terça-feira, 24 de janeiro de 2012

UMA GEOPOLÍTICA DAS TERRAS RARAS

Marcelo Ribeiro de Carvalho

Só os iniciados na tabela periódica sabem do que se trata quando falamos da família dos lantanídeos, uma série de 15 elementos químicos de número atômico entre Z=57 a Z=71, que vai do lantânio ao lutécio. Se juntarmos a eles o escândio (Z=21) e o ítrio (Z=39), teremos as chamadas “terras raras”, ou seja, 17 elementos químicos que apresentam propriedades físico-químicas semelhantes, entre elas o fato de serem metais macios, maleáveis e de boa condutibilidade térmica e elétrica.
Encontrados em argilas lateríticas e minerais, como a monazite e a bastnasite, existem em relativa abundância na crosta terrestre. No entanto, à época de seu descobrimento, no início do século XIX, foram batizados de “terras raras” por dois motivos: não aparecem em grandes concentrações na natureza e apresentam propriedades muito parecidas, tornando difícil seu processo de separação. Graças ao surgimento de novas tecnologias, principalmente a partir da segunda metade do século XX, tanto a separação quanto o aproveitamento desse grupo de elementos químicos têm se tornado mais freqüente.
Alguns deles são utilizados em setores sofisticados da indústria, como a fabricação de CDs e memórias de computador, na produção de lasers, no craqueamento do petróleo, na indústria aeroespacial e até em reatores nucleares. Produtos de alta tecnologia como celulares, iPods, fibras óticas e painéis solares também têm “terras raras” na sua composição. Em função disso, a demanda por esses bens torna-se cada vez mais intensa. Contudo, as descobertas de jazidas economicamente viáveis – as que possuem uma quantidade de minérios relativamente abundante a ponto de compensar sua exploração – são poucas.
As maiores reservas conhecidas até há pouco estavam na China, com 57,7% do total mundial, seguida da Comunidade dos Estados Independentes (CEI), com 13,6% e Estados Unidos, com 9,1%. No que diz respeito à produção, a concentração é maior ainda, pois os chineses representam 96,8% da oferta, seguidos pela Índia, responsável por apenas 2,2% e pelo Brasil que, apesar de possuir reservas pouco significativas de “terras raras”, aparece como terceiro maior produtor com 0,7%.
O fato de a China dominar o mercado não é mera coincidência. É que para variar, o todo poderoso dragão asiático consegue obter as “terras raras” a preços imbatíveis, devorando outros possíveis produtores. Entretanto, o problema é um pouco mais complicado: a cada ano, o lantânio e sua família são utilizados em novos setores industriais, como a fabricação de baterias de alta performance para carros elétricos, smartphones e até turbinas eólicas. Os chineses não dominam algumas dessas tecnologias e, por isso, eles se tornaram fornecedores das matérias-primas – ou seja, parceiros estratégicos de países como Japão e Estados Unidos que possuem indústrias de ponta. Ano passado, no entanto, o mercado ficou assustado quando Pequim anunciou que suas reservas estavam se esgotando. A declaração ocorreu depois de um incidente com o Japão, quando autoridades japonesas descobriram que contêiners de “terras raras” encomendados pelo Japão simplesmente não chegaram aos portos de destino.
Passado o susto e restabelecido o fornecimento, as demandas continuam crescentes.
Um relatório do governo australiano prevê que a demanda, das atuais 150 mil toneladas, atingirá 200 mil toneladas em 2015. Os preços acompanham, naturalmente, essa toada de alta: o neodímio, um dos elementos mais requisitados, teve seus preços atualizados em 272% nos últimos dois anos. Reagindo à valorização da matéria-prima, os Estados Unidos anunciaram, em janeiro, a retomada da produção em Mountain Pass, na Califórnia, a única mina do país. As montadoras globais Toyota e General Motors, por sua vez, anunciaram que estão desenvolvendo novos motores elétricos para seus carros híbridos que não dependem dos metais das “terras raras”.
O Brasil converteu-se num ator destacado no tabuleiro deste jogo geopolítico depois que a United States Geological Survey (USGS), instituição de pesquisa geológica americana, divulgou, em novembro de 2010, que temos as maiores reservas mundiais de “terras raras”, com cerca de 3,5 bilhões de toneladas – que, separadas, poderiam gerar até 52,6 milhões de toneladas de metal. Segundo o Serviço Geológico Brasileiro (CPRM), nossas maiores reservas estariam em Seis Lagos, na Amazônia, seguidas por Araxá (MG) e Catalão (GO). Confirmada essa informação, mesmo imaginando um crescimento exponencial no consumo mundial, teríamos condições de garantir o abastecimento do planeta por um longo período.
Isso em tese, pois tanto a estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB), responsável pela lavra e comercialização de “terras raras” no país, quanto as empresas privadas evidenciam receio em fazer investimentos no setor devido aos altos custos de exploração e à complexidade técnica do processo. Para circundar as dificuldades, o governo brasileiro, através do Ministério da Ciência e Tecnologia, procura a cooperação de governos, como o da Alemanha, ou grandes empresas de mineração, como a Vale, para desenvolver projetos nessa área. O ideal é que possamos não só exportar matéria-prima, mas desenvolver outras fases da cadeia produtiva que agreguem valor aos produtos, bem como preparar mais profissionais capacitados, como engenheiros de minas e geólogos.
Os desafios brasileiros na área não são pequenos. Enquanto não os superamos, os chineses monopolizam o mercado e fazem valer a profecia do velho líder Deng Xiao Ping: “Se os árabes têm petróleo, a China tem terras raras.”
Boletim Mundo n° 4 Ano 19

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