terça-feira, 24 de janeiro de 2012

POLÍTICA ENERGÉTICA SUBSTITUIU PETRÓLEO POR REATORES NUCLEARES

Estratégia de ampliação do uso da fonte nuclear derivou dos “choques do petróleo” da década de 1970. Agora, todo o planejamento energético será repensado.

A catástrofe natural e humana que atingiu o Japão em março vai ainda ecoar por muito tempo. Desde já, ela levanta indagações sobre o futuro das estratégias energéticas, no mundo inteiro. As usinas nucleares, que pareciam voltar à moda, estão mais uma vez sob o fogo da crítica.
Logo após o acidente na usina de Chernobil, na Ucrânia, que fazia parte da antiga União Soviética, em 1986, os questionamentos sobre a validade do uso da fonte nuclear para a geração de energia se tornaram muito fortes. Contudo, a passagem do tempo e o desenvolvimento de novas tecnologias e sistemas operacionais reabilitaram a opção nuclear. Nos últimos anos, um número crescente de especialistas passou a defender a fonte nuclear com base na maior sofisticação dos sistemas de segurança, que as tornariam praticamente imunes a acidentes.
Os argumentos favoráveis ganharam força a cada novo relatório do IPCC sobre mudanças climáticas. A produção de eletricidade por fonte nuclear provoca emissões quase insignificantes de gases de efeito estufa, ao contrário do que ocorre com as centrais térmicas a carvão, petróleo ou gás. Do ponto de vista ambiental, a única desvantagem se relaciona ao armazenamento e destinação final dos resíduos radioativos gerados pelos reatores.
O acidente de Fukushima provavelmente não acarretará mudanças de curto prazo na produção de eletricidades em países altamente dependentes da energia nuclear.
Mas, com certeza, o preço de construção e manutenção de novas usinas sofrerá forte incremento, por conta da introdução de novos sistemas de segurança.
A matriz energética japonesa depende intensamente – em cerca de 15%, o que não é pouco – da fonte nuclear.
Fukushima trouxe à tona, com uma clareza brutal, a pergunta: como um país que sofreu o “holocausto atômico” em Hiroshima e Nagasaki apostou tanto na energia nuclear? A resposta envolve uma combinação de fatores geográficos, históricos, econômicos, sociais e geopolíticos.
Num lado da equação, há uma nítida carência de recursos naturais energéticos; no outro, as estratégias energéticas conduzidas pelos governos ao longo dos ciclos econômicos de longo prazo.
O Japão, um arquipélago formado por cerca de 3.500 ilhas, possui superfície de quase 373 mil km2, pouco maior que a área do Maranhão. Quatro ilhas principais – Honshu, Hokaido, Shikoku e Kiushu – perfazem 97% do território japonês. Situado no interior do Círculo de Fogo do Pacífico, em faixa de contato entre três grandes placas tectônicas, o país está sujeito cotidianamente a abalos sísmicos de variadas intensidades. A usina de Fukushima encontra-se na região nordeste da ilha de Honshu, local do epicentro do terremoto.
O país é muito montanhoso, tanto que as regiões acidentadas cobrem grande parte do território e as planícies, especialmente as litorâneas, não representam mais que 15% do total. Tais características morfológicas induziram a população se concentras nessas planícies, especialmente as voltadas para a vertente do Pacífico, onde as densidades são altíssimas. A população japonesa é de aproximadamente 127 milhões de habitantes, com cerca de três quartos deles concentrados na ilha de Honshu, onde se situa a capital, Tóquio. Na verdade, Tóquio é o núcleo da mais populosa região urbana do mundo, a megalópole Tokaido, que engloba, além da capital, as cidades de Yokohama, Osaka, Nagoya, Kobe e Kioto, abrigando cerca de 37 milhões de habitantes. Se o terremoto e o tsunami tivessem ocorrido 300 ou 400 quilômetros ao sul, a quantidade de vítimas seria muitas vezes maior.
Por um “capricho geológico”, o Japão é desprovido de grandes recursos minerais, especialmente de matérias-primas energéticas, o que o obriga a importar cerca de 80% dos recursos que necessita.
Isso não impediu que o país mantivesse, durante três décadas, a posição de segunda maior potência econômica mundial, condição perdida para a China em 2010.
A matriz energética japonesa atravessou transformações marcantes desde o final da Segunda Guerra Mundial. Em 1950, o carvão representava cerca de metade das fontes primárias, a fonte hídrica contribuía com algo em torno de um terço e o petróleo perfazia apenas pouco mais de 5%. Em 1965, no ponto intermediário do grande ciclo de crescimento econômico, o petróleo já contribuía com quase 60%, o carvão retrocedera para 27% e a fonte hídrica representava 11% do total.
Uma segunda mudança estrutural na matriz energética decorreu das novas  estratégias provocados pelos “choques do petróleo” de 1973 e 1979. A partir de então, o país pôs em prática um plano de reduzir a dependência em relação ao petróleo importado e, também, de diversificar os fornecedores do produto, a fim de reduzir a vulnerabilidade da economia frente à instabilidade geopolítica no Oriente Médio. Essas ações foram complementadas com a implementação  de políticas de aprimoramento da eficiência energética. Desde os anos 1970, o Japão passou a apostar fortemente na fonte nuclear.
As conseqüências apareceram rápido. Nas últimas décadas, a participação do petróleo na matriz energética reduziu-se praticamente pela metade, enquanto a fonte nuclear quintuplicou sua participação. Contudo, mesmo depois de todas essas mudanças, o Japão continua figurando entre os três maiores consumidores e importadores do “ouro negro”.
A eletricidade é um subconjunto da matriz energética total. Na matriz elétrica japonesa, a participação da fonte nuclear é de quase 25%, enquanto cerca de dois terços da geração de eletricidade se realiza em usinas térmicas convencionais, movidas a gás, carvão ou petróleo. Uma geração complementar depende de hidrelétricas e de outras fontes renováveis. Antes do acidente de Fukushima, o governo planejava ampliar a participação da energia nuclear na geração de eletricidade para 40%, até 2020, e 50%, em 2030. Diante do que aconteceu, com certeza, esta estratégia será revisada.
Boletim Mundo n° 3 Ano 19

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