Nos Estados Unidos, fundamentalistas cristãos pressionam as escolas públicas a abandonar o ensino da evolução. O DI é a nova arma dos criacionistas.
Em um congresso de arqueologia, um pesquisador informa: “Depois de dez anos de escavações, encontramos em nosso país centenas de quilômetros de fios de cobre.Está provado: nossos antepassados inventaram o telégrafo!”
Retruca um outro arqueólogo: “Em nosso país, depois de 20 anos de escavações, não encontramos nada.
Está provado: nossos antepassados inventaram o telégrafo sem fio!”
Alguns argumentos são irritantes e tendenciosos, representando uma ameaça para quem deseja educação científica de qualidade. Passando-se por cientistas, os adeptos do design inteligente (DI) atacam o ensino da teoria da evolução nas escolas americanas, juntando-se aos criacionistas, que afirmam ser a vida fruto da criação divina.
E acreditem: os “desenhistas” já rufam tambores entre nós.
A base da transmissão de características hereditárias é o material genético, representado pelo DNA na maioria dos organismos. Como a molécula do DNA é complexa, é de esperar que ocorram erros em sua replicação, alterando a receita genética das células que receberem o DNA “defeituoso”. Um engano é mais grave se ocorrer durante a formação dos gametas, pois seus efeitos podem se manifestar nos descendentes.
Assim, perguntamos: é mais provável que um erro na replicação do DNA traga benefício ou prejuízo para o indivíduo e seus descendentes? Prejuízo, muito provavelmente!
Se assim é, por que as espécies evoluem? A resposta é a seleção natural: as alterações prejudiciais tendem a desaparecer, enquanto as alterações benéficas, embora mais raras, se incorporam à espécie, pois tornam os indivíduos mais aptos a sobreviver e a se reproduzir. É o que Darwin chamou “descendência com modificação”.
A evolução é o resultado de mutações e da seleção natural, ao longo de bilhões de anos de vida na Terra. Ser “original” é arriscado, mas é o que faz as espécies evoluírem.
UMA FALSA POLÊMICA CIENTÍFICA
Uma das polêmicas sobre evolução recebeu um verniz de aparente rigor científico: o DI, segundo o qual a complexidade dos seres vivos não pode ser explicada apenas pela seleção natural. Os defensores do DI insistem em que algo – ou alguém – “desenhou” propositadamente os seres vivos. E, onde há propósito, há inteligência!Nas palavras dos advogados do DI, certas estruturas biológicas têm uma “complexidade irredutível”, ou seja, não poderiam se desenvolver de estruturas preexistentes mais simples.
Um de seus exemplos preferidos é o olho dos vertebrados.
Isoladamente, nenhuma das partes do olho (globo ocular, córnea, íris, cristalino e retina) forma imagens. Então, como se reuniram em um olho? Segundo eles, estaríamos diante da manifestação incontestável da criatividade de um ser inteligente! Todavia, no mundo animal existem estruturas fotossensíveis intermediárias, progressivamente mais complexas, das quais os patronos do DI “se esquecem”.
O curioso é que esses patronos utilizam o que denominam “falhas insuperáveis” da teoria da evolução para defender suas idéias, sem identificar o autor de tão fabuloso design. Como, reconhecidamente, alguns grupos evangélicos conservadores americanos são os principais financiadores dos arautos do DI, não é difícil imaginar quem eles acreditam ser o “desenhista”.
Não passa de cortina de fumaça afirmar que os acadêmicos se recusam a questionar Darwin. A ciência não aceita nada como imutável ou infalível. Aproveitando-se da pseudociência do DI, criacionistas e “desenhistas” deturpam, deliberadamente, textos científicos sérios, chegando a colocar em boca alheia opiniões que, segundo eles, confirmariam a validade do DI. Até o paleontólogo Stephan J. Gould, defensor da teoria da evolução, viu “desenhistas” brandindo seus textos, como se demolissem Darwin.
A explosão cambriana tem sido apontada como outra “prova irrefutável” do DI. Argumentam os defensores do DI que o aumento súbito da biodiversidade na Terra, há cerca de 570 milhões de anos, só pode ter sido obra de uma entidade superior (Deus? alienígena? arquiteto?). A explosão cambriana resultou, provavelmente, de mudanças climáticas que alteraram as condições de vida e desenvolvimento de organismos que enriqueceram a atmosfera com o oxigênio necessário para a respiração celular aeróbia. Como resultado, desenvolveram-se formas vivas maiores e mais complexas, que deixaram suas marcas no registro fóssil.
Como paleontólogo, Gould sabia que a formação de fósseis só ocorre em determinadas circunstâncias. Não se encontram fósseis sob cada rocha que se chuta no solo.
Apesar disso, pouco a pouco, a ancestralidade dos seres vivos do planeta vai sendo desvendada. Aos paleontólogos, juntam-se outros cientistas. A bioquímica e, mais recentemente, a genômica estão desvendando os laços de parentesco entre as espécies. Como em todas as áreas do conhecimento, existem lacunas que, longe de representarem o “desabamento do castelo darwinista”, só motivam os pesquisadores a buscar mais evidências, que não cessam de aparecer. Os defensores do DI apontam as lacunas do registro fóssil como prova da existência de um “desenhista” superior. São os inventores do telégrafo sem fio!
Por que “desenhistas” e criacionistas não utilizam revistas e outros canais científicos para divulgar suas idéias?
Por que não as colocam diante da comunidade acadêmica?
Respondem alegando que o mundo científico não aceita discutir Darwin, um de seus “cânones”.
Não é verdade! As inconsistências e as falhas metodológicas, a falta de provas e o vazio de idéias impedem que as publicações científicas aceitem as fantasias do DI. Não se trata de prejulgamento; trata-se, isto sim, de ler o que essa gente escreve. Criacionistas que não saíram do armário, eis o que são os “desenhistas”.
O grave é que essas idéias correm o mundo e encontram adeptos. Excetuando-se dois ou três pesquisadores – isso mesmo, dois ou três, entre os quais o bioquímico Michael Behe, autor de A caixa preta de Darwin –, nenhum biólogo de renome oferece respaldo ao DI. Entretanto, para os fundamentalistas, falar a respeito de um “desenhista” soa como música para quem precisa de argumentos “científicos” para defender posições religiosas e/ou ideológicas. Em inúmeras escolas públicas americanas, os professores de ciências estão sendo pressionados a “ensinar” o DI no lugar da teoria da evolução. Devemos, portanto, ficar atentos com o que pode acontecer por aqui. Mantenham distância, obscurantistas!
Boletim Mundo n° 4 Ano 13

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