Quem controla o dinheiro? Das moedas cunhadas por ordem de soberanos aos fluxos de milhas aéreas que acumulamos como direitos potenciais a trocar por novas passagens em algum momento conveniente à empresa aérea, a história dos meios de pagamento é inseparável tanto do fetiche por um pedaço de metal, papel ou crédito eletrônico como representação de valor quanto da maior ou menor confiança que depositamos na autoridade que produz e garante essa representação.
Moeda é medo. Quanto mais confiamos na autoridade de quem controla a emissão de dinheiro, menos medo temos de carregar (nos bolsos ou em registros puramente digitais) o dinheiro com o qual trataremos de nos movimentar no tempo (poupança) ou no espaço (consumo). O fetiche pelo objeto em si desempenha o seu papel. Para muita gente, ao longo da história, a força do dinheiro viria do valor intrínseco do metal usado para cunhar as moedas. Desse feitiço da coisa nasceu (e renasce periodicamente) a crença no ouro como reserva de valor.Deveria, no entanto, parecer óbvio que a virtualização do dinheiro converte os trilhões de dólares, euros, reais em formas complexas e intangíveis de identificação do valor totalmente independentes da existência de um “lastro”. É a confiança de cada consumidor, poupador e especulador nas entidades que emitem dinheiro (sob qualquer forma, assumindo as mais diversas aparências reais e virtuais, de bancos centrais a companhias aéreas) que determina a nossa disposição a usar este ou aquele meio de pagamento.
No século XIX, vigorou o padrão-ouro. A Grã-Bretanha assegurava que o valor da libra estava garantido pelo seu peso em ouro. Muitos acreditavam nessa relação direta entre o valor da moeda e a disponibilidade de reservas em ouro mantidas pelo Banco da Inglaterra, a autoridade emissora de libras. Mas não demorou muito para ficar evidente que o valor da libra dependia não do ouro, mas na confiança que cada súdito real tinha na capacidade do Banco cumprir sua palavra.
Do ouro ao euro, nada mudou. A existência do euro depende da confiança que flutua diariamente nos mercados, confiança nos governos europeus, na sua capacidade de fabricar moedas e cédulas em volume suficiente para lubrificar todas as transações – comércio, investimentos, dívidas – que são contratadas em euros. Nesse contexto, já não há caixas fortes onde se possa verificar a quantidade de ouro disponível para servir de lastro ao euro – mas o Banco da Inglaterra nunca teve ouro suficiente para bancar a libra! Ao controlar o comércio e as finanças mundiais, por meio da ocupação territorial pelo uso da força militar, a confiança na libra sob o padrão-ouro era apenas o equivalente do medo que a própria Grã-Bretanha infligia aos súditos no Império em que o “sol nunca se põe”.
O problema do euro é que o rei está nu: ninguém acredita que seja possível (ou desejável) imprimir os euros necessários para honrar todos os contratos que usam essa moeda como representação de valor, pelo simples fato de que inúmeros governos europeus (como Portugal, Grécia e Espanha) produziram dívidas monumentais. Os credores não querem receber seus valores numa moeda da qual todos desconfiam. Para que a confiança seja restabelecida, dizem os adeptos da responsabilidade fiscal e monetária, é preciso evitar a emissão excessiva de euros. Como não é possível (do ponto de vista dos credores, claro) simplesmente dar o calote, a única forma de evitar o excesso de emissão de euros é reduzir os outros canais por onde escoam os euros emitidos pela autoridade européia – principalmente salários e despesas do governo.
Os brasileiros, e latino- americanos em geral, conhecem bem esse dilema. Para pagar a dívida externa nos anos 1980, os credores, organizados sob o guarda- chuva do FMI, exigiam dos governos que adotassem as mais radicais medidas de contenção de despesas.
Tudo deveria ser sacrificado para honrar as dívidas. Tecnicamente, a salvação do euro exige que, para cada unidade em circulação, exista confiança de que se trata de um euro emitido dentro dos limites impostos pela necessidade de pagar as dívidas em primeiro lugar. É o equivalente a dizer que a libra não poderia ser emitida se não houvesse o lastro correspondente em ouro.
Como cada governo europeu abriu mão de ter sua própria moeda, o peso do ajuste recai sobre os governos mais endividados. Não deveria ser surpresa de que se trate dos mais pobres, que precisavam de mais financiamento para crescer mais rápido e assim alcançar os donos do cassino, basicamente franceses e alemães, os mais ricos da Zona do Euro.
É uma versão aparentemente modernizada do padrão- ouro, sistema que levava muita gente a acreditar, no século XIX, que o valor de uma moeda dependia da quantidade de ouro disponível nas reservas do governo emissor. Nos debates sobre a reforma do sistema financeiro internacional, muitos economistas defendem o retorno a um sistema global semelhante, com taxas de câmbio fixas e ancoradas em moedas chave ou, nas visões mais radicais, em ouro mesmo.
No passado, interessava à Grã-Bretanha que o sistema fosse utilizado o mais amplamente – e pode-se dizer que esse era um dos pilares da Pax Britannica.
Com a primazia dos Estados Unidos e a emergência do euro, alguns analistas acreditam que os países deveriam avançar na globalização fazendo uma escala: a sujeição de suas políticas econômicas a alguma potência regional. Para os mais entusiasmados com a globalização, moedas nacionais são instituições tão anacrônicas quanto empresas estatais ou programações locais de música, cinema e televisão.
Contudo, num ambiente de ameaça à soberania nacional (perder a moeda é perder o Estado, ou seja, sua capacidade de inspirar confiança e, portanto, de provocar medo), tornam-se justificadas, do ponto de vista técnico, medidas extremas de controle dos fluxos de capitais. É o que o próprio FMI passou a recomendar a partir do ano passado.
A alternativa é a hiperinflação, ou seja, o abandono do euro – gerando uma desvalorização descontrolada do patrimônio europeu. Moeda é medo: entre o compromisso com o livre mercado e as angústias vitais com a sobrevivência da capacidade européia de manter alguma política econômica própria, as elites mundiais vacilam perigosamente ao insistir no sacrifício humano para sair da crise. As praças da Espanha são apenas a ponta do iceberg financeiro contra o qual está navegando o Titanic europeu.
Boletim Mundo n° 4 Ano 19
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