quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

FIM DA ILUSÃO LIBERAL

Gilson Schwartz

(...) AS GRANDES TRANSFORMAÇÕES EM DEBATE NO MUNDO TAL COMO O CONHECEMOS CORRESPONDEM, DE FATO, A AMPLAS TENDÊNCIAS QUE JÁ SE DESENVOLVEM – A TRANSFERÊNCIA DO PODER PARA O ORIENTE, O APARENTE DECLÍNIO PARALELO NO STATUS DAS MOEDAS E DAS DÍVIDAS PÚBLICAS DOS PAÍSES DESENVOLVIDOS E A NECESSIDADE DE REDUZIR A INSUSTENTÁVEL DEPENDÊNCIA DO MUNDO DESENVOLVIDO DE DÍVIDAS E CRÉDITO. ATÉ MESMO A VIABILIDADE DO EURO SEMPRE ESTEVE EM QUESTÃO, POIS SUA CRIAÇÃO FOI INTERPRETADA POR MUITOS COMO MOTIVADA POR RAZÕES POLÍTICAS, NÃO ECONÔMICAS.
(...) A MUDANÇA SINGULAR QUE PARECE INDUBITÁVEL (...), E QUE AFETARÁ DIRETAMENTE A MAIORIA DE NÓS NO MUNDO DESENVOLVIDO (...) É QUE AS TAXAS DE JUROS DEVEM PERMANECER EXTREMAMENTE BAIXAS NO FUTURO PREVISÍVEL.
(CHRIS WILLIAMSON, “IS THE WORLD FACING FUNDAMENTAL CHANGES?”, BBC NEWS, 18/8/2011)

Desde a crise financeira de 2008, centrada no desmoronamento do sistema de crédito habitacional dos Estados Unidos, os momentos de alívio tornaram-se, muito rapidamente, miragens de recuperação.
Em 2011 ficou evidente que a injeção de centenas de bilhões de dólares em bancos, empresas e governos foi insuficiente para promover a recuperação da economia americana. No lugar da retomada, a crise perdurou, assumindo as feições de um processo global de exaustão.
Surge, então, a pergunta: qual será a essência, o fundo do poço, a realidade última a partir da qual se pode compreender essa perda de dinamismo? Há um limite no espaço, no tempo ou no tipo de atividade econômica predominante em escala global a partir do qual será possível a reversão desse quadro? Afinal, qual fonte de dinamismo de fato entrou em colapso?
Qual é, em última análise, a natureza dessa exaustão, desse esgotamento econômico, financeiro e político?
Nos mercados, pode-se resumir o dinamismo, a energia econômica, a três vetores essenciais: consumir, produzir e poupar. O funcionamento virtuoso dos mercados depende não apenas da intensidade e sustentabilidade de cada um dessas três dimensões como também das relações que ao longo do tempo se estabelecem entre consumo, produção e poupança.
Na crise global que se prolonga desde a quebra do banco Lehman Brothers, em 2008, percebe-se que os três fatores perderam dinamismo ou passaram por alterações em sua composição global. A fragilização de cada um desses três vetores do desenvolvimento econômico combinou-se de modo perverso a um esgotamento de natureza mais institucional: a própria globalização tirou consistência do Estado, relativizou a importância das fronteiras nacionais e provocou uma revolução na própria natureza do trabalho.
Ou seja, as mudanças no mundo da produção, do consumo e da poupança combinam-se à exaustão dos modelos de Estado, nação e trabalho.
A expectativa dos consumidores americanos encontra-se no seu mais baixo nível em três décadas, na economia que se tornou a Meca por excelência do consumismo. Se, de um lado, há efeitos mais imediatos da crise financeira cujo estopim foi o colapso do sistema de financiamento habitacional nos Estados Unidos, o fato é que – do ponto de vista do consumidor – o que mais interessa na decisão de consumir ou poupar é a perspectiva de emprego.
Contudo, crucialmente, a produção material deslocou-se das economias mais desenvolvidas (Estados Unidos, União Européia e Japão) para territórios exteriores e enclaves, com destaque para o impacto sobre o capitalismo global da emergência de um capitalismo local baseado na super exploração do trabalho na China – um modelo implementado, em maior ou menor grau, em outras economias emergentes na Ásia, na América Latina, na África ou nas periferias européias.
O resultado é uma contradição. O consumidor americano foi levado a consumir cada vez mais por um potente sistema de crédito – mas esse consumismo sustentou-se por uma oferta de mercadorias produzidas cada vez mais fora dos Estados Unidos.
Dito de outro modo: a produção dos bens consumidos nos Estados Unidos não gera empregos dentro da economia americana.
Como confiar permanentemente na hipótese de um crescimento movido a crédito quando emprego e renda deixam de ter origem no país de residência dos  consumidores?
A manutenção dessa contradição é resultado do superávit comercial chinês. Ao acumular dólares, como fruto das exportações para o colossal mercado consumidor dos Estados Unidos, o governo da China gera uma poupança que é convertida em aquisição de títulos do Tesouro americano. Outros países que se valem do mercado consumidor americano e acumulam reservas internacionais investem tais saldos comerciais em ativos dolarizados, principalmente a dívida pública dos Estados Unidos. Na prática, como fruto disso, surgiu um sistema em que as bases materiais da riqueza na maior economia do mundo tornam-se dependentes do emprego precário em países periféricos, cujas economias se convertem em sócias do Tesouro americano.O colapso das estruturas especulativas montadas ao longo de quase duas décadas de liberalização financeira nos Estados Unidos exigiu, nos últimos anos, sucessivas rodadas de injeção de dinheiro público nos bancos e grandes empresas do país. Estourou, assim, o limite de endividamento do próprio governo americano. Como ficam os credores externos de uma economia que se endivida ainda mais para salvar um sistema financeiro e produtivo preso à roda da especulação que recicla o consumismo? Se o resto do mundo passou a comprar ativos e títulos financeiros dolarizados, emitidos por um governo cuja base de arrecadação de impostos torna-se mais estreita, como continuar confiando no dólar?
A ruptura dessa ciranda financeira colocaria em risco o futuro da produção e do consumo na maior economia do mundo.
Quebram-se as expectativas de que a globalização traria a consolidação de uma ordem financeira mundial em que o dólar, moeda nacional, representaria o consenso de uma ordem supranacional. Ao mesmo tempo, evidencia-se a crise do princípio liberal de que o comércio, a produção, o investimento e o consumo, deixados à própria sorte, conduziriam inexoravelmente a um equilíbrio sistêmico e auto- regulado.
O fim da ilusão consumista parece uma representação no espelho, às avessas, do colapso da ilusão comunista. Os limites mais tangíveis da intervenção estatal tornam-se visíveis. Intervenção saneadora, mas também ainda mais comprometedora do futuro, pois os governos que gastam para evitar o pior são também obrigados a se endividar mais, na esperança de resgatar seu próprio equilíbrio no longo prazo.
Angel Gurría, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), advertiu há pouco que os governos apenas repetem medidas de intervenção de curto prazo. Parafraseando Jonas Salk, o inventor da vacina contra o pólio, ele disse que o mais importante é saber se a atual geração de líderes políticos, empresariais e sociais estão agindo como “bons ancestrais”. É um apelo à visão de longo prazo – mas, nesse momento, tudo parece uma ciranda de cegos procurando juntos o caminho de saída de uma selva escura.

Boletim Mundo n° 6 Ano 19

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