente política teve duas ramificações: a vertente religiosa, conhecida como “direita cristã”, verbalizada por vários televangelistas e suas extensas redes de comunicação, e a acadêmica, cuja expressão máxima foram os intelectuais neocons, que rejeitavam o liberalismo social, o multiculturalismo e o relativismo moral da Nova Esquerda americana. A união entre as duas correntes se deu sob a presidência de Ronald Reagan (1981-1988) e se consolidou com George W. Bush (2001-2008), quando a direita cristã passou a pautar a agenda doméstica do governo e os neocons davam o tom na política externa americana. Órfãos desde a eleição de Obama, os ultraconservadores renasceram sob o guarda-chuva do Tea Party.
O Tea Party não é ideologicamente homogêneo, mas tem como denominador comum a crítica visceral ao tamanho do Estado, denominado “Estado grande”, e a defesa dos chamados “valores da família”. Para John Micklethwait, editor da revista britânica The Economist e autor do livro The Right Nation, o Tea Party é o filho mais novo de uma linhagem que os ultraconservadores desenvolveram nas últimas décadas. “Os impostos nos Estados Unidos são baixíssimos se comparados a outros países. Ainda assim, para eles, falar em aumento de tributos é uma heresia. O Tea Party é uma variação dessa tradição de direita, uma versão furiosa e exagerada, mas que faz parte da natureza americana. Chegaram longe por causa da organização da direita americana nos últimos 50 anos.”
O debate sobre o teto da dívida mostrou que, além de controlar parte do Partido Republicano, o Tea Party tem força suficiente para desmoralizar as iniciativas bipartidárias que eram uma tradição do Congresso americano. Eles fizeram uma aposta alta e ganharam: nas negociações, em nenhum momento Obama contemplou a hipótese de permitir um default americano; já o Tea Party, ignorando qualquer possibilidade de negociação, nunca descartou tal possibilidade.
Não há sombra de dúvida: os ultras da direita quebrariam o país se este fosse o preço para arrancar concessões da Casa Branca. Já Obama ficou enfraquecido, porque desde o início considerou que qualquer acordo seria melhor que o confronto aberto.
Se quisesse peitar o Tea Party, o presidente poderia ter invocado a 14ª emenda da Constituição americana e aumentar o teto da dívida por decreto, sem pedir autorização ao Congresso. Nesse caso, jogaria a responsabilidade pela crise nas costas dos radicais e poderia conquistar a opinião pública. Pesquisa divulgada pelo Pew Reserarch Center mostrou que a maioria dos americanos classificou o debate sobre o teto da dívida como “frustrante”. E 37% disseram ter uma impressão pior dos membros do Tea Party no Congresso depois do debate.
Obama perdeu uma oportunidade ímpar de dar um xeque-mate na direita. É bom lembrar que outros presidentes, diante de conjunturas críticas graves, tomaram decisões ousadas. Roosevelt, em 1937, desafiou uma Suprema Corte conservadora que ameaçava minar o programa do New Deal. Agora, com seu recuo, Obama evidenciou debilidade. Mesmo assim, pesquisas revelam que o radicalismo do Tea Party custou muitos pontos à direita republicana na opinião pública.
Desde Reagan, a extrema-direita ganha posições no Partido Republicano. Conservadores esclarecidos da velha guarda há muito tempo foram marginalizados pelo partido. Como explicou Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia, desde o governo de Bill Clinton (1993- 2001), a direita americana considera “ilegítimos” os governos do Partido Democrata. Isso desmente uma velha teoria de que os dois grandes partidos americanos comungam a mesma ideologia centrista. “Existem duas Américas há muito tempo”, diz John Micklethwait. “É a teoria que defendo em meu livro: a América conservadora, na sua atual forma, emergiu nos anos 1960 e vem crescendo desde então. Não acredito que ela vá embora.
A divisão entre os dois partidos é cada vez maior, como nunca se viu antes, e só deverá piorar nos próximos anos.
São como duas placas tectônicas ideológicas: se movem em direções opostas, aumentam a distância e causam abalos sísmicos na política nacional.”
Boletim Mundo n° 5 Ano 19
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