quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

DESBRAVANDO A LITERATURA DA AMAZÔNIA

José Alonso Tôrres Freire

Um breve panorama sobre a literatura brasileira mais conhecida mostrará que alguns cenários são recorrentes, ou seja, quase todos os clássicos – aquelas obras lidas em classe e sempre lembradas nos vestibulares – são ambientados próximos ao litoral ou em lugares centrais do país.
Assim, estamos acostumados a passear pelo Rio de Janeiro de Machado de Assis, pelos pampas de Érico Veríssimo, pelo sertão castigado pela seca, em Graciliano Ramos,  ou pleno de símbolos, em Guimarães Rosa. Cada um desses autores, à sua maneira peculiar, captou figuras e situações ligadas a esses lugares específicos, ainda que a grande maioria tenha conseguido representar conflitos humanos universais.
Até aí não há grandes novidades, já que sabemos que a ocupação mais intensa do Brasil deu-se a partir dos primeiros colonos portugueses estabelecidos no litoral, sendo natural que as primeiras explorações literárias do país tenham se restringido às áreas mais próximas dali.
No entanto, nesse rápido passeio pela literatura que, afinal, chamamos de brasileira, parece haver uma lacuna muito grande em relação a outras regiões do país. Duas perguntas nos ocorrem: será que só essas pequenas parcelas do país despertaram o interesse dos nossos escritores?
E as outras regiões, com seus problemas, personagens e conflitos característicos?
Ao pesquisar essas questões vamos descobrir que, aos poucos, junto com a ocupação mais sistemática do interior do país, também foi se construindo um sistema literário – produção, circulação e leitura regulares – distante do litoral e dos centros tradicionais de cultura; uma literatura preocupada em representar facetas diferentes daquelas com as quais estamos mais familiarizados. Assim, encontramos uma intensa vida literária fora desses âmbitos mais conhecidos, uma literatura que, por exemplo, vai representar ficcionalmente os conflitos específicos da ocupação da região vasta que é a Amazônia, com dois grandes limites: de um lado o rio enorme e de outro a grande floresta.
A ocorrência e a repetição de alguns temas nessa ficção merecem destaque: a destruição das culturas indígenas e os grandes e desastrados projetos de modernização na Amazônia – como a Ferrovia Madeira-Mamoré; a ilusória riqueza proporcionada pela breve valorização da borracha, que produziu tanto a escravização de trabalhadores quanto monumentos como o Teatro Amazonas; a implantação da Zona Franca em Manaus e a exploração desordenada da floresta.
Encontraremos ali escritores que, em diálogo direto com o Naturalismo, irão representar o homem da região subjugado pela floresta – um “personagem” recorrente na literatura amazônica. Um exemplo dessa forma de ficção é o paraense Inglês de Souza e sua obra mais conhecida, O missionário. Ainda no Pará, mas escapando radicalmente das imposições da estética naturalista, um importante escritor criou um grande painel sobre a vida do homem amazônico em dez romances: Dalcídio Jurandir.
Outros escritores paraenses dignos de nota são o romancista Benedito Monteiro, o poeta Max Martins e o escritor Haroldo Maranhão.
Já no estado do Amazonas, também muito distantes do Naturalismo, podemos citar os escritores contemporâneos Márcio Souza, que em seus vários romances utiliza a paródia e a sátira para recontar ficcionalmente a história da Amazônia, e Milton Hatoum, um premiado romancista que abordou, em Relato de um certo Oriente e Dois irmãos, a comunidade de origem libanesa radicada em Manaus. A poesia também marca presença, com Thiago de Melo e Luís Bacelar, entre outros.
Ao final desse nosso brevíssimo passeio pela literatura nacional, vamos descobrir que precisamos redescobrir continuamente o nosso país ou, como dizem os versos da canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, que “o Brasil não é só litoral / é muito mais é muito mais do que qualquer zona sul”.
Uma selva abala Portugal
Curiosamente, um dos maiores romances da literatura portuguesa do século XX tem como tema e cenário a floresta amazônica. Publicado em 1930 por Ferreira de Castro (1898-1974), o livro “A Selva” conta a história de um jovem advogado português,  exilado, por questões políticas, no norte do Brasil. No início do século, em pleno auge do ciclo da borracha, ele viaja de Belém para Manaus, e depois para o seringal “Paraíso”, no interior da floresta, onde uma perigosa e intensa história de amor serve de pano de fundo para a denúncia das condições desumanas do trabalho dos seringueiros (a grande maioria composta por nordestinos aliciados à força no sertão cearense), em contraste com a riqueza perdulária dos grandes barões da borracha.
O livro deu origem a um filme de mesmo nome, lançado em 2005, em co-produção luso-brasileira, com Diogo Morgado e Maitê Proença.

História e Cultura n° 4 Ano 1

Nenhum comentário:

Postar um comentário