terça-feira, 24 de janeiro de 2012

HESITAÇÃO E DISSENSO MARCAM A OPERAÇÃO MILITAR OCIDENTAL

Demétrio Magnoli

Operação aérea contra Kadafi não consegue ocultar as divergências entre as potências do CS da ONU. Os críticos da coalizão ocidental têm fartos argumentos, mas não exibem alternativa realista.
A Líbia não é “o Iraque de Obama”, como sugerem críticos situados em pontos antagônicos do espectro político. Ao contrário da invasão do Iraque, uma ação unilateral dos Estados Unidos, condenada pela maioria do Conselho de Segurança da ONU (CS), a operação aérea na Líbia foi deflagrada a partir da Resolução 1973 do CS, adotada em março, com dez votos favoráveis, nenhum contrário e cinco abstenções.
No Iraque, George W. Bush perseguia uma estratégia de reforma geopolítica do Oriente Médio, disfarçada como difusão da democracia. Na Líbia, um Barack Obama relutante segue a reboque da França e da Grã- Bretanha, seus aliados europeus que pressionaram até conseguir um consenso mínimo para a montagem de uma coalizão militar.
“O Ocidente quer o petróleo da Líbia”, sugeriram os pouco criativos Hugo Chávez e Fidel Castro, solitários amigos de um Muhammar Kadafi abandonado pelos árabes e africanos. As empresas petrolíferas ocidentais têm amplo e  desimpedido acesso às reservas petrolíferas líbias desde 2003, quando Kadafi concluiu um acordo abrangente com os Estados Unidos e se incorporou à “guerra ao terror” de Bush. Atrás da Resolução 1973 não está o petróleo, mas o espectro de tragédias do passado recente, como o genocídio de Ruanda, em 1994, e o massacre de Srebrenica, na antiga Iugoslávia, em 1995.
Semanas depois do início das ações aéreas da coalizão, quase se esqueceu a circunstância na qual o CS votou pela intervenção.
Os bombardeios da coalizão começaram na undécima hora, quando as forças de Kadafi atingiam as entradas de Benghazi, uma cidade de um milhão de habitantes. Em Ruanda, sob o olhar aterrorizado do mundo, uma ditadura terminal hutu promoveu o genocídio de 800 mil cidadãos tutsis. Em Srebrenica, forças paramilitares sérvias assassinaram 8 mil muçulmanos bósnios, em área declarada “refúgio seguro” pela ONU. Sob o impacto das tragédias, a ONU revisou seus conceitos sobre a soberania nacional e, em 2005, declarou solenemente que é obrigação dos Estados proteger a população civil. O iminente massacre de Benghazi desmoralizaria irremediavelmente a nova tomada de posição da ONU.
Apesar das aparências, a votação no CS evidenciou mais dissenso que consenso.
Rússia e China, membros permanentes, se abstiveram, junto com Alemanha, Índia e Brasil, membros provisórios mas integrantes do G4, o grupo de pretendentes a cadeiras definitivas no CS. As abstenções têm significados diferentes. Rússia e China poderiam vetar a resolução: suas abstenções representam, no fundo, uma autorização disfarçada para a operação aérea. Alemanha, Índia e Brasil não poderiam vetá-la: suas abstenções equivalem a uma condenação oportunista da intervenção, que lhes assegura um direito de crítica permanente sem o ônus de serem responsabilizados pelo eventual massacre em Benghazi. Não é uma credencial perfeita para países que almejam a admissão como membros permanentes do CS.
Nicolas Sarkozy, presidente da França, assumiu a dianteira na pressão pela intervenção – e o primeiro ataque, que pegou de surpresa os próprios americanos e britânicos, foi empreendido por caças franceses. David Cameron, primeiro-ministro conservador da Grã-Bretanha, insistiu até conseguir a anuência de Washington para apresentar a Resolução 1973 ao CS. Sarkozy está de olho no calendário eleitoral francês, buscando meios para reconstruir uma imagem doméstica destroçada por seus programas de austeridade econômica. Cameron, eleito há pouco, tenta construir uma imagem de liderança, da qual ainda carece. Os motivos dos dois europeus podem não ser muito bonitos, mas ao menos eles não se alinharam com mais um tirano árabe que não hesita em abrir fogo contra seu povo.
Barack Obama hesitou, premido entre a hipótese do massacre, que desmoralizaria sua posição internacional, e a herança iraquiana de Bush, que coloca sob suspeição a ação de forças militares americanas em mais um país do mundo árabe. No fim, cedeu, mas sob condições. Washington logo repassou o comando da operação à OTAN, enfatizando que a liderança caberia aos europeus, e resistiu às insistências de franceses e britânicos pelo fornecimento de armas aos rebeldes líbios.
Além disso, ao contrário da França, os Estados Unidos adiaram um reconhecimento do governo rebelde de Benghazi, exprimindo preocupação com a presença de jihadistas na periferia da insurreição popular líbia.
A Resolução 1973 é um primor de ambigüidade. O trecho crucial diz que as potências da coalizão estão autorizadas a “usar todos os meios” para proteger a população civil, exceto ações terrestres na Líbia. Sarkozy, Cameron e Obama afirmaram que Kadafi deve deixar o poder, mas reconheceram que esse não é um objetivo contemplado pela resolução. A coalizão realizou bombardeios táticos contra forças de Kadafi, coordenados com frustradas ofensivas terrestres dos rebeldes.
Os russos acusaram a coalizão de tomar partido numa “guerra civil” líbia. Chineses, brasileiros e indianos sugeriram que a operação aérea não está protegendo civis, mas perpetuando a violência. São críticas mais ou menos fundamentadas, porém fáceis: afinal, ninguém ofereceu uma alternativa melhor, com exceção de propostas irrealistas de um cessar-fogo geral.
Na Líbia, ao menos em tese, civis recebem proteção de uma coalizão militar ocidental. Mas, no Bahrein e no Iêmen, regimes ditatoriais pró-ocidentais matam manifestantes nas ruas. Dois pesos e duas medidas? A escala da violência é desigual: não há um massacre em massa ocorrendo nos dois pequenos países do Golfo Pérsico.
Mas, sobretudo, a real politik não foi suprimida: Washington tem um acordo militar com o Bahrein e com a Arábia Saudita, dona das chaves dos fluxos globais e petróleo e potência “protetora” do reino vizinho. No terreno puramente moral, há uma “hipocrisia”, sem dúvida.
Contudo, quase nada é mais hipócrita do que a palavra “hipocrisia” quando manipulada pelos amigos de Kadafi.

Boletim Mundo n° 3 Ano 19

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