terça-feira, 24 de janeiro de 2012

REPÚBLICA ISLÂMICA PERSEGUE MINORIA BAHAI

Luiza Villaméa

Religião bahai nasceu na Pérsia, em meados do século XIX. Com a Revolução Islâmica no Irã, seus seguidores perderam direitos básicos de cidadania.
Trinta anos depois da Revolução Islâmica, o desejo de mudança provoca cenas inusitadas em Teerã e nas principais cidades iranianas. A chamada “geração K”, que nasceu sob o regime do aiotolá Ruhollah Khomeini, o fundador da República Islâmica do Irã, foi a primeira a mostrar sua insatisfação nas ruas. Em suas fileiras, destacavam-se  jovens mulheres usando lenços que deixavam mechas de cabelo à mostra, uma afronta ao rígido código de conduta do regime. Pouco depois, elas ganharam a companhia de mulheres de gerações anteriores, cobertas pelo chador negro, e até de clérigos de turbante.
As manifestações contra a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad acabaram sufocadas, mas nos últimos meses protestos em menor escala voltaram a acontecer, como reflexo das revoltas no mundo árabe. Em nenhum deles apareceram manifestantes identificados como bahais, os integrantes de uma minoria religiosa condenada à não existência a partir da ascensão dos aiatolás.
De tão perseguidos, os bahais não ousam protestar em público. Desde 1979, quando perderam direitos essenciais como freqüentar universidades ou ter emprego público, só restou a eles a resistência silenciosa.
O Irã abriga 300 mil bahais numa população de 66,4 milhões de pessoas. Fora do país dos aiatolás, a situação é diferente. Com escritório na ONU, em Nova York e em Genebra, os bahais tentam mobilizar a política internacional a favor dos que continuam em território iraniano. Na cruzada contra a intolerância religiosa, contam com o apoio da advogada iraniana Shirin Ebadi, prêmio Nobel da Paz de 2003. O mais recente movimento do grupo é pela libertação de sete lideranças bahais condenadas a pena de 20 anos de prisão, acusadas de espionar, colaborar com Israel, espalhar “corrupção na Terra” e atuar contra a ordem islâmica.
“O crime que eles cometeram é ser bahais e não querer mudar de religião”, reitera a prêmio Nobel nos  mais diversos fóruns internacionais. Exilada em Londres desde 2009, Shirin sentiu dentro de casa o drama da perseguição religiosa.
No auge da campanha do governo Ahmadinejad contra sua atuação pelos direitos humanos, a Irna, a agência oficial de notícias do regime, chegou a divulgar a falsa informação de que uma filha de Shirin havia se convertido à fé bahai.
Religião monoteísta criada em 1844 na antiga Pérsia por Bahá’ú’lláh, considerado pelos seguidores como o último profeta enviado por Deus, o bahaísmo encontrou oposição desde os primórdios. O fundador e os primeiros adeptos da fé acabaram exilados na cidade de Acre, na Palestina, 80 anos antes da criação do Estado de Israel.
Próxima de lá, em Haifa, fica a sede mundial da fé bahai. No Brasil, há uma comunidade de quase 60 mil bahais.
Arqui-inimigo de Israel, o regime dos aiatolás jamais faz referência à localização geográfica da sede bahai, mas sempre acusa os seguidores da fé de espionagem e colaboração pró- Israel. Se renegassem à crença, os bahais poderiam ter a cidadania reintegrada. Como eles recusam a conversão, são perseguidos sem trégua nos Estados islâmicos. Entre os bahais de todo o mundo, estimados em sete milhões, não há dúvida de que a situação mais crítica é a do Irã, onde pelo menos 200 seguidores da religião foram mortos desde 1979. Até hoje ocorrem com freqüência ataques incendiários a propriedades de bahais.
A perseguição religiosa não é, no entanto, exclusividade do país de Ahmadinejad. No Egito, cerca de dois mil seguidores da fé bahai viviam até recentemente à margem da sociedade por não se enquadrarem nas três religiões admitidas pelo Estado: islamismo, cristianismo e judaísmo.
Como não podiam tirar carteira de identidade, não tinham acesso a serviços públicos de saúde e educação.
Eram também impedidos de realizar transações em instituições financeiras. Para reverter a situação, precisavam se registrar como adeptos de uma das três religiões aceitas pelo Estado. Há dois anos, uma determinação da Suprema Corte do país abriu novas perspectivas para os bahais, ao permitir que as pessoas tirassem documentos oficiais deixando em branco o espaço reservado à religião.
Em países de maioria islâmica, mas Estado laico, como a Turquia, o cenário é outro. Embora as instituições bahais não sejam reconhecidas pelo Estado e a fé não possa ser declarada nos documentos oficiais, não há perseguição.
Tanto que uma das mais conhecidas lideranças da comunidade bahai turca, o físico Cuneyt Can, tornou-se há três anos decano da Faculdade de Artes e Ciências da Universidade do Oriente Médio, em Ancara, a capital turca. No momento em que ventos da mudança sacodem o mundo muçulmano, essa é uma trajetória a ser seguida. Por enquanto, impera a intolerância religiosa.
No mesmo Egito que derrubou o ditador Hosni Mubarak, incêndios similares aos do Irã estão sendo registrados.
O último deles, em março, destruiu as casas de 40 famílias bahais na aldeia de Shouraneya, no vale do rio Nilo.

A precursora no Brasil
A primeira bahai radicada no Brasil foi a americana Leonora Armstrong, que chegou em 1921, aos 25 anos, a bordo do vapor SS Vasari. O objetivo de Leonora era justamente divulgar a fé bahai, desconhecida no país. De lá para cá, em termos de grande público, a situação não mudou muito. Mas, hoje, o país soma cerca de 57 mil bahais, boa parte deles vindos depois da ascensão dos aiatolás ao poder no Irã. Entre os projetos de maior visibilidade da comunidade no país está a Escola das Nações, uma instituição educacional bilíngüe (português e inglês). Quanto a Leonora, quatro anos após desembarcar no Brasil traduziu a primeira obra bahai para o português e não parou de atuar até 1980, quando morreu em Salvador, na Bahia.

Boletim Mundo n° 3 Ano 19

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