terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O “TERCEIRO IMPACTO”: DE GOJIRA A EVANGELION

Gilson Schwartz

Japoneses aprenderam a reciclar o medo pela cultura popular. Seus “monstros radioativos” surgiram com Hiroshima e Nagasaki, dinamizando uma psicoterapia nacional incessante.
Ao longo da Guerra Fria, o fantasma de uma terceira guerra mundial rondou a imaginação global. Seria, sem dúvida, um confronto nuclear. Muito se escreveu sobre o pouco que talvez restasse do planeta, caso o embate entre os arsenais de bombas atômicas da União Soviética e dos Estados Unidos finalmente irrompesse. Na prática, o temido confronto nunca ocorreu. Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, houve alguma agitação em torno do vazamento da tecnologia nuclear e ainda circulam cenários de guerras nucleares localizadas e atentados terroristas usando artefatos atômicos.
Em vez de um confronto em escala global, a realidade das duas últimas décadas é a dos conflitos regionais, dos ataques com armas convencionais (ou nem tanto, como os aviões atirados contra as Torres Gêmeas em Nova York, em 2001). Numa aparente regressão civilizatória, no lugar de uma terceira confrontação em escala planetária, emergem a cada dia novas formas de “guerra santa”, vários surtos de “limpeza étnica” nos Bálcãs e na África, a institucionalização de bandos e guerrilhas de narcotraficantes na América Latina. É como se a imagem de uma batalha apocalíptica finalmente cedesse à realidade dos conflitos pulverizados – que se tornam globais apenas quando se convertem em eventos midiáticos, narrados em imagens, reportagens e filmes que justificam um aperto a mais nas engrenagens da violência em rede, do terror de Estado e do consumo em massa de visões conspiratórias da aventura humana.
O terremoto seguido de tsunami que provocou o maior desastre em usina nuclear da história, no Japão, recolocou em evidência os riscos dessa forma de produzir energia elétrica, de um lado, mas também as peculiaridades da cultura japonesa. A imprensa rapidamente notou como os japoneses se mobilizaram de forma ordeira, pacífica e solidária após a catástrofe. Anos de treinamentos para situações de emergência mostraram uma eficácia ao menos parcial. A dimensão cultural da resposta à catástrofe ganhou realce e relevância, apesar da ocultação de informações pela empresa responsável pela usina de Fukushima e pelo próprio governo japonês.
Um ícone lembrado foi Godzilla (em japonês, “Gojira”). O gênero “filme de monstros” freqüenta não apenas a cultura popular japonesa, mas tornou-se um produto de exportação, uma resposta pop à própria ocupação militar do Japão após a Segunda Guerra Mundial.
Claro que “filmes de monstros” não são exclusividade japonesa. A indústria cinematográfica americana produziu clássicos como King Kong e uma infinidade de “guerras de mundos”, em geral no espaço sideral, pródigas em confrontos entre a tecnologia ocidental e as mais variadas monstruosidades, fauna que o já clássico Star Wars celebrizou, criando uma das mais variadas e divertidas coleções de ETs, uma criatividade que se prolonga e sofistica no recentíssimo Avatar.
Há, contudo, uma diferença essencial entre as “guerras contra monstros” da cultura pop americana e a longa série de “monstros radioativos” produzidos pela indústria cultural japonesa após a catástrofe de Hiroshima e Nagasaki: enquanto os alienígenas de Hollywood são irreversivelmente não humanos, inimigos irredutíveis, cujo enfrentamento se resolve apenas pela liquidação total do Outro, a “monstrologia” japonesa é menos maniqueísta. As fronteiras entre o humano e o não humano são menos absolutas, as mutações entre as duas espécies são freqüentes e mesmo os monstros evoluem (como exoesqueletos pré-históricos, em Godzilla, ou robóticos, nos Transformers, sem esquecer da vasta coleção de simpáticos e sempre capazes de evolução Pokémons). Na série Neon Genesis Evangelion, tudo começa com o Terceiro Impacto – a explosão de usinas nucleares seria o começo do fim, depois do grande terremoto em Tóquio (1923) e do segundo impacto (as bombas americanas de 1945).
Godzilla permanece como o ícone maior dessa história, que passa pelo cinema e pelas várias categorias de pulp fiction (histórias em quadrinhos, desenhos animados ou animes e games, cada vez mais games). O monstro desperta das profundezas do oceano em 1954, após uma série de testes nucleares no Pacífico. Rapidamente, o gênero foi assimilado pela indústria japonesa. Em 1960, a fábrica de eletrodomésticos National Electronics (atualmente, Panasonic) lançou National Kid, herói que freqüentemente se lança em combates contra seres abissais.
Ultraman, Astro Boy (que, em japonês, é o Tetsuwan Atomu, ou “Átomo Poderoso”), Gen...
Desde a irrupção de Godzilla, a indústria cultural japonesa produziu incessantemente conteúdo ligado ao trauma das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. No centro de todas essas criações, está a convergência sempre perversa entre tecnologia (não apenas a nuclear), monstruosidade e angústias juvenis. Da turminha do National Kid aos adolescentes que pilotam “mecas” (exoesqueletos robóticos) em Neon Genesis Evangelion, o tema retorna ciclicamente.
A exploração do potencial comercial das relações entre cultura popular, indústria de consumo e identidade nacional convive, nessa já longa tradição, com uma espécie de psicoterapia coletiva incessante que em boa medida reforça na sociedade japonesa o sentimento de vitimização. Mas, ao contrário dos monstros americanos, as tecno- monstruosidades japonesas guardam nos seus enredos alguma autocrítica poética, algum espaço para a tomada de consciência da responsabilidade humana, política e empresarial pelas catástrofes que apenas aparentemente são de cunho natural, abissal ou telúrico.
O exemplo mais elaborado e poético dessa tradição mergulhada em contradição é a obra prima de Akira Kurosawa, Sonhos, em especial o episódio “Monte Fuji em Vermelho”.
Profeticamente, o maior cineasta japonês (acusado por muitos de ter ocidentalizado demais seus filmes) coloca uma família e um cientista diante de um Monte Fuji em chamas.
Terremoto? Tsunami? Confira a resposta, exibida nos cinemas em 1990 e disponível no YouTube.

Boletim Mundo n° 3 Ano 19

Nenhum comentário:

Postar um comentário