A produção de bens materiais, principalmente de bens de consumo, deslizou do Ocidente para o Oriente. O fenômeno é de longo prazo e se reflete nas estatísticas do comércio mundial. As parcelas somadas dos Estados Unidos e da Alemanha nas exportações globais retrocederam de cerca de 24% em 1973 para o patamar de 18% em 2009. Enquanto isso, as parcelas somadas da China, do Japão e dos Novos Países Industrializados (NPIs) saltaram de cerca de 11% para mais de 24%.
A mudança ocorreu em duas fases. Na primeira, entre 1973 e 1993, o Japão e os NPIs desempenharam os papéis cruciais; na segunda, a partir de 1993, a a China figurou como motor do processo de mutação. Entre uma e outra, a dinâmica produtiva do Oriente mudou. O Japão e os NPIs passaram a fornecer tecnologias e bens de produção para a China, que se convertia em grande plataforma exportadora de bens de consumo para o Ocidente.
As exportações chinesas dirigem-se para o mundo inteiro e têm forte impacto sobre os mercados da América Latina, da África e da própria Ásia. Mas, sobretudo, elas invadiram os mercados dos Estados Unidos e da Europa. Não se deve subestimar as múltiplas conseqüências da novidade. Elas transformam os mercados de consumo e de trabalho no mundo desenvolvido.
Quando a China exporta mercadorias, está “exportando” mão de obra. A concorrência da força de trabalho barata dos operários chineses provoca mudanças drásticas nos padrões de emprego e salários nos países desenvolvidos. Conquistas trabalhistas e sociais antigas ficam sob ameaça. Os sindicatos se enfraquecem, face aos espectros das relocalizações industriais e do desemprego. Uma vasta classe média assalariada em setores tradicionais assiste à erosão de seus salários reais. Os níveis de consumo, nas novas circunstâncias, só podem ser conservados por meio de mecanismos de crédito e endividamento. A crise mundial em curso revela o esgotamento dessa estratégia de crescimento.
A invasão dos mercados ocidentais pelos produtos chineses, fabricados a partir de mão de obra barata mas com tecnologias modernas, modificou os ciclos econômicos.
A expansão da demanda, movida a crédito, não provocou pressões inflacionárias significativas, devido à oferta crescente de uma base produtiva globalizada.
Os bancos centrais, especialmente nos Estados Unidos, puderam manter juros baixos ao longo de praticamente toda a última década. Com isso, contribuíram para aquecer ainda mais o consumo. O colapso iniciado em 2008, contudo, contraiu a demanda e, repentinamente, colocou os países desenvolvidos à beira do precipício da deflação. Os juros foram reduzidos ainda mais, rondando o zero e tornando-se juros reais negativos (ou seja, inferiores à inflação).
Os saldos comerciais positivos da China transformaram-se em reservas internacionais por meio da aplicação em ativos e títulos de dívida dos mais diversos países – principalmente dos Estados Unidos. Desse modo, paradoxalmente, enquanto crescia a dívida americana, consolidava-se a função de “moeda global” do dólar. O fluxo de investimentos dolarizados oriundo da China permitiu a expansão do crédito e da dívida pública nos Estados Unidos. É como se, em troca do mercado interno americano, os chineses transferissem para a potência ocidental sua enorme poupança. Hoje, esse equilíbrio assimétrico está em risco, pois surge no horizonte a desconfiança inédita de que, um dia, os americanos possam dar calote na sua dívida.
A imensa “fábrica global” chinesa depende de matérias-primas, combustíveis e alimentos importados. Como conseqüência da demanda da China, na primeira década do século XXI, inverteram-se as tendências prevalecentes na década anterior e os preços das commodities conheceram dramática elevação. Os preços das matérias- primas agrícolas aumentaram em mais de 50% e os dos alimentos, do petróleo e dos minérios e metais, em mais de 100%.
O surto de valorização das commodities beneficiou as economias em desenvolvimento, além de países desenvolvidos que são grandes exportadores de produtos básicos, como o Canadá e a Austrália. Os exportadores de petróleo conheceram uma nova bonança. Vladimir Putin usou-a para consolidar seu poder na Rússia, como fez também Hugo Chávez na Venezuela. A África experimentou uma década de expressivo crescimento, com alguma redução da pobreza absoluta. Na Argentina, o casal Kirchner estabilizou seu controle sobre o peronismo e o conjunto do sistema político do país. No Brasil, Lula cantou a expansão econômica como se fosse obra sua, elegendo uma sucessora inventada no Palácio do Planalto.
A “fase chinesa” da globalização parece perto do fim. A China não se depara com uma estagnação, mas suas taxas recordistas de expansão não podem se sustentar sem o consumismo desenfreado no mundo desenvolvido. A redução do crescimento chinês terá impactos múltiplos, inclusive sobre os preços das commodities. O “espetáculo do crescimento” nos países em desenvolvimento tende a sofrer um arrefecimento, que já começa a se sentir no Brasil.
Boletim Mundo n° 6 Ano 19
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