Às armas, cidadãos!”
Chego à Paris pela Gare du Nord, a grande estação ferroviária que liga a capital francesa ao norte da Europa, mergulhando na Paris delicada e culta. Graças aos céus inventaram a mala com rodinhas e se pode sentir com prazer o vento gelado do inverno francês caminhando pelas ruas agitadas do 11º arrondissement até meu charmoso hotelzinho. No metrô que me leva à Praça Saint Michel, começo a perceber que algo está acontecendo nesta encantadora cidade.No passado, morei por quase dois anos em Paris. Meu esporte preferido na cidade é caminhar, caminhar, caminhar pelas pequenas vielas, grandes boulevards e nas margens do rio Sena. Aí se cruza com os caminhantes de todas as cores e de todos os cantos. Um café numa mesinha na calçada em Saint Michel, portal de entrada do Quartier Latin, e me lanço pela Rue de la Huchette, sempre maravilhado pelos pequenos restaurantes franceses, gregos, italianos e orientais, deste recanto que vai me conduzir à Île de Saint Louis, no meio do Sena.
Este pequeno bairro é uma maravilha arquitetônica, com seus edifícios com varandinhas de ferro e seus telhados de ardósia negra. Sigo pelas margens do rio e o atravesso várias vezes, entrando por uma ponte e voltando por outra, admirando de diversos ângulos os velhos e imponentes edifícios e palácios. Após uma parada na Pont Neuf, para olhar os barcos que levam turistas da Île de Saint Louis até a Torre Eifel, vou “bater o ponto” no velho banco de ferro da pracinha nos fundos do Tribunal de Justiça, onde o poeta surrealista André Breton encontrava Nadja, sua personagem, musa, mescla de sonho, beleza e amor perdido no passado.
Com o vento e a neve que cobria Paris de branco tive que me refugiar no Café de La Paix para ler o Le Monde e o Le Figaro, para tomar o pulso político da França.
“A greve dos magistrados continua”.
Esta manchete inusual me chama a atenção e descubro que o presidente Nicolas Sarkozy criticara uns juízes que haviam soltado um acusado de assassinato e ele havia matado de novo. Os juízes respondem que fizeram seu serviço, pois não havia provas, e que não podiam seguir e vigiar o acusado porque Sarkozy havia cortado as verbas da justiça. Sarkozy contesta furiosa e violentamente os juízes de toda a França, que respondem entrando em greve geral!
Na Praça Republique, passo por cafés onde se comem mariscos com batata frita e se bebe vinho branco, e me junto a uma multidão que se manifesta contra o governo.
Milhares de pessoas estão furiosas e se lançam em marcha pelo grande boulevard em direção ao centro cultural Beuabourg, cantando consignas políticas.
O clima é quente entre os manifestantes apesar da neve que cai cobrindo tudo de um branco suave.
Eu os acompanho e, morto de frio, me desvio à esquerda no Marais, este antigo bairro judeu construído sobre um pântano (marais) e que hoje é très chic com suas lojas de objetos e antiguidades. Sob as colunas da Place des Vosges, um chocolate quente conforta.
Passando por uma banca de jornais perto do Les Alles, um shopping construído sobre o terreno do outrora lindo Mercado Público de Paris, compro a respeitada revista Mariane. A grande manchete é “A guerra civil na França – 500 anos de enfrentamentos”. Ensaios sobre a história da França “onde sempre tudo termina em guerra civil”. E todos os jornais, de uma ou de outra maneira, insinuam a mesma coisa. Um jornal sindical titula “A França caminha para uma explosão social”. A França experimentou, no último ano, uma onda de grandes manifestações. Milhões fizeram greves, inclusive duas greves gerais, com piquetes militantes e assembléias permanentes.
Mas o governo se empenha em uma política de cortes no orçamento público e de ataques às liberdades democráticas.
Crise econômica, política governamental de austeridade, resistência dos trabalhadores e dos estudantes, um governo com 20% de apoio e que não cessa de se desmoralizar e enfrentar os franceses, que se agarram ao seu nível de vida – eis o quadro político do país. Sarkozy e seus ministros, amigos de Zine Abidine Bem Ali, o presidente fugitivo da Tunísia, amigo de Muhammar Kadafi até a explosão da Líbia – o governo francês está com cara de acabado. Vou checar o clima nos cafés e livrarias em torno da Sorbonne e encontro verdadeiras assembléias em cada café cheio de estudantes e professores. Todos gesticulam e falam com entusiasmo da próxima greve ou manif (manifestação abreviada, velho hábito francês).
Na sexta-feira pela manhã, após o passeio obrigatório pela feira da Rue Monge, na Rive Gauche, me mando para ouvir o que dizem os milhares de manifestantes sindicais que marcham em frente da Gare de Lest, outra estação ferroviária parisiense. Júlio Cesar escreveu, em sua Guerras da Gália, que as tribos gaulesas eram inclinadas ao “tumulto”. O célebre chanceler alemão Otto von Bismarck dizia que um “atavismo celta” explicava o gosto dos franceses pelos enfrentamentos. François Mauriac, Nobel de Literatura em 1952, escreveu que “a guerra civil sempre foi fria ou quente, segundo as épocas, mas na França ela é perpétua” (Bloc-Notes, 22 de junho de 1922).
E, de fato, os franceses tem certas características explosivas. Karl Marx dizia que os alemães eram os filósofos; os ingleses, os economistas e os franceses, os políticos da Europa. Parece que estava certo – para azar de Sarkozy.
Excelente vinho, melhor cognac e um café. A França revolucionária se sacode e olha para todos os lados em busca de uma saída para a crise que ameaça e desintegra tudo o que era sólido e que desmancha no ar a vida que os franceses construíram a duras penas.
A caminho do hotel, a noite fria e agradável vai ficando para trás, acompanhada pelos sons de um violinista erudito tocando nos corredores do metrô de Paris. Saio da estação Chateau D’Eaux assobiando baixinho o “Hino à Liberdade” da Revolução Francesa.
Preciso voltar à Paris.
Boletim Mundo n° 2 Ano 19
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