terça-feira, 24 de janeiro de 2012

AS “FÁBRICAS” DE ELETRICIDADE

Nelson Bacic Olic

Quando se observa uma imagem de satélite captada à noite, chama a atenção o contraste entre manchas brilhantes e grandes regiões escuras. As primeiras indicam, sobretudo, a localização das aglomerações urbanas; as segundas, as áreas esparsamente povoadas ou não ocupadas pela humanidade.
Em algum momento de 2011 a população mundial atingirá a marca de 7 bilhões de pessoas e, segundo as previsões correntes, estima-se que em 2050 o efetivo demográfico mundial ficará em torno de 9 bilhões. Desde 2009, pela primeira vez na história, há mais pessoas vivendo em áreas urbanas do que nas zonas rurais.
Dado o ritmo de crescimento da população urbana, especialmente em países de grande população absoluta e grande contingente rural, como a Índia e a China, assim como em outros países asiáticos e africanos, pode-se prever que, por volta de 2030, cerca de dois terços da população mundial estarão vivendo em cidades.
Em 2050, essa proporção atingirá 75%.
Além disso, nas últimas décadas, centenas de milhões de pessoas em todo o mundo aumentaram seu padrão de consumo – o que tem repercussões importantes nos níveis de consumo energético.
Entre os vários fatores que permitem uma condição de vida mais digna para os moradores das áreas urbanas, dois são essenciais: o abastecimento de água potável e o acesso a eletricidade. Tendo esse último fator em vista, os governos se preocupam em disponibilizar energia elétrica para toda a população com tarifas razoáveis, além de assegurar a segurança energética, evitando os chamados “apagões”. A demanda por eletricidade cresce fortemente, sob os impactos combinados da expansão da população urbana e do aumento da renda de parcelas expressivas da população mundial.
As fontes mais utilizadas para a geração de energia elétrica são o carvão, o petróleo, o gás natural, a hídrica, a nuclear, a biomassa, a eólica e a solar. Tomadas em conjunto, elas definem o que se denomina matriz elétrica. As proporções de contribuição dessas fontes variam de país para país, em função de fatores como o “cardápio” de recursos naturais disponíveis e das decisões políticas estratégicas postas em prática pelos Estados ao longo do tempo. Recentemente, as estratégias energéticas sofrem influenciam relevante de considerações socioambientais e socioeconômicas.
Como desenvolvimento econômico é quase sinônimo de consumo de energia, não há surpresa na constatação de que os dez países que mais geram energia elétrica sejam Estados Unidos, China, Japão, Rússia, Canadá, Índia, Alemanha, França, Grã-Bretanha e Brasil. Na maioria desses países, a matriz elétrica é dominantemente térmica, com utilização extensiva de fontes não renováveis e altamente poluentes, como o carvão e petróleo.
No entanto, há exceções: na França, a fonte nuclear é preponderante, enquanto que no Canadá e, principalmente, no Brasil, a fonte principal é hídrica.
O Brasil ocupa o terceiro lugar mundial na geração total de energia elétrica de fonte hídrica,  só superado pela China e pelo Canadá.
Se considerarmos a contribuição porcentual da fonte hídrica na matriz elétrica, o Brasil, com cerca de 80% é superado, curiosamente, apenas pelo Paraguai (com 100%), em virtude dos acordos que levaram à construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, e pela Noruega (99%), em função do intenso aproveitamento dos recursos hídricos naturais do país e do sistema interligado aos demais países nórdicos.
O Plano Decenal de Expansão de Energia Elétrica 2010/2019 do Brasil, publicado em 2010, propicia algumas constatações importantes. Nesta década, a oferta de energia elétrica conhecerá incremento de quase 50%. As fontes renováveis responderão por uma participação em torno de 80% da geração total. Nesse conjunto, a fonte hídrica, que engloba as hidrelétricas de grande porte e, principalmente, as pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), terá participação oscilando entre 71 e 74%. Com um papel complementar à fonte hídrica, a biomassa – através da queima do bagaço e palha de  cana – e a energia eólica terão crescimento em sua participação.
O Brasil opera cerca de 200 hidrelétricas e quase 600 PCHs e existem três grandes projetos previstos para entrar em funcionamento até 2015: as usinas de Jirau e Santo Antonio, no rio Madeira, e a gigantesca Usina de Belo Monte, no rio Xingu. O grande obstáculo diante de projetos desse porte, especialmente o de Belo Monte, é a obtenção das licenças ambientais.
O uso de fontes não renováveis no Brasil conhecerá incremento até 2013, quando sua participação começará a diminuir.
Nesse conjunto, a única exceção será a fonte nuclear, cuja participação aumentará com a entrada em funcionamento da Usina de Angra III.
Usinas térmicas convencionais, movidas a fontes não renováveis, geram poluição e fortes emissões de gases de efeito estufa. Usinas elétricas baseadas nas fontes eólica, solar ou biomassa possuem reduzida densidade no fluxo energético, sendo utilizadas para complementar  outras fontes da matriz elétrica. Apesar de suas óbvias vantagens ambientais, elas não conseguem atender às grandes demandas energéticas das áreas urbanas.
“Não existe almoço grátis”, como dizem os economistas. Todas as “fábricas” de eletricidade têm impactos sociais e ambientais. Grandes hidrelétricas geralmente exigem vastos reservatórios, que inundam áreas extensas. Nos Alpes italianos, décadas atrás, a ruptura de uma barragem, sob o efeito de fortes chuvas e do degelo de primavera, produziu uma onda de inundação que devastou diversas pequenas cidades. Na China, onde a geração térmica de eletricidade é dominante, estima-se que, a cada ano, morram dois a três mil trabalhadores em minas de carvão. Além disso, doenças respiratórias causadas pela poluição do ar das cidades formam um dos fatores principais da mortalidade precoce no país.
Fukushima atraiu, mais uma vez, os olhares para os riscos das “fábricas” nucleares de eletricidade. Mas a tragédia japonesa não deveria ocultar os impactos ambientais e os riscos associados às diversas outras fontes de produção elétrica.
Boletim Mundo n° 3 Ano 19

Nenhum comentário:

Postar um comentário