Os setores “mais favorecidos” da sociedade devem ser taxados de modo a contribuir para resolver a crise. Devem participar do “esforço nacional” para reduzir o déficit orçamentário (diferença entre o que o governo recebe e o que gasta), para preservar “o modelo de sociedade à qual estamos integrados”.
A afirmação não teria nada demais, não fosse o fato de ter sido escrita, na forma de manifesto, por dezesseis bilionários franceses, segundo informou o jornal francês Le Figaro, no final de agosto. A lista de signatários inclui Liliane Bettencourt (cosméticos L’Oreal), Frédéric Oudéa (banco Société Générale), Christophe de Margerie (petroleira Total), Jean-Cyril Spinetta (presidente da companhia aérea Air France). Eles parecem endossar a iniciativa de um dos mais ricos do mundo, o investidor americano Warren Buffett, que publicou uma carta no jornal The New York Times intitulada “Parem de paparicar os super-ricos”. Buffett escreveu: “Nossos líderes pediram um ‘sacrifício compartilhado’. Mas, quando o fizeram, pouparam a mim. Perguntei a meus amigos super-ricos qual sofrimento aguardavam – mas eles, também, não foram atingidos. Enquanto os pobres e a classe média combatem por nós no Afeganistão, e enquanto a maioria dos americanos lutam para chegar ao fim do mês, os super ricos continuamos a nos beneficiar de incentivos tributários extraordinários.”Quando os próprios bilionários se mostram dispostos a “contribuir” para atenuar os efeitos da crise, é porque a situação beira o caos. As tensões sociais se acumulam na França, já que o ajuste da economia implicará, necessariamente, o desmantelamento de conquistas sociais (aposentadoria, regime de trabalho, saúde pública) sobre as quais os trabalhadores franceses já demonstraram, com movimentos e greves gerais, que não estão dispostos a negociar.
No caso europeu, em geral, o que está em discussão é o futuro do euro como moeda comum. Até mesmo uma revista sóbria como a britânica The Economist, uma espécie de porta-voz do pensamento liberal, dedicou várias edições ao tema, nos últimos meses. A capa de 16 de julho mostrava uma moeda de um euro prestes a despencar no abismo. Para a revista, há um total descompasso entre medidas radicais que os governos deveriam adotar para resolver a crise e a timidez de “pacotes de ajuda” e pequenos ajustes adotados sob orientação do Banco Central Europeu (BCE). “A Zona do Euro nem implementou as decisões da cúpula de julho e já sofre os efeitos de uma nova onda de choque”, observou um articulista da publicação, em 12 de setembro.
Na reunião de cúpula encerrada em 21 de julho, os responsáveis pela economia européia decidiram liberar novo pacote de ajuda para a Grécia, além de algumas medidas destinadas a socorrer países em crise, incluindo a intervenção do BCE na compra de títulos de dívidas públicas. O anúncio deu um alívio momentâneo, principalmente para a economia italiana (a quarta maior da União Européia), mas o respiro durou muito pouco. Num primeiro momento, os juros pagos pelo governo italiano aos seus credores caíram de cerca de 6%, um nível sem precedentes, para cerca de 5%. Mas, logo em seguida, começaram a subir novamente, para atingir 5,5% em apenas duas semanas. Isso reflete a falta de confiança dos credores (bancos privados, principalmente) na capacidade do governo italiano de honrar suas dívidas. Há um certo consenso entre os economistas de que um “estouro” da dívida italiana precipitaria o fim do euro, dada a magnitude do PIB do país.
Na Alemanha, políticos e economistas já falam abertamente em excluir a Grécia da Zona do Euro. A Finlândia declarou-se disposta a contribuir para aliviar a crise grega, mas apenas sob a condição de que o BCE ofereça garantias de proteção contra uma falência de Grécia. Há um temor generalizado de que a Grécia não consiga pagar suas dívidas junto aos credores privados (principalmente bancos alemães e franceses), além do fato de que líderes dos partidos de centro e direita na Alemanha mobilizam a opinião pública no sentido de se recusar a “arcar com o ônus” da dívida grega. Um ministro alemão chegou a sugerir – e ele falava a sério – que a Grécia deveria vender uma de suas ilhas paradisíacas para honrar os compromissos.
Há eletricidade no ar. Bastou que um banco secundário grego, com apenas 35 agências, anunciasse sua disposição de declarar falência, para que o Banco Central da Grécia interviesse, com o objetivo de evitar uma “corrida aos bancos” e o pânico generalizado. Mas a intervenção do BC grego só pôde ser realizada contra todas as recomendações do BCE de “austeridade” e controle fiscal. Em outras palavras, a Grécia caminha no fio da navalha.
Não há solução simples. Excluir um país da Zona do Euro, mesmo um país sem grande importância econômica relativa como a Grécia, pode deflagrar o pânico generalizado, especialmente por parte dos vastos contingentes de classe média que têm suas economias depositadas em euros.
Trata-se, aqui, de um processo incontrolável, de natureza muito mais psicossocial do que econômica, de contornos explosivos e imprevisíveis. Para acrescentar uma pitada de nervosismo, qualquer cidadão informado sabe que o dólar americano não é uma alternativa segura ao euro. Os próprios Estados Unidos enfrentam uma crise sem precedentes nas últimas décadas, assinalada pelo fato de que sua dívida pública equiparou-se ao PIB e excedeu os limites históricos estabelecidos pelo Congresso, num quadro de desemprego elevado, baixo crescimento e falta de lideranças políticas capazes de construir um consenso acima dos interesses partidários. Afinal, o apelo de Warren Buffett à maior taxação dos ricos teve o sentido de alertar para a necessidade de um plano nacional que se coloque acima de interesses imediatos, sob o risco da eclosão de crises de efeitos muito mais destruidores.
Para onde vai o euro? Ninguém pode responder. Mas há uma certeza: a resposta, seja qual for, terá que ser dada muito rapidamente. Os sinais de uma explosão estão no horizonte visível.
Boletim Mundo n° 6 Ano 19
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