terça-feira, 24 de janeiro de 2012

CRISE AMEAÇA A ZONA DO EURO

A ESTRATÉGIA DE SALVAÇÃO FAZIA ALGUM SENTIDO EM MAIO DE 2010 (...) MAS PERDEU CREDIBILIDADE NO ÚLTIMO ANO, ENQUANTO IRLANDA  E PORTUGAL TAMBÉM SUCUMBIAM E OS MERCADOS CONCLUÍRAM QUE UM RESGATE FRACASSARIA EM COLOCAR A DÍVIDA GREGA, EM ESPECIAL, NUMA TRAJETÓRIA SUSTENTÁVEL. INERENTEMENTE, HÁ DUAS TENSÕES ECONÔMICAS CONFLITIVAS NOS PACOTES DE RESGATE. A PRIMEIRA É QUE OS PROGRAMAS DE AUSTERIDADE NECESSÁRIOS PARA CORTAR OS DÉFICITS ESTÃO MATANDO O CRESCIMENTO NECESSÁRIO PARA TORNAR SUPORTÁVEL A DÍVIDA. (...) A OUTRA TENSÃO INERENTE É QUE OS PASSOS NECESSÁRIOS PARA AUMENTAR A COMPETITIVIDADE NO INTERIOR DO EURO REQUEREM QUE PREÇOS E SALÁRIOS SEJAM REBAIXADOS, TORNANDO AINDA MAIS DIFÍCIL HONRAR A DÍVIDA.
(“THE EURO CRISIS:: A SECOND WAVE”, THE ECONOMIST, 18 DE JUNHO DE 2011, P. 31)

The world economy: sticky patch or meltdown?” – a  manchete  de capa de 16 de junho da revista britânica The Economist, conhecida tanto por sua sobriedade analítica quanto por suas convicções liberais, reflete precisamente o impasse que marca o cenário econômico e financeiro mundial: “remendos grudentos” ou “derretimento”. As principais potências hesitam em adotar estratégias radicais de reestruturação econômica para resolver globalmente a crise, preferindo medidas paliativas (“remendos”).
Em nenhuma região do planeta esse percurso aparece tão claramente como na Zona do Euro – e dentro dela a Grécia é o caso mais extremado. O fracasso dos “pacotes de salvação” propostos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Central Europeu (BCE) ameaça expulsar a Grécia da Zona do Euro – e, com isso, precipitar uma crise generalizada, com efeitos dramáticos sobre os demais países membros.
Foi precisamente na Grécia que o apito da panela de pressão soou, em 2009: o país não tinha qualquer condição de cumprir as regras do Tratado de Maastricht, que fornecera as bases econômicas para a união monetária, em 1991. O tratado estabelecia que a dívida pública (soma total devida pelo Estado a credores públicos e privados) e o déficit orçamentário (diferença entre o total arrecadado e os gastos do governo durante o ano) não poderiam exceder, respectivamente, 60% e 3% do PIB. A Grécia ultrapassara tais limites, assim como o grupo de outros países (Portugal, Irlanda, Itália e Espanha) que, juntos, ganharam o pouco honroso rótulo de PIIGS.
A bomba estourou após uma década de euforia, com bilhões de dólares jorrando graças à especulação imobiliária, ao turismo e aos jogos olímpicos (nos casos da Grécia e Espanha). Diante do quadro de insolvência, os principais credores dos PIIGS – principalmente bancos alemães e franceses – colocaram em questão a sua capacidade de honrar os compromissos. Instaurou-se o temor da falência generalizada dos bancos, com efeito dominó capaz de, no limite, fazer explodir a própria Zona do Euro. A crise era de tal dimensão que a Economist admitiu, em maio de 2010, que um pacote de um trilhão de dólares de ajuda fornecido pelo BCE, FMI e Banco Mundial estava longe de ser suficiente para salvar o euro.
Berço original da crise, a Grécia também foi o primeiro laboratório para tentar salvar o euro. O pacote de ajuda, de US$ 156 bilhões (equivalentes à monstruosidade de 47% do PIB), tinha o objetivo de reduzir o déficit orçamentário para 8,1% em 2010 e estabilizar a dívida em torno de 150% do PIB. Mas as próprias condições do pacote tornaram seus objetivos inalcançáveis. A Grécia teve que se comprometer a pagar os juros da dívida (5% ao ano), e ainda a manter gastos com armas (equivalentes a 2,8%  do PIB, contra 1,3% da Alemanha, por exemplo), compradas principalmente da Alemanha e da França.
Para “sanear” a economia, o governo social-democrata do Pasok impôs um programa radical de congelamento de salários e aposentadorias públicas por cinco anos, cortes de benefícios no valor médio de três salários/ano para o funcionalismo público, aumento generalizado de impostos, elevação da idade mínima para aposentadoria aplicável a homens e mulheres (dos 60 anos para 65 ou 67), cortes de 1,5 bilhão de euros em saúde e educação, privatização de setores estratégicos e reforma trabalhista, com redução dos direitos sindicais.
O conjunto das medidas adotadas provocou extrema tensão social, com greves, manifestações e embates com a polícia e com o exército, ameaçando também promover a desagregação do Pasok. Em junho, o primeiro-ministro George Papandreou depôs o ministro das Finanças Giorgos Papaconstantinou, visto como o arquiteto das reformas econômicas, e nomeou ao cargo Vangelis Venizelos, ministro da Defesa e número dois do partido. Mas a cúpula enfrenta uma crescente resistência de sua própria base parlamentar, que teme ser varrida do mapa eleitoral.
Nada funcionou. O máximo que o governo grego conseguiu foi uma insuficiente redução do déficit para 10,5% do PIB, em 2010. Não há perspectiva no horizonte visível de que a dívida grega possa ser saldada. Mesmo que se abstraia a “questão social”, fazendo de conta que vão cessar as manifestações, existe uma equação que não fecha: de um lado, a dívida cresce, pois os bancos credores não aceitam nem discutir a hipótese renegociação; de outro, cai a arrecadação, com o aumento do desemprego.
O “risco grego” produziu efeitos em cadeia nos demais PIIGS: os credores aumentam os juros para “compensar os riscos”, agravando ainda mais os contornos da crise. Portugal e Irlanda já adotaram a rota grega do desastre: receberam, respectivamente, US$ 110 e US$ 120 bilhões em empréstimos do FMI e do BCE (47% e 53% do PIB). Em Portugal, a imensa maioria dos beneficiados pelo seguro desemprego já esgotou sua cota e permanece sem trabalho. Na Irlanda, a recessão produziu uma retração catastrófica de 7,5% do PIB em 2009 – e não há indícios de recuperação.
A crise espanhola é particularmente alarmante, dado o tamanho de seu PIB: US$ 1,4 trilhão, quase cinco vezes o da Grécia. A recessão, persistente desde 2008, e o encolhimento do mercado imobiliário (que, junto com o turismo, era a principal fonte de seu desenvolvimento) produziram a catástrofe atual: 25% de desemprego da população ativa, chegando a 45% entre os jovens de até 25 anos. Os temores se voltam também para a Itália de Silvio Berlusconi, cujo PIB beira US$ 1,8 trilhão, e só perde para o Zimbábue e Haiti em termos de crescimento acumulado na primeira década do século, além de estar mergulhada em grave crise política, recheada de escândalos burlescos.
A contrapartida é a ameaça da generalização das revoltas da juventude e de trabalhadores, como as que tomaram conta de Atenas, e mais recentemente, de Madrid e Barcelona. Mas há também o outro lado da moeda: as forças de direita avançam, tanto em termos eleitorais quanto na multiplicação de agrupamentos racistas e neofascistas. Delineia-se um quadro de grave polarização ideológica, social e política que tem no presidente francês Nicolas Sarkozy o principal ícone da “guerra aos imigrantes”, e em Silvio Berlusconi a petulância e a vulgaridade de um autoritarismo reminiscente do fascismo.
Boletim Mundo n° 4 Ano 19

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