(“A CRISIS OF LEADERSHIP, TOO”, THE ECONOMIST, EDITORIAL, 26 DE MARÇO DE 2011, P. 14)
O Japão enfrenta a sua mais grave crise desde o fim da Segunda Guerra Mundial, declarou o primeiro-ministro Naoto Kan, em 11 de abril, um mês após a ocorrência do tsunami e terremoto de 9 graus na escala Richter, que provocaram vazamento de plutônio da usina nuclear de Fukushima. Kan afirmou que o país está em “alerta total” (nível 7, o de maior gravidade na escala internacional). A radiação acumulada durante 25 dias na província de Fukushima excedeu os níveis tolerados para o período de um ano. No dia seguinte, porta-vozes da Tokyo Electric Power Company (Tepco), operadora da usina, informaram que os vazamentos de materiais radioativos igualam e “podem superar” os ocorridos em 1986, em Chernobil, na Ucrânia. A Tepco é uma empresa conhecida por falsificar dados sobre o estado de segurança das usinas que administra. A confissão revela que outro tsunami atingiu o Japão: estão em jogo as fundações do Estado nipônico.
Kan expressou de forma patética a gravidade da crise política, durante uma visita à sede da Tepco, cinco dias após o desastre natural: “O que está acontecendo aqui?”, perguntou, em altos brados, aos executivos da empresa, por ele acusados de colocar os seus próprios interesses acima do bem-estar do povo japonês. “Não é uma questão de se a Tepco vai cair, é uma questão de se o Japão vai errar”. Depois, assumiu pessoalmente a direção da equipe de crise, e considera a hipótese de nacionalizar a Tepco, segundo informa o Yomiuri, jornal de maior circulação do país. É provável que muito da postura de Kan seja jogo de cena: afinal, ele é membro do Partido Democrata (PDJ) – que, em setembro de 2009, venceu por maioria esmagadora as eleições parlamentares e desbancou o poderoso Partido Liberal Democrático (PLD), no poder desde 1955. Ao tomar distância dos métodos administrativos da Tepco, Kan certamente afia as garras para atacar o PLD. E, do ponto de vista histórico, terá os fatos ao seu lado.O PLD nasceu em 1955, junto com o atual Estado japonês, recriado sob ocupação militar dos Estados Unidos, à sombra dos cogumelos de Hiroshima e Nagasaki . No quadro da Guerra Fria, a economia e o sistema político japoneses foram construídos como uma espécie de posto avançado dos interesses globais da “esfera capitalista” em geral e dos Estados Unidos em particular naquela região do Pacífico. A burocracia estatal coordenou e planejou o crescimento industrial, oferecendo subsídios e proteção aos conglomerados e selecionando as empresas destinadas a concorrer no mercado mundial. Valores tradicionais da cultura nipônica – como disciplina e fidelidade às empresas – estruturaram as relações entre capital e trabalho, alicerçadas sobre a garantia de emprego vitalício.
O Estado encarregou-se de investir em educação, formando profissionais de elevada qualificação.
Espinha dorsal do novo Estado, o PLD atingiu o auge de seu poder nos anos 1970, sob a liderança do então primeiro-ministro Kakuei Tanaka. O partido, hegemônico, funcionava como um comitê de representantes dos interesses das grandes empresas e bancos, que financiavam diretamente as suas campanhas eleitorais. Sob esse sistema, desenvolveram-se relações de assustadora promiscuidade entre políticos, financistas e industriais, receita certa de corrupção. O próprio Tanaka renunciou em meio a um grande escândalo, em 1974.
Embora chacoalhado por sucessivas denúncias, o modelo “funcionava”. A exportação de bens de consumo de alto valor agregado (automóveis, aparatos tecnológicos, robótica, microeletrônica), estimulada pela sub- valorização do iene (o que tornava os produtos japoneses baratos no mercado externo) permitiu a entrada de rios de dólares no país. O dinheiro fluía, favorecendo ainda mais a prática da corrupção e a especulação imobiliária.
A festa acabou nos anos 1990, com a recessão prolongada, o desemprego (marcando o fim do sonho do “emprego vitalício”) e o estouro da bolha especulativa no setor imobiliário. Em 1990, o índice Nikkei, que mede o valor das ações, desabou de quase 40 mil pontos, em janeiro, para menos de 20 mil, em dezembro. A súbita queda do valor das ações e dos imóveis produziu uma hecatombe na economia real, da qual o Japão nunca se recuperou de fato, ainda mais tendo que competir com o crescimento avassalador da vizinha China.
Foi esse o quadro que, finalmente, em 2009, conduziu o PDJ ao poder, então sob a liderança de Yukio Hatoyama, um político de retórica reformista, mas com trajetória ligada ao PLD. Seu avô participou da fundação do velho partido, do qual ele mesmo foi membro, até 1993, quando passou para a oposição. Hatoyama prometia uma espécie de “New Deal japonês”: reforçar a rede de proteção social, numa situação em que o país enfrentava níveis recordes de desemprego (5,7%); reforma das aposentarias para beneficiar os mais pobres; escolas públicas gratuitas; mais subsídios para os agricultores; o fim dos “gastos excessivos” nas obras públicas (o mecanismo utilizado pelo PLD para compensar os “amigos”). Prometia, ainda, dar continuidade à aliança com os Estados Unidos, mas questionou a presença militar americana no Japão – o que, provavelmente, foi decisivo para a sua queda, em junho de 2010, quando foi substituído por Kan.
O desastre de Fuskushima demonstra que o “New Deal” prometido por Hatoyama não decolou. Ao contrário, prevalecem os mecanismos de cumplicidade entre autoridades públicas e empresários, os quais permitiram que uma empresa irresponsável como a Tepco permanecesse em funcionamento até hoje. Se Kan tem mesmo a intenção de “reformar o Japão”, iniciando pela nacionalização da Tepco, terá que comprar uma guerra sem tréguas com o PLD e seus associados. Ele não dispõe de muitas escolhas: se não o fizer, seu partido será engolido pelo mesmo tsunami que abriu as comportas do inferno nipônico.
Boletim Mundo n° 3 Ano 19
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