Todo texto, seja ele escrito, uma imagem, um desenho animado, uma expressão corporal, não está desassociado do resto do mundo. De certa forma, qualquer novo texto dialoga com todo e qualquer texto que tenha sido produzido anteriormente. E irá dialogar com os textos produzidos no futuro.
Parece confuso, mas é muito simples. E, cada vez mais, esta relação entre textos aparece nos vestibulares. A redação foi o primeiro lugar que a intertextualidade ocupou.Quase todos os vestibulares do Brasil, incluindo o Enem, têm propostas de redação que pedem que o aluno articule idéias entre os textos apresentados na prova e/ou acumulados pelo aluno no seu tempo de escolarização.
A cobrança da intertextualidade foi inserida primeiro na parte da redação, pois os professores de português foram os primeiros a entender que só o acúmulo de conteúdo não traz grandes avanços na vida dos alunos. Só fazia deles enciclopédias ambulantes. Depois de o aluno ter acumulado os conteúdos mínimos da linguagem, o que fazer? Colocar o aluno para fazer análise morfológica de todas as frases possíveis? Não. Era necessário que o aluno também fosse produtor de conhecimento.
A intertextualidade, a interdisciplinaridade, as competências, as habilidades e tantas outras coisas da nova pedagogia foram ocupando cada vez mais espaço e chegaram a algumas das questões dos vários vestibulares, além de terem fincado morada no Enem. É cada vez mais comum encontrarmos questões que parecem não precisar de nenhum conteúdo avançado para resolvê-las mas, mesmo assim, não são resolvidas pela maior parte das pessoas.
Nossa tradição escolar ainda tem muito do enciclopedismo iluminista. Muitos educadores acreditam que devem fazer com que cada aluno absorva todo o conhecimento que existe no mundo. Isto, na era da informação, não é mais possível. A fórmula, para o professor que quer estar em sintonia com seu tempo, que leva muito mais alunos ao sucesso escolar, é fazer com que cada aluno acumule os conteúdos mínimos (mínimos mesmo), ensiná-lo a “aprender” e, a partir daí, utilizar recursos para que eles desenvolvam a capacidade cognitiva de relacionar textos.
O aluno capaz de criar um diálogo entre textos em uma prova, ou entre textos da prova e sua experiência escolar e de vida, faz com competência uma boa redação e também consegue “navegar” com muito mais facilidade nos novos formatos de vestibular. Infelizmente, exceto raras exceções, a intertextualidade é aprimorada quase somente nas aulas de redação. Os limites da liberdade de imprensa e a diplomacia estão expostos em textos de figuras díspares, como Julian Assange e Leon Trótski.
A adesão a essa proposta de Mundo prepara para a redação, mas também prepara para as questões que irão aparecer em provas de todas as outras áreas do conhecimento.
São vários os relatos de alunos que encontram, em provas, o mesmo tema que apareceu em sala de aula, só que cobrado de outra forma. Também são muitos os alunos que encontram questões que só precisam de interpretação e dizem que “não aprenderam” aquela matéria.
Enquanto caminha, lentamente, a reforma de nosso Ensino Médio, algumas boas aulas de redação, onde o aluno é incentivado a assumir papel de protagonista, podem ajudar que a formação “corra” para mais perto do que são os novos vestibulares e do que é o Enem.
Boletim Mundo n° 3 Ano 19
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