terça-feira, 24 de janeiro de 2012

ENTRE OS JAPONESES, ORDEM E UMA SERENA DETERMINAÇÃO

Eduardo Iwai

Chegando ao Japão, sentia-me em outro universo, onde tudo é o oposto. Os automóveis andam pela esquerda, segundo a regra da mão inglesa. O comportamento das pessoas segue, curiosamente, a mesma lógica invertida. Eu esbarrava nos transeuntes, ou “dançava”, evitando colisões, andando nas calçadas. Encontrava de frente com outra pessoa e por reflexo, saía para a direita e ela, para a esquerda... dela. Direita, esquerda, direita, esquerda... Os trens e metrôs eram episódios de Além da Imaginação: um silêncio sólido, ninguém conversando... Nas escadas rolantes, todos do lado esquerdo e o direito livre para as pessoas com pressa, com uma fila imensa na entrada da escada. No hotel quase não cabiam as malas. E as privadas?
Um botão para esquentar, um para borrifar água e para aumentar a intensidade.
Pessoas rezando nos templos, mantendo a tradição. Pessoas usando quimonos não para um festival local, mas como vestimenta costumeira, roupa chique reservada para os fins de semana, em contraste chocante com lojas de marca no bairro de Ginza, onde o Ocidente domina aos poucos.
À noite, em Roppongi, a experiência é diferente, de um Japão jovem. Japoneses vestidos de uma forma incomum, cabelos tingidos, perucas e roupas coloridas. Russos, africanos, brasileiros, americanos nas ruas. Diferentes culturas – porém, ao mesmo tempo, iguais. Lá, trens e metrôs se transformam. Mais alegres, as pessoas conversam entre si. Algumas ruborizadas pelo álcool, felizes, rindo.
No Japão, o choque inicial não perdura.
As pessoas parecem frias e desconfiadas, mas aos poucos você as conhece e, mais além, elas te conhecem. Pouco a pouco, cumprimentam, reconhecendo que você se esforça tanto quanto eles. Aprende- se regras, tradições, etiquetas: respeito e não incomodar os outros.
Não se usa máscara nas ruas para a própria proteção. Usa- se quando se está doente, evitando contaminar outros. Espera-se até os outros saírem do trem, metrô ou elevador antes de entrar. No restaurante, os funcionários saúdam o cliente entrando ou saindo. Ao voltar, o cliente recebe cada vez mais sorrisos e saudações.
Em 11 de março, repentinamente, senti meus pés formigarem e alguma tontura. Terremoto! Era bem forte, tudo balançava.
Um garçom agachou-se no chão e uma senhora perguntou se estava tudo bem. Ouvia a palavra sugoi (impressionante) de várias bocas. Pessoas debaixo de batentes para se proteger. Outros corriam para fora do edifício. Ondas de poucos centímetros moviam-se em direção ao edifício.
De fora, o chão parecia água com pequenas ondas. Um mar agitado – ou um lençol enorme sendo agitado.
Edifícios balançavam como varas de bambu e, dentro, pessoas moviam-se de um lado para outro. Persianas de todas as janelas batiam em perfeita sincronia. Prédios mais novos e preparados só oscilavam de um lado para outro, sem balançar. Pessoas se escondiam debaixo de lugares que poderiam cair em suas cabeças. O prédio ainda parecia o lugar mais seguro...
As escadas dos edifícios lotadas, mas sem pânico. Trens e metrôs voltariam a rodar somente no dia seguinte. As primeiras notícias do tsunami e de refinarias explodindo preocupavam a todos. A calma, contudo, era mantida e começava-se a voltar para casa. Muitos retornavam a pé, percorrendo trajetos de quase dez horas.
Tumulto nas ruas, caos nas estações, todos esbravejando, reclamando, empurra-empurra, brigas? Não! As filas eram formadas em linha perfeita, por pessoas silenciosas que esperavam a sua vez. Homens, mulheres, jovens, idosos sentados nas estações, pacientemente. Todos – pedestres e veículos – respeitando como sempre os sinais de trânsito. No dia seguinte, filas enormes no supermercado. Como não se impressionar com a calma generalizada, as conversas racionais sobre o evento?
As compras se limitavam ao suficiente para dois ou três dias, no máximo: outros precisariam se abastecer também. No bairro Hiroo, de embaixadas, os estrangeiros se comportavam do mesmo modo.
Os canais de televisão explicavam o que acontecia e o que fazer dali em diante. Numa das reportagens, perguntaram a uma pessoa que estava nos abrigos, sem água, luz e comida, o que precisava. A resposta: que tragam as pessoas que estão lá fora para cá! A sociedade fica em primeiro lugar. A frieza aparente dos japoneses não deve ser confundida com antipatia: trata-se de evitar o incômodo aos outros. Como em tantas coisas, uma lógica invertida daquela vigente em lugares onde a amizade é fácil, mas o indivíduo fica sempre em primeiro lugar.
Reportagens explicavam o funcionamento de uma usina nuclear, níveis de radiação e efeitos, transparecendo credibilidade.
Credibilidade é tudo para eles: você é tudo se tem credibilidade. Se  mente, é banido da sociedade. O governo alertou para o risco de um apagão, devido à brusca redução da oferta de eletricidade.
A população apagou as luzes e os aquecedores, evitando assim o apagão. As garrafas de água de dois litros acabaram e os comerciantes tinham a oportunidade de elevar os preços. Contrariando a lei da oferta e da procura, mantiveram ou até diminuíram o preço – para serem justos.
Estoicismo é bom, mas não em excesso.
É louvável que pessoas se apresentem,  dispostas a arriscar suas vidas para controlar a situação de Fukushima. Mas permanecer dentro das zonas de periculosidade radioativa para não incomodar ninguém e também não serem chamadas de covardes? Desabrigados nas cidades devastadas comendo pouco, sofrendo de desnutrição sem reclamar?
No sétimo dia após o terremoto e o tsunami, a empresa pediu para eu voltar ao Brasil. Fila imensas de passageiros  esperando vôos. Muitos, como eu, deixaram o país forçados pelas circunstâncias extraordinárias.
Retornariam em questão de semanas. Eu gostaria de voltar, mas não pude. Ainda quero...
Boletim Mundo n° 4 Ano 19

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