Sob a orientação do assessor Arturo Valenzuela, o presidente americano definiu um eixo de política externa para o subcontinente. O alvo implícito é a Venezuela de Hugo Chávez.
Os Estados Unidos, com Barack Obama na presidência, tem uma política para a América Latina? Foi a pergunta que emergiu quando anunciou-se que o presidente visitaria países latino-americanos e surgiu a figura de um quase desconhecido, Arturo Valenzuela, novo encarregado para a América Latina no Departamento de Estado americano. Valenzuela fez essa pergunta a si mesmo em audiência num subcomitê da Câmara dos Deputados.A viagem de Obama foi mais curta do que aquela de George W. Bush em 2007.
Obama só visitou três países, mas a secretária de Estado Hilary Clinton definiu-a como “vital” em termos diplomáticos.
Valenzuela faz parte da “família”, foi assessor de Bill Clinton para questões latino- americanas e é citado como militante democrata convicto, especialista em “origens e consolidações de democracias”. Ele porta um currículo invejável, tendo ainda em vista que nasceu no Chile e fez carreira acadêmica nos Estados Unidos. No cargo que passou a ocupar, coube-lhe definir o que seria a agenda latino-americana de Obama. Foi o que fez, em declarações à imprensa e, sobretudo, em depoimentos perante o Congresso.
Relações com Cuba ficam mais ou menos o mesmo de sempre, com pequenos gestos de escassa abertura e com direitos humanos em primeiro lugar. A ambição de Valenzuela é “reconstruir” relações com a América Latina. Sob o seu ponto de vista, elas naufragaram nos oito anos dos dois mandatos de Bush e agora se trata mesmo de reconstruí-las. A ênfase absoluta é na questão da democracia.
No governo Bill Clinton, como assessor de segurança nacional, ele tratou sobretudo do México. O combate aos cartéis de drogas mexicanos assume, na visão do governo Obama, o caráter de contra- insurgência.
Guerra civil? Pelo menos uma ausência causou estranheza, no roteiro da viagem de Obama: a Colômbia, que é o mais firme aliado dos Estados Unidos no continente, recebe gordas verbas para combate ao narcotráfico e continua às voltas com um renitente espasmo guerrilheiro.
O país acolhe, como o México, assessores militares dos Estados Unidos, que migraram da base americana fechada no Equador, onde o presidente é um populista de esquerda. Acontece que o Plano Colômbia, de assistência militar no combate ao narcotráfico e à guerrilha, tem verbas reduzidas no projeto de orçamento de 2012, encaminhado por Obama ao Congresso americano.
O roteiro de Obama ficou entre o simbólico e o pragmático. O Brasil desempenha papel proeminente na América Latina e é preciso reconhecê-lo. Além disso, um encontro entre os dois presidentes, do Brasil e dos Estados Unidos, talvez permitisse ir mais fundo nos quesitos Honduras e Irã, embora Honduras não estivesse contemplada no roteiro latino-americano. O Brasil acabou se declarando favorável a que o Conselho de Direitos Humanos da ONU examine violações em todos os lugares onde aconteçam – e elas acontecem, sistematicamente, no Irã. Quanto a Honduras, o Brasil não reconhece seu governo por considerá-lo ilegítimo, oriundo de um golpe. Não é o que acham os Estados Unidos, muitos felizes com a eleição de um presidente que tomou o lugar de outro, de estilo venezuelano.
Já o Chile, o outro país sul-americano visitado, é visto como uma espécie de modelo, sobretudo em política, com arraigada tradição democrática que voltou a se afirmar depois da ditadura de Augusto Pinochet, transitando de um longo período de governo de centro-esquerda para um presidente de centro-direita. O Chile também atraiu as atenções mundiais com o resgate de 33 mineiros soterrados numa mina de cobre, conduzido com eficiência e profissionalismo.
El Salvador, terceiro país visitado, tem se mostrado um firme aliado dos Estados Unidos na América Central. É uma grata surpresa para Washington, quando se leva em conta que seu presidente elegeu-se como candidato da Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional (FMLN), os ex-guerrilheiros esquerdistas combatidos no passado por uma ditadura pró-americana.
A escala em El Salvador teve, sobretudo, o objetivo de fazer um levantamento geral da situação na América Central. O presidente americano quer mostrar que, no país, se pratica um esquerdismo “responsável e moderado”, em oposição ao chavismo venezuelano. El Salvador e Chile fizeram há pouco a alternância de poder nos dois sentidos, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. El Salvador ajudou a tirar Honduras do isolamento imposto por iniciativa da Venezuela e do Brasil. Em seu depoimento no Congresso, Valenzuela disse que é preciso “consolidar na América Latina instituições democráticas vibrantes”. Seu testemunho foi intitulado “Os Estados Unidos tem uma política para a América Latina?”. É, sem dúvida, uma pergunta persistente.
Disposto a oferecer algumas respostas, Valenzuela visitou El Salvador nos dias 10 e 11 de fevereiro, preparando a viagem de Obama, o que dá a medida da importância atribuída ao pequeno país centro-americano.
Os Estados Unidos enfrentaram, no passado recente, situações complicadas na América Central, especialmente os conflitos entre governos e guerrilhas de esquerda na Nicarágua e em El Salvador. O sandinismo, contra o qual lutaram, venceu as últimas eleições na Nicarágua.
Alternância em cheque? O presidente sandinista Daniel Ortega, que manifestou solidariedade a Kadafi, pretende se reeleger em 2011.
Há pouco, quase coincidindo com o depoimento de Valenzuela, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, disse, em entrevista ao jornal El Tiempo, da Colômbia, que a democracia deve ter limites institucionais.
Insulza criticava as buscas de eleições continuadas, como na Venezuela. Falou em “concentração do poder”, o que considera anti- democrático. A Venezuela, mais uma vez, como alvo. “Não podemos ficar mudos, o que seria aceitar situações como essa”, arrematou Valenzuela. “Assim como saudamos líderes populares que optaram por deixar o poder, de acordo com a alternância democrática, lamentamos mudanças constitucionais que beneficiem quem está no poder”, concluiu a figura que está a cargo da América Latina no Departamento de Estado.
Boletim Mundo n° 3 Ano 19
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