terça-feira, 24 de janeiro de 2012

RUMO À TERCEIRA INVENÇÃO DO JAPÃO?

Na manhã de 7 de dezembro de 1941, sem qualquer aviso prévio e em meio a negociações diplomáticas bilaterais, 353 caças japoneses decolaram de seis porta- aviões em duas ondas consecutivas e bombardearam a frota americana baseada em Pearl Harbor. A “data que viverá na infâmia”, como a qualificou o presidente Franklin Roosevelt, definiu o futuro do Japão.
Seis meses antes, tentando evitar a guerra contra os Estados Unidos, altos oficiais da Marinha Imperial estabeleceram contato com os filósofos da chamada Escola de Kioto. O projeto de criar um pólo político contrário à guerra deu origem a um ciclo de debates promovido pelo mensário Chuokoron. Entre os debatedores estava Keiji Nishitani, professor da cátedra de Religião em Kioto. Nos debates, ele fez o elogio do Japão medieval e lamentou, em tons nostálgicos, uma modernização que significava ocidentalização.
Contudo, seu tema verdadeiro não era o Ocidente, mas a China: “O problema mais básico é a ‘consciência de China’ dos chineses, a consciência de sempre terem sido o centro da Ásia e do Japão ter sido educado por uma graça da cultura chinesa.
Nesta situação, o principal é, de algum modo, fazê-los ver e reconhecer que o Japão é hoje o líder na construção da Ásia Oriental Maior – e deve ser o líder em virtude de uma necessidade histórica.”
O Japão moderno foi inventado duas vezes, ambas a partir de traumas oriundos de conflitos com os Estados Unidos. Entretanto, a sombra da China pairou sobre os dois inventos. Hoje, depois da tragédia provocada pelos efeitos combinados do terremoto e do tsunami, os japoneses se perguntam se não é tempo de reinventar, mais uma vez, a nação e o Estado. A terceira invenção, se ocorrer, representará em diversos sentidos uma reação à ascensão chinesa.
A primeira invenção produziu o Japão Meiji, imperial e expansionista. Em 1854, no quadro da expansão americana no Pacífico, o comodoro Matthew Perry forçou a abertura do comércio japonês bombardeando portos do país. Os “navios negros” de Perry desataram a crise e o colapso do sistema político do xogunato, assentado sobre o poder regional dos senhores da guerra, os chefes regionais que mantinham os camponeses sob servidão. A devolução do poder ao imperador Mutsuhito, completada em 1867 e 1868, tornou-se conhecida como Restauração Meiji. Instalado em Edo (Tóquio), a antiga “capital do leste”, o imperador suprimiu o poder do xogum e realizou a centralização política do país.
O novo sistema político baseou-se numa fusão original entre o absolutismo moderno e a antiga religião xintoísta. O Estado Xinto, como foi chamado, identificou a nação ao imperador e coloriu o nacionalismo japonês com os ingredientes da glorificação da guerra e da honra. A restauração do poder imperial conferiu vigoroso impulso modernizador e industrializante ao país. Em poucas décadas, o Japão alcançou a condição de maior potência do Oriente.
O Japão Meiji desenvolveu seu próprio expansionismo imperial, nas ilhas oceânicas e no continente asiático. O “Destino Manifesto” japonês, como ficou conhecido, foi concebido por intelectuais nacionalistas que se ressentiam da antiga, tradicional posição periférica de seu país em relação à China, o “Império do Centro”. Era disso que Nishitani continuava a falar, obsessivamente, às vésperas de Pearl Harbor.
Na hora da derrota, em agosto de 1945, não faltou simbolismo. Após os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki, os representantes do imperador tiveram que assinar a rendição incondicional a bordo de um porta-aviões americano. Começava, pelas mãos dos Estados Unidos, a segunda invenção da nação japonesa. Reformado e ocidentalizado, o país foi envolvido na arquitetura mundial da Guerra Fria, tornando-se um dique contra a expansão da influência soviética no leste asiático.
No imediato pós-guerra, sob a administração militar do general Douglas  MacArthur, foram desenhadas as reformas destinadas a ocidentalizar o Japão. O imperador negou a sua divindade, em emissão radiofônica, destruindo os fundamentos do Estado Xinto. A nova Constituição limitou os gastos bélicos às necessidades estritas de defesa e manteve as bases militares dos Estados Unidos no país.
A Constituição conservou a monarquia, mas transferiu o poder político para o parlamento. Contudo, o parlamentarismo imposto de fora tinha como vício de origem a ausência das tradições ocidentais do jogo político e partidário. O vazio foi preenchido pelo Partido Liberal Democrático (PLD), que emergiu como instituição destinada a forjar consensos no interior da elite empresarial e desdobrá-los na esfera política e administrativa.
Os sistemas político e econômico do Japão do pós-guerra propiciaram forte crescimento da produção e da riqueza social, durante quatro décadas. Durante trinta anos, entre 1950 e 1980, a expansão japonesa contrastou com o desastre social do maoísmo numa China assolada pela pobreza e por pavorosas crises de fome.
Contudo, o “modelo japonês” esgotou-se nos anos 1990, deixando um rastro de persistente recessão e uma crise política larvar, que decorre do abismo entre a elite dirigente e a massa da nação. Os líderes japoneses mentem mais que o normal para seus eleitores. Eles protegem empresas arrogantes, ineficientes e fraudulentas, como a Tepco, responsável pelos reatores de Fukushima. As eleições não provocam mudanças verdadeiras, mas apenas novas versões do mesmo, envelhecido modelo. Os japoneses não acreditam no que lhes dizem seus governantes sobre a extensão e gravidade do acidente nuclear.
O Japão ficou doente exatamente quando se acelerou o ritmo da expansão chinesa.
No cenário asiático do século XXI, o Japão se desloca, uma vez mais, para uma posição periférica em relação à China – apesar de sua riqueza per capita muito maior e tecnologia mais sofisticada. Uma terceira invenção do Japão, mais uma vez oriunda de um grande trauma nacional, mas agora sem participação americana, teria que oferecer uma resposta criativa ao desafio chinês.

Tepco, uma história de falsificações
Um inventário das falsificações praticadas pelos responsáveis da Tepco em relatórios sobre as condições de funcionamento da usina de Fukushima e de outras usinas da empresa, produzido por organizações de defesa do meio ambiente, dá uma dimensão da catástrofe política:
● Anos 1980 e 1990: em vários momentos a Tepco falsificou dados, inclusive o número de
fendas nos tanques de pressão dos reatores da usina.
● 1991 e 1992: funcionários bombearam ar para dentro do tanque de segurança do reator 1 da usina, para minimizar a leitura de testes de vazamentos.
● 2000: detectadas rachaduras nos canos de água na usina.
● 2002: um engenheiro da General Electric, que fabricou três dos seis reatores da usina, soou o alarme. Não haviam sido feitas inspeções em 13 reatores nas usinas da Tepco. Ele denunciou 29 episódios de dados falsificados, provocando a renúncia de altos executivos da Tepco.
● 2006: vapor radioativo vazou de um cano da usina. A empresa também foi acusada de falsificar dados sobre a temperatura da água de resfriamento em 1985 e 1988. Os dados tinham sido usados em inspeções obrigatórias da usina em 2005. Em 2007, surgiram outros dados falsificados de um reator da Tepco.
● 2007: ao menos oito pessoas morreram quando a usina de Kashiwazaki-Kariwa foi danificada por um terremoto. Canos estouraram, houve incêndios e água radioativa vazou de uma piscina de armazenagem de varetas de combustível usadas. A usina continuou fechada por um ano para que a segurança em caso de terremoto, considerada suficiente pela empresa, fosse melhorada.
Mais tarde, determinou-se que a Tepco tinha pulado 117 inspeções no local.
● 2009: outro incêndio ocorreu na planta de Kashiwazaki-Kariwa, ferindo um funcionário.
● 2 de março de 2011: a agência reguladora de energia nuclear do Japão acusou a Tepco de negligência: a empresa teria deixado de inspecionar 33 equipamentos na planta de Fukushima, incluindo os elementos no sistema de resfriamento central nos seis reatores e as piscinas de varetas usadas. A empresa admitiu ter cometido erros, e que também tinha deixado de fazer 19 inspeções na planta de outra usina localizada em Fukushima. Especialistas já vinham advertindo, há mais de três décadas, que o reator do tipo Mark1, produzido pela General Electric, não foi construído para sobreviver a uma combinação de terremoto e tsunami.

Boletim Mundo n° 3 Ano 19

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