Com quase 80 de seus 104 andares já construídos, o prédio principal do novo World Trade Center desponta como o edifício mais alto de Lower Manhattan, em Nova York. Numa manhã de verão no Hemisfério Norte, a quatro semanas dos dez anos dos ataques de 11 de setembro de 2001, o arranha-céu reflete um azul tão brilhante que chega a incomodar os olhos.
É a obra que mais se destaca detrás dos tapumes que cercam o Marco Zero, a área de 64 mil metros quadrados na qual desabaram as Torres Gêmeas, depois de atingidas por aviões de passageiros seqüestrados em pleno vôo. Diante da construção destinada a substituir o complexo destruído pelos ataques, uma lembrança é inevitável: pessoas em desespero, se jogando dos prédios em chamas, a dezenas de andares do solo.Enquanto as imagens de uma década atrás insistem em voltar à memória como um filme, percebo o burburinho à minha volta. É um sem fim de turistas que chegam à calçada, param por uns instantes e começam a registrar as obras do novo World Trade Center com filmadoras, máquinas fotográficas, celulares e iPads. Alguns, na verdade, parecem focar o cenário apenas através das lentes de algum equipamento.
Depois de uma série de cliques, partem para outra “locação”. O mesmo acontece com os passageiros dos tradicionais ônibus de dois andares que circulam pelos principais pontos turísticos de Manhattan. Eles nem chegam a descer para a calçada. Como o engarrafamento em frente ao Marco Zero é uma constante, do próprio ônibus fazem filmagens e fotografias.
Meio incomodada com a aparente frivolidade da situação, caminho em direção a uma espécie de showroom do 9/11 Memorial, o monumento e o museu dedicados às 2.753 vítimas dos ataques às Torres Gêmeas. Com previsão de abertura para o aniversário de dez anos da tragédia, o Memorial integrará o novo World Trade Center e será franqueado primeiro às famílias das vítimas. Na parte do terreno antes ocupada pelas Torres já estão instaladas duas piscinas, que podem ser observadas em sobrevôos pela região ou na maquete do novo complexo, um dos pontos altos do showroom do Memorial. Nele, vende-se todo o tipo de lembrança relacionada aos ataques – e à determinação americana em superar seus traumas. Símbolos da vida e da longevidade, cerca de 400 carvalhos foram trazidos de diferentes partes dos Estados Unidos para circundar o Memorial.
No showroom, folhas de carvalho laqueadas, transformadas em bijuterias, também estão à venda. Custam US$ 25.
Mais US$ 10 dão direito a um cordão.
A vocação de ponto turístico que acompanhou o World Trade Center desde a sua inauguração, em abril de 1973, foi reforçada depois dos ataques terroristas.
Se, antes, parte dos turistas não se abalava em subir ao deque de observação instalado no 107o andar da Torre Sul, hoje uma visita ao Marco Zero faz parte de qualquer roteiro básico por Nova York.
Há, porém, muito mais a contemplar.
Bem diante do lado leste do complexo fica a Capela de Saint Paul, que serviu como ponto de apoio para os que trabalharam nas operações de resgate. Reaberta mais de dois anos depois dos ataques, a capela conservou relíquias do período, inclusive uma cama de armar usada para o descanso de socorristas. Sobre ela, alguns dos 15 mil ursinhos de pelúcia enviados a Nova York de vários pontos do país, como símbolo de solidariedade.
Saindo da capela, vejo um garoto de uns oito anos observar o prédio azul que virou o novo ícone americano e perguntar ao avô: “E se eles atacarem de novo?”. Sem o menor pudor em invadir a privacidade alheia, presto atenção na resposta: “Isso não vai acontecer. Nós não vamos deixar.” O fato é que o 11 de setembro representa enormes desafios aos americanos, em especial no que diz respeito à tolerância. Um desses desafios está materializado a apenas dois quarteirões do Marco Zero, nos números 45 e 51 da rua Park Place. Com marcas do antigo letreiro de uma fábrica de casacos, a Burlington Coat Factory, a propriedade passaria despercebida não fossem as grades na calçada e uma policial de plantão. A impressão de edifício abandonado só é quebrada por pequenos cartazes convocando encontros para “agradecer e perdoar” durante o Ramadã, o mês sagrado do calendário muçulmano. Os turistas que não param de clicar as obras do novo World Trade Center nem passam diante do endereço, palco de furiosas manifestações no ano passado, quando se soube que o espaço abrigaria uma mesquita.
Pelo projeto original, a sede da antiga fábrica cederia lugar a um complexo de 15 andares que incluiria a mesquita e um centro comunitário islâmico. O empresário Sharif Gamal, idealizador do projeto, repete sem parar que a proximidade do Marco Zero nem lhe “passou pela cabeça” ao adquirir o imóvel, há pouco mais de dois anos. No começo, garante Gamal, ele só queria criar um espaço para orações. Depois, teria pensado num centro comunitário aberto à população, a exemplo da instituição judaica que sua filha pequena frequenta no Upper West Side de Manhattan.
O certo é que, após a gritaria coletiva, Gamal mudou a estratégia de apresentação do projeto à comunidade, chamado Park51, dizendo que se quiserem apenas quatro ou cinco andares, “serão quatro ou cinco andares”. Por enquanto, o cenário é complicado, mesmo para aqueles que, como eu, não associam islamismo com terror. Visto de fora, implorando por uma demão de tinta, o edifício tem aparência sinistra. Saio caminhando devagar, mas só me recupero do impacto depois de um café bem forte.
Boletim Mundo n° 5 Ano 19
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