terça-feira, 24 de janeiro de 2012

NACIONALISMO ÉTNICO É FONTE DA CRISE NA COSTA DO MARFIM

A recusa do presidente da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo, no poder desde 2000, em aceitar o resultado das eleições, realizadas em dezembro de 2010 e vencidas pelo opositor Alassane Ouattara, foi o estopim da crise que eclodiu em abril.
Na verdade, a crise já dura pelo menos duas décadas, nesta antiga colônia francesa do ocidente africano que alcançou a independência em 1960.
O território marfinense possui a forma de um quadrilátero, no interior do qual podem ser individualizadas duas grandes regiões. O centro-sul, tipicamente de clima tropical úmido, era originalmente recoberto por florestas, hoje em grande parte destruídas pela ocupação. As plantações de cacau e café, principais produtos de exportação, situam-se nessa área. Na parte setentrional, o clima tropical torna-se cada vez mais seco em direção norte. A clivagem natural induziu uma ocupação humana e formas de valorização econômica bastante diferenciadas entre as duas porções do território .
Com quase 22 milhões de habitantes, o país exibe 60 grupos étnicos, agrupados em áreas-núcleo mais ou menos bem definidas.
A diversidade humana é intensificada pela presença marcante de descendentes de imigrantes oriundos de países vizinhos, que correspondem a cerca de um terço da população. Há, ainda, uma clivagem religiosa: no norte, predominam os seguidores do Islã; os cristãos estão concentrados mais ao sul e, por todo o país, vivem seguidores de crenças ancestrais.
Nas suas primeiras três décadas de existência, a Costa do Marfim foi governada, com mão de ferro, por Félix Houphouët- Boigny, o líder do movimento pela independência e, em seguida, um firme aliado da França. Nesse período, uma fase áurea na qual o país alcançou a posição de maior exportador de cacau do mundo, a ausência de democracia era compensada pela estabilidade política e pelo desenvolvimento econômico.
No conturbado contexto político regional e continental, a Costa do Marfim figurava como uma espécie de oásis.
A marcha rumo à crise começou nos últimos anos do governo Boigny e acelerou-se a partir de 1993, quando os novos governantes inauguraram políticas de nacionalismo étnico. Sob a etiqueta da “marfinidade”, criaram-se leis separando os “nacionais legítimos” dos cidadãos “estrangeiros”.
Segundo tais leis discriminatórias, só poderiam se candidatar em eleições os cidadãos cujos pais tivessem nascido no país. Por essa via, quase um terço da população ficou excluído da vida política – inclusive o opositor Ouattara, cujo pai nasceu em Burkina Fasso, situado ao norte da Costa do Marfim.
A política da “marfinidade” destruiu o que restava de estabilidade. A partir de 1999, o país sofreu golpes militares, que degeneram numa guerra civil. O conflito foi precipitado pelo veto à candidatura presidencial do nortista Ouattara, em 2000. Dois anos mais tarde, por meio de uma rebelião, grupos étnicos do norte assumiram o controle daquela região. O avanço dos revoltosos rumo ao sul foi contido por forças da França e da Comunidade de Estados da África Ocidental, mas o país continuou dividido entre o norte rebelde e o sul governista.
Só em 2007 assinou-se um acordo de paz entre o governo as Forças Novas, a organização política e militar dos rebeldes.
Com base nele, organizaram-se as eleições de 2010. O triunfo de Outtara deflagrou a nova crise, concluída pelo assalto ao palácio presidencial e a prisão de Gbagbo. A queda de Gbagbo foi cercada de  massacres, promovidos pelas tropas dos dois lados. Ouattara só conseguiu assumir a presidência devido ao respaldo de tropas da França, que continua a operar como um poder semi- colonial em diversas de suas antigas colônias africanas.
Terminou a longa crise marfinense?
Provavelmente, não. As políticas étnicas deixaram cicatrizes profundas e semearam a terra para conflitos futuros.
Boletim Mundo n° 3 Ano 19

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