A descoberta da radioatividade e o seu controle formam uma das principais vertentes da história da Física. De Marie Curie a Robert Oppenheimer, os cientistas fabricaram o “destruidor de mundos”.
Eu me tornei a Morte, o destruidor de mundos”. Ao proferir a frase célebre, extraída do texto religioso hindu Bhagavda-Gita, logo após a explosão do teste Trinity, o primeiro da história nuclear, o físico Julius Robert Oppenheimer, cientista-chefe do Projeto Manhattan que desenvolveu as bombas de Hiroshima e Nagasaki, antecipava o medo que se apoderou da humanidade desde agosto de 1945.Tudo começou com a descoberta dos Raios Catódicos, por J. J. Thomson, e dos Raios X, por Wilhem Roentgen (primeiro Nobel de Física, em 1901). Depois, intensificaram-se os estudos sobre estranhas emissões que atravessavam determinados materiais. Os novos fenômenos interessaram ao francês Henri Becquerel (Nobel de Física de 1903) que, utilizando um sal duplo de potássio e uranila, conseguiu afetar chapas fotográficas ocultas dentro de envelopes escuros. A princípio, Becquerel imaginava que as emissões eram estimuladas pelo Sol, mas ao deixar o minério sobre o envelope dentro de uma gaveta, observou que a chapa fotográfica era afetada da mesma maneira.
Quem estabeleceu a diferença entre as emissões de Raios X e as emissões descobertas por Becquerel, que não necessitam de estímulo elétrico, foi uma jovem polonesa chamada Marie Sklodowska Curie. Ela e seu marido Pierre (que dividiram o Nobel de 1903 com Becquerel) decompuseram o minério que emitia raios espontâneos e detectaram que essas emissões eram causadas pelo urânio.
A busca por novos elementos com características semelhantes os levou à descoberta do polônio – homenagem à terra natal de Marie – e de um outro elemento, que emitia forte luminosidade no escuro e, por isso, foi batizado de rádio (do latim radius, que significa raio). A intensa atividade do elemento originou a expressão radioatividade.
Marie Curie ainda ganharia o Nobel de 1911, na área de química, tornando-se a primeira e única mulher a ganhar duas vezes o prêmio – e também a única a ganhá-lo em duas áreas científicas distintas. Ela morreu em 1934, com 66 anos, de uma doença contraída por prolongada exposição à radiação. Seus relatórios de experiências da década de 1890, até hoje contaminados por radioatividade, estão guardados em caixas recobertas por chumbo.
O passo seguinte seria dado por Ernest Rutherford (Nobel de Química de 1908), ao determinar que as emissões radioativas se dividiam em duas possibilidades, nomeadas como Alfa e Beta. A emissão Gama seria observada apenas posteriormente.
Ao bombardear átomos de nitrogênio com partículas alfa, produzindo oxigênio e liberando um próton, Rutherford induziu a possibilidade da fissão nuclear.
Daquele ponto em diante, não bastava saber que os elementos possuidores de núcleos instáveis emitiam radiação espontaneamente. Era preciso ir além, e resolveu-se cutucar o rabo do dragão – expressão usada pelos cientistas do Projeto Manhattan. Em 1929, Enrico Fermi profetizou a fissão nuclear em um trabalho apresentado na Sociedade Italiana Para o Progresso da Ciência. O próprio Fermi (Nobel de Física de 1938) construiria, mais tarde, a primeira pilha nuclear da história nos subterrâneos do campo de futebol americano da Universidade de Chicago. Esse protótipo, o primeiro dos reatores nucleares, originou a produção de plutônio, material físsil da bomba de Nagasaki.
A fissão nuclear deixou de ser um sonho e entrou para a realidade em dezembro de 1938, quando os alemães Otto Hahn e Fritz Strassman publicaram a descoberta do elemento bário como resultado do bombardeamento de urânio com nêutrons. Como o bário é um átomo de menor número atômico que o urânio, só podia ter sofrido um processo de quebra (fissão). Quem propôs uma explicação matemática para o fenômeno foi a física Lise Meitner, antiga assistente de Otto Hahn que vivia na Dinamarca e que havia fugido do nazismo por conta de sua origem judia.
Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, surgiu o receio de que cientistas alemães pudessem criar uma arma de destruição muito mais poderosa do que as existentes. O sinal de alerta foi dado quando Leo Szilard, fugindo da Alemanha, procurou Albert Einstein na Universidade de Princeton e informou-lhe sobre as pesquisas avançadas dos físicos alemães.
De posse da informação, Einstein enviou uma carta ao presidente Franklin Roosevelt, que determinou a criação do Projeto Manhattan. Dois bilhões de dólares mais tarde, nasceram as bombas que foram lançadas sobre o Japão.
Dos três tipos de emissões radioativas, a emissão Gama é a mais perigosa e devastadora. Constituída apenas por ondas eletromagnéticas – ou seja, pura energia – possui grande capacidade de penetração mesmo através de sólidos consistentes. Os efeitos variam de acordo com o tempo de exposição, quantidade de radiação e a resistência inerente ao tipo de organismo exposto. Entre os vários efeitos, podem se listar alterações que vão do impedimento reprodutivo das células, passando por modificações genéticas e chegando à própria destruição celular.
Ao redor da antiga usina nuclear de Chernobil, na Ucrânia, mantém-se até hoje uma Zona de Exclusão de 30 quilômetros.
O resultado nocivo mais comum é o desenvolvimento de câncer, que atinge especialmente os sistemas linfático e intestinal, além da medula óssea. Em doses mais elevadas, surgem queimaduras de pele e hemorragias generalizadas.
Há relatos de sobreviventes de Hiroshima que presenciaram pessoas sangrando pela boca, nariz, ouvidos e olhos. Ainda hoje, são constatados efeitos hereditários em indivíduos descendentes das pessoas que foram afetadas pela radiação em Hiroshima e Nagasaki.
Boletim Mundo n° 3 Ano 19

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