sábado, 10 de novembro de 2012

Botar a mão no fogo


Adriana Lui
Se você anda cada vez mais desconfiado dos políticos e convencido de que não dá pra botar a mão no fogo por nenhum, vai adorar saber de onde vem a expressão. Para o escritor Câmara Cascudo, ela vem da Idade Média e do método que a Inquisição usava para “descobrir” se alguém era culpado. Nada de testemunhas: para provar que não tinha pare com o capeta, o acusado devia segurar pedras ou ferro em brasa na presença do juiz, com as mãos apenas envolvidas em estopa com cera. O calor derretia a cera e as mãos ficavam atadas. Após três dias, a estopa era retirada. Acreditava-se que, se o réu fosse inocente, Deus o protegeria. Se não, sua mão mostraria as queimaduras e o infeliz seria enforcado. A maioria não agüentava a dor e se confessava culpado.

Aventuras na História n° 035

A morte de John Kennedy


Ricardo Giassetti
John Fitzgerald Kennedy, 35º presidente americano, foi morto a tiros em Dallas, no Texas, às 12h30 de 22 de novembro de 1963 – e estes são os únicos fatos sobre o assassinato dos quais ninguém discorda. A Comissão Warren, responsável pela investigação, apressadamente apontou Lee Harvey Oswald como autor solitário do crime, o que só fez aumentar as teorias da conspiração.
A viagem a Dallas era parte da pré-campanha pela reeleição de 1964. JFK e a primeira-dama, Jacqueline, chegaram ao aeroporto às 11h40. De lá, seguiram em carreata para o centro da cidade – um reduto republicano, que não contribuíra para a vitória do democrata Kennedy em 1960. O governador local, John Connally, e o vice-presidente, Lyndon Johnson, integravam a comitiva. No carro, a esposa do governador, Nellie, observou o grande público e disse: “Senhor presidente, não se pode mais falar que Dallas não o ama”. Ele respondeu: “Me parece bastante óbvio”. Logo depois, o alfaiate Abraham Zapruder registrou o assassinato com uma câmera de 8 milímetros.

Minutos de agonia
Do pronto-socorro à morte.
Imediatamente após os tiros, o agente Roy Kellerman, do serviço secreto, exigiu que o chefe de polícia local, Jesse Curry, liberasse o trânsito nos 6,5 quilômetros que separavam o local do atentado até o Parkland Hospital. Outro agente subiu no porta-malas para colocar Jackie de volta a seu assento e proteger o casal.

12h38
Kennedy chega ao hospital e é atendido por uma equipe médica que já havia sido avisada pelo Departamento de Polícia. Ele não apresenta sinais de pulsação.

12h43
Além do ferimento na cabeça, os médicos acham mais um, com menos de 1 cm, na parte inferior do pescoço – na pressa, não percebem que há outro buraco nas costas.

12h47
A equipe insere um tubo pela garganta para facilitar a respiração. Nenhuma das medidas dá resultado e a atividade cardíaca cessa completamente.

13h
Kennedy é declarado morto. Lyndon Johnson é levado ao avião presidencial. É lá que, às 14h38, ele fará o juramento como 36º presidente americano.

Vítima e testemunha
John Connally

A primeira bala que atingiu Kennedy teria sido a mesma que perfurou o tórax, o punho e a perna do governador do Texas. Connally conseguiu se virar para olhar JFK antes de se deitar sobre o peito da esposa. No hospital, foi submetido a uma cirurgia de emergência e sobreviveu.
Jacqueline Kennedy

Boa parte do público texano estava lá só por causa da bela primeira-dama. Jackie viu a cabeça de Kennedy explodir a centímetros de seu rosto e, em pânico, saltou engatinhando sobre o porta-malas. No vídeo de Zapruder, ela parece tentar resgatar um pedaço do crânio do marido.
Lee Harvey Oswald

Ex-fuzileiro naval e comunista, Lee tinha 24 anos e trabalhava no sexto andar do Depósito de Livros Didáticos do Texas. De lá teria disparado, em seis segundos, três tiros com um rifle Mannlicher-Carcano comprado pelo correio. Foi preso às 13h45 e assassinado dois dias depois.
Três tiros e muitas dúvidas

A Bala Mágica
O segundo tiro é uma das perguntas sem resposta sobre o atentado. O projétil teria entrado pelas costas de Kennedy, atravessando uma vértebra e sua garganta. A seguir, teria acertado o governador Connally, sentado no banco dianteiro, no ombro e na munheca, até se alojar em sua perna esquerda. A bala supostamente responsável pelos ferimentos, chamada de“evidência 399”, está quase em perfeito estado, apesar dos impactos que teria sofrido.

O Segundo Atirador
Há quem acredite que havia outro atirador atrás de uma cerca. Vídeos do dia do atentado mostram vultos e fumaça no local e bitucas de cigarro foram encontradas lá. A idéia é reforçada pela trajetória improvável da “bala mágica” e pelo movimento de Kennedy ao ser atingido pela segunda vez: sua cabeça vai para trás e para a esquerda – uma bala disparada por Oswald teria vindo por trás e projetado sua cabeça para a frente.

Aventuras na História n° 035

Brasil: Vícios de origem


Sergio Amaral Silva
O Brasil colonial descrito por Caio Prado Júnior tinha limitações econômicas e sociais que ainda permanecem.

Um dos mais importantes historiadores brasileiros do século 20, Caio Prado Júnior nasceu em 1907, numa tradicional família paulistana: era filho do deputado Caio da Silva Prado e de Antonieta Penteado da Silva Prado. Entre 1924 e 1928, cursou Direito na Faculdade do Largo de São Francisco. Sua obra-prima, Formação do Brasil Contemporâneo, foi publicada em 1942. Pelo projeto original, seria apenas o primeiro de quatro volumes nos quais pretendia analisar a história do país até o momento em que vivia – os três volumes seguintes, porém, não foram feitos.
Em 1943, Caio Prado fundou, com o escritor Monteiro Lobato, a Editora Brasiliense. Sua militância política o levou ao cargo de deputado estadual pelo Partido Comunista Brasileiro, que exerceu entre 1945 e 1947. Em 1968, assumiu a cátedra de História do Brasil na Universidade de São Paulo, mas, no mesmo ano, foi cassado e aposentado pela ditadura militar. Partiu para o exílio no Chile e ao retornar, em 1970, foi preso por ser comunista (no ano seguinte, acabou absolvido pelo Supremo Tribunal Federal). Morreu em 1990, depois de publicar mais de uma dezena de livros.
Em Formação do Brasil Contemporâneo, Caio Prado analisa o período colonial, caracterizado pela monocultura exportadora e pelo escravismo. Segundo o autor, o atraso no desenvolvimento do Brasil é um reflexo do que ocorreu naquela época. Sua tese central está no que chama de “sentido da colonização”: ao fazer do Brasil um mero fornecedor de produtos tropicais, ele determinou uma dependência prolongada do exterior, que continuou mesmo quando o país deixou de ser uma colônia. O ensaio trata do povoamento, da vida material e da vida social, incorporando fontes primárias, como livros de viajantes e cronistas da época colonial. A obra, de influência marxista, introduziu um novo método de se escrever sobre história no Brasil. Caio Prado acreditava que somente a universalização da educação, da cultura e da saúde poderia equilibrar as profundas diferenças sociais brasileiras – raciocínio que, infelizmente, continua atual.

Aventuras na História n° 035

A partilha da África


Isabelle Somma
No fim do século 19, países europeus repartiram o continente africano entre si e o exploraram durante quase 100 anos. Os invasores se foram, mas deixaram os efeitos nefastos de sua presença.

Ao encerrar a Conferência de Berlim, em 26 de fevereiro de 1885, o chanceler alemão Otto von Bismarck inaugurou um novo – e sangrento – capítulo da história das relações entre europeus e africanos. Menos de três décadas após o encontro, ingleses, franceses, alemães, belgas, italianos, espanhóis e portugueses já haviam conquistado e repartido entre si 90% da África – ou o correspondente a pouco mais de três vezes a área do Brasil. Essa apropriação provocou mudanças profundas não apenas no dia-a-dia, nos costumes, na língua e na religião dos vários grupos étnicos que viviam no continente. Também criou fronteiras que, ainda hoje, são responsáveis por tragédias militares e humanitárias.
O papel da conferência, que contou com a participação de 14 países, era delinear as regras da ocupação. “A conferência não ‘dividiu’ a África em blocos coloniais, mas admitiu princípios básicos para administrar as atividades européias no continente, como o comércio livre nas bacias dos rios Congo e Níger, a luta contra a escravidão e o reconhecimento da soberania somente para quem ocupasse efetivamente o território reclamado”, afirma Guy Vanthemsche, professor de História da Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica, e do Centro de Estudos Africanos de Bruxelas.
A rapidez com que a divisão se deu foi consequência direta da principal decisão do encontro, justamente o princípio da “efetividade”: para garantir a propriedade de qualquer território no continente, as potências européias tinham de ocupar de fato o quinhão almejado. Isso provocou uma corrida maluca em que cada um queria garantir um pedaço de bolo maior que o do outro. “Em pouco tempo, com exceção da Etiópia e da Libéria, todo o continente ficou sob o domínio europeu”, diz a historiadora Nwando Achebe, da Universidade Estadual do Michigan. A Libéria, formada por escravos libertos enviados de volta pelos Estados Unidos, havia se tornado independente em 1847. Na Etiópia, a independência foi garantida depois da Conferência de Berlim, com a vitória do exército do imperador Menelik II sobre tropas italianas na batalha de Adwa, em 1896.
O interesse europeu pela África vinha de muito tempo antes da conferência. No século 15, os portugueses já haviam chegado aos arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, iniciando sua ocupação do continente (que depois se estendeu a Angola e Moçambique). Os britânicos ocuparam partes da atual África do Sul, do Egito, do Sudão e da Somália no século 19. No mesmo período, os franceses se apoderaram de parte do Senegal e da Tunísia, enquanto os italianos marcavam presença na Eritréia desde 1870. Em 1902, França e Inglaterra já detinham mais de metade do continente.

Tiros e mentiras
A ocupação não se deu somente com a força das armas de fogo, que eram novidade para muitos dos povos subjugados. A trapaça foi largamente usada para a conquista e manutenção dos territórios. O rei Lobengula, do povo Ndebele, é um exemplo: assinou um contrato em que acreditava ceder terras ao magnata britânico Cecil Rhodes em troca de “proteção”. O problema é que o contrato firmado pelo rei não incluía a segunda parte do trato. O monarca nem percebeu, pois era analfabeto e não falava inglês. Apesar dos protestos de Lobengula, que acreditava que a palavra valia alguma coisa entre os recém-chegados, o governo da Inglaterra se fez de desentendido. Apoiou a exploração do território Ndebele, no atual Zimbábue, de onde Rhodes tirou toneladas de ouro.
O mais famoso entre os trapaceiros, no entanto, foi o rei Leopoldo II, que conseguiu passar a perna em africanos e europeus. Soberano de um pequeno país, a Bélgica, não tinha recursos nem homens para ocupar grandes territórios. Por isso, criou associações que se apresentavam como científicas e humanitárias, a fim de “proteger” territórios como a cobiçada foz do rio Congo. “Graças a hábeis manobras diplomáticas, ele conseguiu obter o reconhecimento, por todas as potências da época, de um ‘Estado Livre do Congo’, do qual ele seria o governante absoluto”, afirma o professor Vanthemsche. Leopoldo dominou com mão de ferro o Congo, usando métodos violentos para conseguir extrair o máximo que pudesse para aumentar sua riqueza pessoal.
Mas o principal método utilizado pelos europeus foi o bom e velho “dividir para dominar”. A idéia era se aproveitar da rivalidade entre dois grupos étnicos locais (ou criá-la, se fosse inexistente) e tomar partido de um deles. Com o apoio do escolhido, a quem davam armas e meios para subjugar os rivais, os europeus controlavam a população inteira. “Pode-se dizer que todas as potências conduziam a conquista da mesma forma: através da força bruta, dividindo para dominar e usando soldados que eram principalmente africanos e não europeus”, diz Paul Nugent, professor de História Africana Comparada e diretor do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Edimburgo, na Escócia.
O método usado pelos colonizadores provocou tensões que até hoje perduram, pois transformou profundamente as estruturas sociais tradicionais da África. “Formações de grupos flexíveis e cambiantes foram mudadas para ‘estruturas étnicas’ bastante rígidas”, afirma Vanthemsche. O exemplo mais extremo dessa fronteira imaginária criada pelos europeus é o de tutsis e hutus, de Ruanda. Os tutsis foram considerados de “origem mais nobre” pelos colonizadores (primeiro alemães, depois belgas), e os hutus foram colocados em posição de inferioridade. Os tutsis mantiveram o poder mesmo após a saída dos belgas. Em 1994, 32 anos após a independência de Ruanda, cerca de 1 milhão de pessoas morreram no conflito em que os detentores do poder foram perseguidos pelos até então marginalizados hutus.
As fronteiras territoriais também foram delineadas sem respeitar a disposição da população local, com base nos interesses dos europeus. “Eles recorriam a noções arbitrárias como latitude, longitude, linha de divisão das águas e curso presumível de um rio que mal se conhecia”, afirma o historiador Henri Brunschwig em A Partilha da África Negra. E essas fronteiras ainda sobrevivem. Segundo o geógrafo francês Michel Foucher, cerca de 90% das atuais fronteiras na África foram herdadas do período colonial. Apenas em 15% delas foram levadas em consideração questões étnicas. Há ainda mais de uma dezena de fronteiras a serem definidas, segundo Foucher.
O Saara Ocidental é o único caso de território africano que ainda não conseguiu a independência. Em 1975, depois de décadas explorando o fosfato da região, a Espanha o abandonou. No mesmo ano, o Marrocos invadiu o país. Houve resistência, e a guerra durou até 1991. Desde então, a Organização das Nações Unidas tenta organizar um referendo para que a população decida se quer a independência ou a anexação pelo Marrocos.
Para os países africanos, ver-se livre dos europeus não significou uma melhoria de sua situação. Ao contrário: em muitos lugares, a independência provocou guerras ainda mais sangrentas, que contaram com a participação das antigas metrópoles coloniais. Um exemplo é a Nigéria. Seis anos após a independência do país, em 1960, os ibos, que haviam adotado o cristianismo, declararam a secessão do território nigeriano de Biafra. Foram apoiados por franceses e portugueses, interessados nas ricas reservas de petróleo da região. Os hauçás e fulanis, muçulmanos que dominavam o cenário político do país, lutaram pela unidade apoiados pelos ingleses. O resultado foi uma guerra civil em que quase 1 milhão de nigerianos morreram, a grande maioria de fome – até hoje o país é palco de embates religiosos e políticos.

Na marra
Não se sabe exatamente quantos grupos étnicos havia na África quando os colonizadores chegaram, mas acredita-se que fossem por volta de mil. “O que sabemos sugere que as formações políticas e grupais eram muito mais fluidas e a variação lingüística era muito maior do que na era colonial”, diz o historiador Keith Shear, do Centro de Estudos Africanos Ocidentais da Universidade de Birmingham. Línguas foram adotadas em detrimento de outras, o que provocou o nascimento de elites. “A chegada de missionários e a introdução de escolas formais fizeram com que dialetos específicos fossem selecionados para traduzir a Bíblia. Estabeleceram-se ortografias oficiais, provocando homogeneidade lingüística”, afirma Shear. Os que falavam a língua do grupo majoritário tiveram mais facilidades num governo centralizado e dominado por uma só etnia.
Se por um lado alguns dialetos desapareceram, o mesmo não ocorreu com a diversidade étnica. “Grupos étnicos não foram eliminados durante o domínio colonial, apesar de os alemães terem tentado realizar o primeiro genocídio na Namíbia”, diz Paul Nugent. Teria sido possível, inclusive, o surgimento de outros povos. “Muitos historiadores defendem a tese de que novos grupos foram criados durante o período colonial, pois as pessoas começaram a se autodefinir de novas formas. Por exemplo: os ibos da Nigéria e os ewes de Gana e do Togo apenas passaram a se denominar desse modo durante o período entre as duas Grandes Guerras Mundiais”, afirma Nugent.
A colonização comprometeu duramente o desenvolvimento da África. Hoje o continente abriga boa parte dos países mais pobres do planeta. “No plano político, o legado do colonialismo inclui a tradição de administração de cima para baixo, a persistência de burocracias que fornecem poucos serviços e um baixo senso de identidade e interesse nacional. Os Estados são geralmente fracos, ineficientes e brutais”, diz Shear. “Economicamente, o colonialismo produziu, em sua maior parte, economias dependentes, monoculturistas e não integradas, que atendem prioridades externas e não internas.”
A situação atual dos países africanos pode ser atribuída à pressa que os colonizadores tiveram em transformar a realidade local. Isso fez com que o continente pulasse etapas importantes. “O maior problema é que, em apenas algumas décadas, as sociedades tradicionais africanas foram lançadas em uma situação totalmente desconhecida. Você não pode criar um sistema capitalista e Estados democráticos de um dia para outro, em poucas gerações. As próprias sociedades tradicionais européias precisaram de séculos para chegar a esse resultado”, diz Guy Vanthemsche. Essa chance nunca foi dada aos africanos.

Quase sem querer
As aventuras dos exploradores ajudaram na conquista dos povos africanos.
Mesmo quando pretendiam apenas “salvar” algumas almas, os homens que desbravaram a África acabaram colaborando com os governos europeus na conquista e ocupação do continente. “Missionários e exploradores tiveram influências contraditórias. Trouxeram com eles importantes recursos, como armas de fogo e outros bens, mas eram incapazes de controlar e prever as conseqüências de suas intervenções”, diz Keith Shear, da Universidade de Birmingham. Mesmo que involuntariamente, o explorador francês Pierre de Brazza estimulou a convocação da Conferência de Berlim. Ele fez um acordo com Makoko, rei dos batekes, que viviam próximo ao rio Congo: ofereceu proteção em troca de exclusividade comercial. “A França então reivindicou soberania sobre a região em 1882. Mas isso entrou em conflito com os interesses de países como Portugal, Inglaterra e Bélgica”, diz o historiador Guy Vanthemsche, da Universidade Livre de Bruxelas. O impasse entre os colonizadores os levou à Conferência. Outro explorador, Henry Morton Stanley, trabalhou na mesma região que Brazza. Ajudou o rei belga Leopoldo II a fundar o Estado Livre do Congo e a explorar os trabalhadores locais, mas foi acusado de torturar e matar africanos a mando do monarca. Antes disso, o galês Stanley, trabalhando como jornalista, fora enviado à África por um diário americano para procurar o missionário escocês desaparecido David Livingstone. Após percorrer milhares de quilômetros, encontrou um homem branco e cunhou a célebre frase: “Doutor Livingstone, eu presumo”. Acertou. Sob o lema “Cristianismo, Comércio e Civilização”, Livingstone havia sido um dos primeiros europeus a cruzar a África, tornando-se uma lenda viva. Ao converter os africanos ao catolicismo ou ao protestantismo, entretanto, missionários como ele facilitavam a colonização. O combate às crenças e rituais tradicionais contribuiu para que o poder dos líderes tribais africanos, muito baseado na religião, entrasse em declínio.

Aventuras na História n° 035

EUA: os donos do mundo


Igor Fuser
Nem romanos nem britânicos. Nem persas nem egípcios. Nunca uma nação foi tão poderosa quanto os Estados Unidos são hoje. Como e por que eles se tornaram a maior potência de todos os tempos?

Responda rápido: quem descobriu os Estados Unidos? Se você é como eu e não sabe a resposta, não se acanhe. Os americanos também não. É que para eles, diferentemente de nós, brasileiros, que marcamos o nascimento do Brasil na chegada de Cabral, o evento fundador de sua nacionalidade é outro: a chegada do advogado britânico John Winthrop a Massachusetts, em 1630. Adepto de uma seita religiosa radical para a época, os puritanos, e descontente com o anglicanismo – a religião oficial dos ingleses e do rei Carlos I –, Winthrop e as cerca de 700 pessoas que o acompanharam deixaram a Inglaterra para criar sua própria sociedade, num lugar ainda intocado pelos vícios: a América. Winthrop e sua turma adoravam a idéia de estarem chegando a uma espécie de Terra Prometida, a ser regida pelas leis divinas e, portanto, predestinada a dar certo e a se tornar um exemplo de virtude para o resto do mundo. Os Estados Unidos ainda levariam 140 anos para nascer, mas a idéia do que é ser americano estava lançada.
Para entender esses primeiros americanos, no entanto, é preciso lembrar como era a Inglaterra e como era a vida por lá, no século 17. Sim, porque os primeiros americanos eram britânicos e, portanto, súditos do maior império de seu tempo.
Desde o século anterior, principalmente no reinado de Elizabeth I, os ingleses vinham assumindo o posto de superpotência que pertencera à Espanha (e do qual até Portugal já tirara uma casquinha). Ser uma potência, na época, era ter navios. E a Inglaterra tinha uma grande, uma baita frota para levar seus produtos o mais longe possível e trazer de lá matérias-primas baratinhas, quando não de graça, para fazer mais produtos e levá-los ainda mais longe. Do ponto de vista social, o vaivém de mercadorias havia criado nas cidades uma camada de homens ricos, chamados burgueses, e uma grande massa de homens pobres, resultado do êxodo rural. Winthrop fazia parte do primeiro grupo, bem como a imensa maioria dos puritanos, que estavam preocupados com a elasticidade moral típica das grandes cidades: ninguém mais ia à igreja, os políticos mandavam mais que os religiosos e o dinheiro mandava ainda mais que os políticos. A colonização de novas terras pareceu, então, uma boa idéia em todos os sentidos e, para colocá-la em prática, a coroa inglesa chamou duas empresas: as companhias de Londres e de Plymouth, que ficaram responsáveis por recrutar, armar e, mais importante, financiar as viagens. É por isso que é comum dizer que a colonização dos Estados Unidos foi feita pela iniciativa privada. Fato que se tornou um dos pilares da civilização norte-americana, do qual eles se orgulham tanto.
Esses seriam os fundadores dos Estados Unidos, mas é bom lembrar que eles não eram os únicos a ocupar o território americano, no século 17. Ou seja, sua Terra Prometida já tinha dono. Os primeiros a chegar lá foram os espanhóis, no século 16. Mais preocupados em explorar as ilhas do Caribe e o ouro e a prata do México, eles se aventuraram pela costa da atual Flórida, onde, quando não estavam procurando a fonte da juventude ou sendo devorados por aligatores, criaram meia dúzia de entrepostos comerciais. No século 17, porém, os espanhóis já não podiam mais sustentar seus interesses imperiais na América e se concentraram em administrar e explorar a Nova Espanha, ou México (região que ia, além do México atual, ao Texas e à Califórnia). Havia ainda uma larga fatia pertencente aos franceses, a chamada Louisiana, que ia do Mississípi à fronteira com o Canadá. Além, é claro, dos índios que já estavam lá. Vinte e cinco milhões deles.

Inimigo interno
A predominância dos colonos ingleses sobre seus vizinhos foi um longo processo que incluiu negociações diplomáticas, algum dinheiro e muita, muita porrada. Os primeiros a dançar, só para variar, foram os índios que ocupavam a região litorânea onde os ingleses aportaram. Quem não fugiu morreu pela guerra e, sobretudo, pelas doenças que os brancos espalhavam, muitas vezes, de propósito. Em 1673, cercado no forte Pitt pelos guerreiros do chefe Pontiac, o general inglês Jeffrey Amherst ordenou ao capitão Simon Ecuyer que enviasse aos índios cobertores e lençóis. Mostra de boa bontade? Que nada: os cobertores vinham direto da enfermaria, onde os soldados padeciam vítimas de uma epidemia de sarampo. Em alguns dias, os ingleses estavam curados e os índios, milhares deles, mortos.
O próprio John Winthrop, eleito o primeiro governador de Massachusetts, tinha uma desculpa na ponta da língua para justificar a tomada das terras dos índios. Ele as declarou “vácuo legal”. Os índios, dizia, não “subjugaram” a terra e, portanto, possuíam apenas “direito natural” sobre ela, mas não “direito civil”. E, como bom advogado que era, para ele um direito apenas “natural” não tinha nenhum valor jurídico.
A oeste e norte dos assentamentos ingleses, colonos franceses ocupavam regiões que, para populações dedicadas à caça e ao comércio de peles, eram de grande importância econômica, como as terras banhadas pelos rios Ohio, Missouri e Mississípi. As hostilidades eram constantes e, até a metade do século, em pelo menos cinco ocasiões os vizinhos acabaram em guerra.
A animosidade entre os colonos na América era alimentada, ainda, pela rivalidade entre Inglaterra e França na Europa, fato determinante nas relações internacionais do século 18. Em pleno processo de desenvolvimento capitalista, a burguesia inglesa via na França, onde a monarquia entrava em crise, um obstáculo a sua expansão comercial, marítima e colonial. A rixa chegaria ao ponto máximo entre 1756 e 1763, durante a Guerra dos Sete Anos, e teria impacto decisivo sobre a vida na América. Após a guerra, com o pretexto de recuperar as finanças do Estado, os ingleses, que já vinham adotando medidas mais rígidas em relação ao monopólio sobre as colônias americanas (como as proibições da fabricacão de aço, em 1750, e de tecido, em 1754), adotaram uma série de leis para garantir as vendas (e os lucros e os impostos pagos pelos produtos de empresas inglesas, particularmente o chá). A insatisfação nas colônias atingiu o máximo quando os territórios da Lousiana, tomados da França, foram declarados da coroa e os colonos, proibidos de pisar por lá. Uma senhora decepção, principalmente para fazendeiros e criadores de gado do sul que esperavam ocupar essas terras.
Em 1774, os americanos estavam cheios dos ingleses e para se livrar deles foram tão, mas tão tipicamente americanos. Primeiro organizaram um boicote (um bloqueio comercial) aos produtos da metrópole. Em seguida, formaram comitês pró-independência que tinham duas funções: fazer propaganda antibritânica e juntar armas e munições. No ano seguinte, a guerra começou e, em 1776, os americanos declararam-se independentes. Para tanto, escreveram um documento maravilhoso. A Declaração da Independência teve grande significado político não só porque formalizou a independência das primeiras colônias na América, dando origem à primeira nação livre do continente, mas porque trazia em seu bojo o ideal de liberdade e de direito individual e o conceito de soberania popular, representando uma síntese da mentalidade democrática e liberal da época. Redigido por Thomas Jefferson, o texto, em seu trecho mais famoso, afirma: “Todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, entre estes a vida, a liberdade e a procura da felicidade. A fim de assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados. Sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade”. Isso, no fim do século 18, soou como revolução. E era. Pela primeira vez na história uma colônia se tornava independente por meio de uma revolução. Com essa iniciativa, os americanos se anteciparam à Revolução Francesa e criaram o primeiro regime democrático do planeta. E isso não era pouca coisa.
Mas os ingleses, é claro, não deram a menor bola para toda essa poesia e enviaram tropas para tomar os principais portos e vias fluviais e isolar as colônias. Liderados por George Washington, os americanos organizaram um exército, formaram milícias populares e reagiram. Mas não lutaram sozinhos: a França, eterna inimiga dos ingleses, entrou na guerra em 1778 e a Espanha, no ano seguinte. Em 1781 as tropas coloniais e francesas derrotaram os ingleses na decisiva Batalha de Yorktown e, em 1783, foi assinado o Tratado de Paris, no qual a Inglaterra reconhecia a independência das 13 colônias.

Rumo oeste
Após a independência, os agora denominados Estados Unidos da América ainda eram um paisinho nanico que se estendia verticalmente entre o Maine e a Flórida e horizontalmente entre o Atlântico e o Mississípi. Mas isso estava prestes a mudar. Alimentados ideologicamente pelo chamado “destino manifesto”, que defendia a idéia de que os americanos teriam sido escolhidos por Deus para a missão de ocupar as terras entre os oceanos Atlântico e Pacífico, os Estados Unidos iniciaram um processo de expansão que se estenderia por mais de um século e que, no final, lhes daria as fronteiras atuais e o posto de quarto maior país do mundo. Primeiro eles foram às compras e, em 1803, adquiriram dos franceses a Lousiana, por 15 milhões de dólares (ou 257 bilhões de dólares em valores atualizados). Em seguida, em 1819, compraram a Flórida da Espanha por apenas 5 milhões de dólares. O Oregon, na costa do Pacífico, cedido pela Inglaterra em 1846, saiu de graça, e o Alasca, comprado da Rússia em 1867, custou 7 milhões de dólares.
O novo país não parava de crescer e, enquanto a Europa era varrida pelas guerras napoleônicas, os Estados Unidos tornavam-se a terra das oportunidades, da liberdade e dos imigrantes. Atraídos pelo trabalho ou pelo ouro – descoberto na Califórnia, em 1848 –, milhões deles chegavam da Inglaterra, Itália, Irlanda, Espanha, Suécia, Polônia e Rússia, entre outros, no maior movimento migratório internacional da história. A população do país saltou de 4 milhões, em 1801, para 32 milhões em 1860.
No campo político, o expansionismo tinha um patrocinador de peso: o presidente James Monroe, que governou entre 1817 e 1825 e foi autor da frase “América para os americanos”. A idéia da chamada Doutrina Monroe era fazer frente à onda recolonizadora que tomou conta da Europa, após a derrota de Napoleão. Para o historiador americano Howard Zinn, a frase “deixou claro para as nações imperialistas européias, como Inglaterra, Prússia e França, que os Estados Unidos consideravam a América Latina como sua área de influência”. Na prática, conforme os interesses territoriais dos Estados Unidos aumentaram, a Doutrina Monroe ganharia outra definição, muito mais sarcástica: “América para os norte-americanos”.
Dita com sarcasmo ou não, a Doutrina Monroe funcionou no caso da ocupação dos territórios do México. Desde que se tornaram independentes da Espanha, em 1824, os mexicanos permitiram que os americanos ocupassem terras no norte do país, exigindo em troca apenas a adoção do catolicismo nessas áreas. Envolvido em constantes conflitos pelo poder e por ditaduras, os mexicanos nunca consolidaram seu poder na região e, em 1845, os colonos americanos proclamaram a independência do Texas em relação ao México, incorporando-o aos Estados Unidos. Iniciava-se a Guerra do México. Em três anos, a ex-colônia espanhola perdeu, além do Texas, o Novo México, a Califórnia, Utah, Nevada e partes do Colorado e do Arizona. Ou seja, depois da guerra, cerca de metade das terras do México incorporou-se aos Estados Unidos.
Restava a conquista das terras indígenas, conhecidas como Oeste Selvagem. Quando os ingleses chegaram, havia mais de 25 milhões de índios na América do Norte e cerca de 2 mil idiomas diferentes. Ao fim das chamadas “guerras indígenas”, restavam 2 milhões, menos de 10% do total. Para o etnólogo americano Ward Churchill, da Universidade do Colorado, esses três séculos de extermínio e, particularmente, o ritmo com que isso ocorreu no século 19 caracterizaram-se “como um enorme genocídio, o mais prolongado que a humanidade registra”.
Ao lado da expansão, veio a prosperidade econômica. Enquanto o norte crescia com o comércio e a indústria cada vez mais sólida, o sul permanecia agrícola e as novas terras do oeste eram tomadas pela pecuária e pela mineração. Ao longo do século 19, essas diferenças se agravaram. “Os Estados Unidos formavam um único país, mas esse país pensava, trabalhava e vivia diferente, abrigando na realidade duas nações: o Norte-Nordeste, industrial e abolicionista, de um lado, e o Sul-Sudeste, rural e escravista, de outro”, afirma o historiador Phil Landon, da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos. Segundo ele, a manutenção da escravidão no Sul, associada a outros elementos também conflitantes, como questões alfandegárias, levaram, em 1860, as duas metades à guerra civil, na qual morreram 620 mil americanos, ou 2% da população.

Fronteira final
O Norte ganhou a guerra, os Estados permaneceram unidos e partiram na direção do desenvolvimento, o que, na época, significava ir mundo afora buscando consumidores para os produtos de sua indústria. O acesso ao Pacífico deu às ambições americanas um caminho óbvio: a Ásia. E foi ali que os Estados Unidos definiram as linhas mestras da sua influência internacional. Ao contrário das potências coloniais européias, que ocupavam e mantinham o controle político de suas colônias – caso da Inglaterra na Índia e da França na Indochina, por exemplo –, a jovem nação americana não estava interessada em exercer o domínio sobre outros povos. Cada país que cuidasse dos assuntos internos à sua maneira, desde que os interesses comerciais americanos fossem preservados. Essa estratégia levava o nome de “Portas Abertas”, ou seja, o acesso dos produtos e dos capitais americanos a qualquer lugar do mundo.
Mas o fato é que nem sempre as portas se abriam apenas com a conversa dos enviados de Washington. Nesses casos, era preciso um empurrãozinho. Foi o que ocorreu com o Império Japonês, que ficou fechado, durante séculos, ao intercâmbio com o exterior. Em 1852, depois de 15 anos de infrutíferos esforços diplomáticos, a paciência americana acabou. Quatro navios de guerra, sob o comando do comodoro Matthew Perry, posicionaram-se na baía de Tóquio e apontaram seus canhões para a cidade. Um emissário foi à terra para negociar – e ameaçar – as autoridades japonesas. Caso se recusassem a liberar os portos do país ao comércio, seriam bombardeados. Os japoneses toparam. Acordo semelhante foi firmado com a China, que estendeu aos americanos os privilégios concedidos aos europeus.
No fim do século 19, o país já possuía a maior economia do planeta e uma força naval só comparável à inglesa e à prussiana. O avanço das fronteiras estava esgotado e todos os territórios, no leste e no oeste, colonizados. Uma severa recessão econômica, iniciada em 1893, insuflou as tensões sociais até então mantidas sob controle graças à permanente abertura de novas terras para a exploração. Entre as elites econômicas, começou a prosperar a idéia de que a única saída para a crise era a ampliação dos mercados no além-mar. Na mesma época, um capitão da Marinha americana, Alfred Thayer Mahan, publicou seu livro A Influência do Poder Marítimo na História. A obra, que teve entre seus leitores mais entusiastas o futuro presidente Theodore Roosevelt, propunha a instalação de bases navais americanas no Caribe e no Pacífico e a abertura de uma ligação entre os oceanos pelo Panamá. Só assim seria possível sustentar o avanço comercial dos americanos no Extremo Oriente, onde se concentrava a competição entre as potências econômicas ocidentais. As idéias de Mahan orientaram a decisão de anexar o Havaí, em 1897. Também influenciaram na determinação de recorrer às armas para abiscoitar as possessões espanholas que ainda restavam.
Fazer uma guerra contra a Espanha – e sua influência imperial – tinha entre seus líderes, além de políticos ambiciosos como Ted Roosevelt, donos de jornais, como William Randolph Hearst – o magnata da imprensa que inspirou o filme Cidadão Kane, de Orson Welles. Era gente que achava que o “destino manifesto”, ou seja, a predestinação americana para liderar os países rumo à democracia, deveria ir além da América do Norte. “A Espanha, em plena decadência, enfrentava rebeliões anticoloniais em Cuba e nas Filipinas, e os partidários da guerra diziam que os Estados Unidos tinham o dever de ajudar os rebeldes em luta pela liberdade”, diz a historiadora Sophia Rosenfeld, da Universidade da Virgínia. O pretexto para a ação militar ocorreu depois da explosão de um navio americano no porto de Havana, em 18 de fevereiro de 1898. Os jornais americanos trataram o fato como um atentado arquitetado pela Espanha. “Querendo evitar a guerra, os espanhóis chegaram a se desculpar, mas hoje há praticamente um consenso entre os historiadores de que a explosão não foi um ato de guerra, mas, provavelmente, acidental”, afirma Sophia. Pressionado pela histeria belicista, em 25 de abril o presidente William McKinley declarou guerra à Espanha.
A Espanha, totalmente despreparada, com equipamento antiquado, quase não ofereceu resistência. Dos 200 mil espanhóis em Cuba, apenas 12 mil foram mobilizados para defender Santiago, na maior batalha terrestre contra os americanos. A Marinha americana arrasou os antigos navios espanhóis sem sofrer qualquer baixa. Nas Filipinas, a situação não foi diferente. A principal batalha naval foi travada na baía de Manila, no dia 1º de maio. Seis dos mais modernos e bem armados navios de guerra americanos enfrentaram a esquadra espanhola formada por sete navios. Três deles eram de madeira e um quarto precisou ser rebocado até o local da batalha. Os canhões instalados em terra, em Manila, não puderam ser usados, pois os comerciantes espanhóis impediram que entrassem em combate temendo que isso provocasse disparos dos navios americanos contra suas propriedades na orla.
Os espanhóis se renderam em menos de quatro meses, em 12 de agosto, e os Estados Unidos emergiram, aos olhos do mundo, como uma verdadeira potência imperial. Cuba, formalmente libertada do jugo colonial, passou a ser administrada pelos americanos, que mantiveram os rebeldes locais à margem do poder. Porto Rico se integrou aos Estados Unidos e as distantes ilhas Filipinas foram anexadas, transformando-se na primeira colônia americana.
Os filipinos, frustrados por não obterem a independência, se rebelaram em 1899. Os Estados Unidos levaram três anos para esmagar a insurreição, numa campanha em que mobilizaram 120 mil soldados. Os combates provocaram a morte de 4 mil americanos e mais de 200 mil filipinos, na maioria civis, vítimas dos bombardeios indiscriminados e da fome, causada pela destruição das lavouras. Foi a primeira vez que os americanos enfrentaram um povo em luta pela libertação nacional.

Poder global
A vitória na Guerra Hispano-Americana garantiu aos americanos o controle do Caribe e da América Central. Na gestão de Ted Roosevelt, iniciada em 1901, o país instalou um regime de tutela política e financeira sobre a região e despachou tropas para o México, Nicarágua, Haiti e outros países, a pretexto de ensiná-los a “eleger os homens certos”, como diziam as propagandas americanas da época, para os postos de governo. A velha Doutrina Monroe, de 1823, ganhou finalmente vigência plena. Em 1904, o Congresso americano adotou como política oficial o direito de intervir nos países latino-americanos que se mostrassem incapazes de garantir a ordem interna ou de honrar suas dívidas com os bancos estrangeiros. Roosevelt escreveu textualmente na sua mensagem ao Congresso, por ocasião de sua posse, que os Estados Unidos, “embora relutantes”, estavam prontos a “exercer seu papel de polícia internacional” na América Latina nos casos em que se verificasse “a crônica incapacidade” (dos governantes locais) ou “a impotência que resulte no enfraquecimento dos laços da sociedade civilizada”.
Os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial, em 1917, como a única potência hegemônica em seu próprio hemisfério, e saíram dela ainda mais fortes, como a maior força militar do planeta – afinal, foi o Tio Sam quem desempatou o jogo nas trincheiras da Europa, selando a derrota dos impérios alemão, austro-húngaro e turco-otomano. Começava a investida americana pela supremacia global que, no mundo abalado pela recessão do período entre-guerras, pela ascensão das ideologias fascistas e, por fim, pela Segunda Guerra, só se confirmaria nas cinzas de Hiroshima, quando os Estados Unidos deram uma mostra – talvez a maior de todas – de seu poder e determinação militar. “Depois da guerra e diante da destruição sofrida pelos eventuais competidores, os americanos passaram a dominar a maior parte do globo”, diz o historiador Amadeo Giceri, da Universidade Estadual do Kansas. O vazio de poder em escala global e o confronto com a União Soviética – um rival de segunda classe, restrito a seu cinturão de segurança no Leste Europeu e irrelevante como potência econômica – deram aos americanos a chance de alcançar a meta que perseguiam desde o século 19: usar seu poderio militar para abrir o mundo ao comércio e aos investimentos das empresas americanas.
“Os Estados Unidos estenderam sua influência à Indochina e ao Oriente Médio, diante da incapacidade de França e Inglaterra de preservar seus interesses nas ex-colônias”, afirma Giceri. Para ele, a Guerra Fria contra os soviéticos e a teoria da luta contra o “mal maior”, ou seja, o comunismo, justificava a presença e a interferência americana nos assuntos internos dos países espalhados pelo globo. Enfrentar o “mal maior” por vezes significou patrocinar guerrilheiros e golpistas, como no Irã e na Guatemala, na década de 1950. O fim da União Soviética, em 1991, instalou confortável e definitivamente os Estados Unidos no posto de única superpotência.

Ser ou não ser
Mas é justo, diante das guerras do Iraque e do Afeganistão, chamá-los de “império”. Os americanos, de um modo geral, acham muito estranho, e até se sentem ofendidos. Em 230 anos de independência, sucessivos ocupantes da Casa Branca têm se esmerado em desmentir a intenção de dominar outras nações. O primeiro foi McKinley, em 1898, que depois da guerra com a Espanha garantiu que “nenhum desejo imperial se espreita na mente americana”. O último foi George W. Bush em sua campanha à reeleição, que depois de invadir o Afeganistão disse que “nosso país não busca a expansão do seu território, e sim a ampliação do campo da liberdade”. Para o sociólogo americano Michael Mann, a hegemonia dos Estados Unidos contém um paradoxo. Segundo ele, ao espalharem pelo mundo os valores democráticos, os Estados Unidos reforçam a noção de que cada povo deve ser dono do seu próprio nariz. “A ideologia do liberalismo e a disseminação do conceito moderno de soberania nacional trariam embutidos os anticorpos contra qualquer plano de dominação.” Ou seja, se os Estados Unidos são o problema, também são a solução, pois, diferentemente de qualquer conquistador do passado, os americanos, que carregam na bagagem o ideal da liberdade e da democracia, levam junto os canhões e os capitais. Aí residem a força e a fraqueza do seu império.

Terra prometida
Quando chegaram à América, em 1630, os peregrinos queriam construir uma sociedade única, longe dos vícios da velha Europa, que pudesse servir de exemplo para o mundo. Um século e meio depois, ao assinar a Declaração da Independência, os americanos criaram o primeiro Estado democrático sob os ideais da liberdade e da igualdade.

Acima do bem e do mal
Em 230 anos, os EUA mostraram ao mundo do que são capazes.

Certidão de nascimento
“Todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, entre estes a vida, a liberdade e a procura da felicidade.” A Declaração da Independência dos americanos sintetizou, 13 anos antes da Revolução Francesa, a mentalidade democrática e liberal do Iluminismo.

Abertura dos portos
Dois séculos de isolamento japonês foram por água abaixo, em 1854, quando o oficial americano Matthew Perry e seus navios de guerra obrigaram o Japão a abrir-se ao comércio. A manobra estabeleceu as linhas da política externa americana a partir dali, mostrando ao mundo que havia um novo e poderoso ogador no tabuleiro internacional.

Navios na selva
Quando, em 1903, os EUA retomaram as obras deixadas pelos franceses, parecia impossível dividir o continente em dois e abrir uma rota entre o Atlântico e o Pacífico. O sonho – o Canal do Panamá – se tornou real em 1914 e encurtou em 14 500 quilômetros a viagem marítima entre as duas costas americanas.

 Em nome de Deus
A predestinação divina na política americana.
Uma noite, no fim do século 19, um homem se ajoelhou para rezar e recebeu, diretamente de Deus, instruções para enviar tropas a um arquipélago distante. Foi assim que o presidente americano William McKinley explicou sua decisão de invadir as Filipinas, em 1898, durante a Guerra Hispano-Americana. Pouco mais de um século depois, o presidente George W. Bush relatou algo semelhante ao falar sobre política externa para um grupo de autoridades palestinas. “Deus me disse para atacar a Al Qaeda, e eu a ataquei. Então ele me deu a ordem de atacar Saddam, e foi isso que eu fiz.”A inspiração divina é um elemento constante na história dos Estados Unidos – ou, pelo menos, nos discursos de seus dirigentes, que, mais de uma vez, utilizaram-na para justificar a expansão das fronteiras do país e, mais tarde, a adoção de políticas imperialistas. Afinal, isso seria o cumprimento de um “destino manifesto”. Ou seja, os americanos estão convencidos de que têm a missão a eles dada por Deus de espalhar pelo mundo a civilização e a liberdade, exatamente da maneira como foram postas em prática nos Estados Unidos. Para os partidários dessa concepção, trata-se de uma tarefa ao mesmo tempo óbvia (a saga americana seria uma prova ou “manifestação” desse fato) e inevitável (ou seja, um “destino”). A expressão “destino manifesto” surgiu às vésperas da guerra com o México, em 1846, quando o jornalista John O’Sullivan defendeu “a realização do nosso destino manifesto de nos espalharmos pelo continente que recebemos da Providência”. Mas a idéia tem raízes mais antigas, que remontam aos puritanos do século 17. Em sua jornada através do Atlântico, esses imigrantes se comparavam aos hebreus do Velho Testamento, cruzando o deserto em busca da Terra Prometida. John Winthrop, o líder puritano, definiu a sociedade construída pelos peregrinos como “uma cidade no alto da colina”, um farol destinado a iluminar a humanidade. O escritor Herman Melville, autor do clássico Moby Dick, expressou a mesma visão. “Somos o povo peculiar, escolhido, o Israel do nosso tempo. Carregamos a arca das liberdades do mundo”, escreveu, em 1850. Mas nem sempre a missão americana foi interpretada como uma carta branca para ocupar territórios. Thomas Jefferson, líder da independência, acreditava que os EUA deveriam difundir os valores democráticos por meio do seu próprio exemplo, que acabaria por ser imitado por outros povos, e não pelo uso da força. Quem concorda com isso é chamado “exemplarista”. Quem acredita que dar o exemplo não basta e que é preciso dar uma mãozinha para que os outros conheçam a verdade leva o nome de “vindicatista”. Quem pensa, porém, que a tese da predestinação só voltou com Bush, que se autoproclama autorizado a exercer a liderança global em benefício de todos, está enganado. Madeleine Albright, secretária de Estado na gestão de Bill Clinton, foi uma defensora das mais entusiastas. Em 1997, ao justificar o lançamento de mísseis contra o Iraque, Albright afirmou, num programa de televisão: “Se nós temos que usar a força, é porque somos a América. Somos a nação indispensável. Nós temos estatura. Nós enxergamos mais longe em direção ao futuro.”

Pais da pátria
Cinco homens que fizeram a América.

Gênio da lâmpada
Thomas Edison (1847-1931) foi um dos maiores inventores de todos os tempos – e, na hora de ganhar dinheiro, não tinha nada de cientista maluco. Ao todo, registrou 1 097 patentes. Seu feito mais rentável, um aperfeiçoamento que deu viabilidade comercial à lâmpada incandescente, permitiu que ele criasse a Edison General Electric – que se transformou num gigantesco conglomerado, existente até hoje. Edison nasceu pobre, tirava péssimas notas na escola e ficou quase surdo na adolescência. Isso o tornou um excelente telegrafista, que não se distraía com os ruídos do ambiente. Sua invenção mais conhecida foi o fonógrafo, mas ele também ajudou a criar a filmadora e a desenvolver o telefone. Não acreditava em Deus e não tinha hobbies ou qualquer divertimento fora do trabalho.

Ás no volante
Criador da linha de montagem, Henry Ford (1863-1947) reinventou a indústria. Em 1903, depois de vencer corridas com um quadriciclo que construíra, fundou a Ford Motor Company. Produzindo em série, a empresa popularizou os automóveis. Com filiais no Canadá, na Europa e na Austrália, Ford foi pioneiro entre as multinacionais e chegou a ver sua marca em 90% dos carros do mundo. Reduziu a jornada de trabalho e deu participação nos lucros aos funcionários, mas nunca perdeu sua ojeriza aos sindicatos. Certa vez, resolveu dobrar o salário dos empregados. Não era generosidade: com mais dinheiro no bolso, eles compravam carros. Ao morrer, era um dos três homens mais ricos do mundo.

Comandante da vitória
Onze em cada dez estudiosos concordam que Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) foi o maior presidente americano do século 20. Apesar de ter as pernas paralisadas por uma doença desde 1921, não usava cadeira de rodas em público (andava com a ajuda de uma armação metálica sob as roupas e se apoiava numa bengala). Em 1932, eleito para o primeiro de quatro mandatos, combateu a Grande Depressão investindo milhões em obras públicas, que geraram empregos no país todo. Era o New Deal (“novo acordo”), que incluiu a criação de um sistema de saúde pública e previdência. Após salvar a economia do país, Roosevelt o conduziu na vitória sobre o nazismo. Morreu um mês antes do fim da Segunda Guerra, quando se preparava para presidir a sessão inaugural das Nações Unidas.

Papai disney
Típico self made man americano,Walt Disney (1901-1966) nasceu pobre e terminou a vida milionário. Aos 10 anos, vendia jornais e cigarros no trem. A partir de 1923, dedicou-se a fazer filmes de animação. O sucesso só veio cinco anos depois, com a estréia no cinema de Mickey, o expoente da mais popular turma de personagens infantis do século 20. De 1955 em diante, Disney entregou a parte criativa a uma equipe de artistas e, com a inauguração da Disneylândia, iniciou seu império de parques temáticos. Na década de 50, denunciou alguns ex-colaboradores como “comunistas” e, até o fim da vida, atuou como informante da polícia, vigiando as atividades sindicais em Hollywood.

O sistema é dele
Com uma fortuna de mais de 100 bilhões de dólares, Bill Gates é o patrono da revolução dos microcomputadores iniciada na década de 80. Nascido numa família rica de Seattle, em 1955, Gates abandonou a Universidade Harvard em 1977 para fundar sua própria empresa, a Microsoft. Com o sistema Windows, lançado em 1985, desbancou seus competidores e dominou o mercado de softwares – onde costuma ser acusado de recorrer a práticas ilícitas. Homem mais rico do mundo, é também o líder mundial em donativos para atividades filantrópicas: tem uma fundação que concede bolsas de estudos a minorias raciais e financia pesquisas para o tratamento de doenças.

 A bomba
Em 6 de agosto de 1945, em Hiroshima, no Japão, uma clara mensagem ofuscou os olhos do mundo. Os americanos não eram apenas os primeiros capazes de desenvolver uma bomba nuclear. Eram os únicos com coragem de usá-la.

Onde nenhum homem jamais esteve
Quando o astronauta Neil Armstrong espetou a bandeira americana na Lua, em 1969, mostrou ao mundo do que a determinação, a grana e a tecnologia dos EUA eram capazes. Um passo gigantesco para o país predestinado ao sucesso.

Aventuras na História n° 035

Cachaça era moeda oficial do tráfico de escravos negros para o Brasil


Felipe Van Deursen
O produto brasileiro mais conhecido pelos comerciantes de escravos na África no século 17 era a cachaça. A jeribita, um de seus tantos sinônimos, era tão popular no tempo da colônia que Portugal tentou diversas vezes – sempre em vão – coibir sua produção e consumo, para proteger o comércio de suas bebidas típicas – a bagaceira e o vinho. A proibição estimulou ainda mais o tráfico da bebida e, quando Portugal retomou Angola do controle holandês, em 1650, a colônia africana passou a receber um mar de cachaça anualmente.
O historiador Luis Felipe de Alencastro, no clássico O Trato dos Viventes – Formação do Brasil no Atlântico Sul. Séculos XVI e XVII, afirma que, entre 1710 e 1830, um em cada quatro escravos trazidos da África foi trocado por cachaça em Luanda. Juntamente com o tabaco baiano, outro produto usado no tráfico, quase 1 milhão de negros, que tinham contato com a bebida já nos porões dos navios, chegaram ao Brasil.

Pinga da boa
Batizada
Segundo Henrique Carneiro, historiador da USP, os traficantes chegavam a misturar água do mar e pimenta na aguardente brasileira antes de chegar a Angola. Tudo para aumentar o volume da bebida que seria trocada por escravos.
Gramática, lisa, Tome-Juízo...
Por estar presente no folclore, na religião, nos costumes e na cultura do Brasil há séculos, a cachaça acumulou centenas de sinônimos (de suor-de-alambique a quebra-munheca). No Aurélio, há 147 termos para a aguardente, enquanto no Houaiss são 420.
Registrada
Para estimular a exportação, há um decreto de 2003 que determina que “cachaça” mesmo é só a aguardente de cana produzida no Brasil. A tequila, feita no México, também tem a proteção de origem garantida. Por isso, dizer “cachaça brasileira” é chover no molhado.
No Caribe, negócio era com rum
Provavelmente você já ouviu falar que o rum era a principal moeda dos traficantes de escravos nas Américas Central e do Norte. A aguardente típica do Caribe (feita com o melaço da cana, enquanto a cachaça vem da garapa) tinha a mesma função comercial da cachaça, embora poucas pessoas saibam dessa utilidade do nosso destilado. Para Henrique Carneiro, historiador da Universidade de São Paulo e autor de Pequena Enciclopédia da História das Drogas e Bebidas, as poucas informações que existem a respeito “talvez ocorram porque a história oficial buscou ocultar muitos aspectos da escravidão, especialmente o uso de aguardente e tabaco na obtenção dos escravos”.
Para ele, apesar de ignorado pela maioria dos livros didáticos, o tráfico negreiro movido a bebidas ajudou na formação do sistema moderno de comércio mundial.

Aventuras na História n° 035

Os Manuscritos de Jesus: o Vaticano vai ruir


Cíntia Cristina da Silva
Há mais de 20 anos, o neozelandês Michael Baigent causou polêmica ao sugerir que Jesus era casado com Maria Madalena e que os filhos dessa união eram o verdadeiro Graal. Escrito com Richard Leigh e Henry Lincoln, O Santo Graal e a Linhagem Sagrada lançou essa teoria, alicerce sobre o qual foi construído o enredo de O Código Da Vinci.
O best-seller de Dan Brown causou polêmica com o Vaticano e com os próprios autores do Santo Graal, que acusaram o escritor americano de se apropriar das idéias do livro. “Dan Brown não fez nenhuma pesquisa. Ele roubou nossa propriedade intelectual”, diz Baigent. Os autores moveram uma ação judicial contra Brown, mas perderam.
Pronto para o próximo round de polêmicas, Baigent lança Os Manuscritos de Jesus e levanta novas questões sobre o Jesus histórico que, para ele, “foi silenciado em razão dos dogmas criados pelos seguidores do cristianismo”. O autor defende que Jesus não morreu na crucificação, que seus ensinamentos foram inspirados num grupo de místicos judeus do Egito e que teve papel político importante ao se ladear de seguidores zelotes, que lutavam contra a ocupação romana na Palestina  Judas Iscariotes seria da facção mais radical do movimento. Baseado em relatos do século 1, recria a trajetória política e pessoal de Jesus. “Por que o fato de ter sido casado poderia fazer dele um mestre pior? Isso não denigre sua espiritualidade”, diz.

Aventuras na História n° 035

Laus, Roosevelt e Michelangelo: curiosidades


O anti- maradona
Em 1914, o Brasil jogava a final da Copa Roca, na Argentina, contra os donos da casa. E vencia por 1 a 0 quando o argentino Leonardi fez um gol com a mão, validado pelo juiz. O empate daria o título para eles. Mas, na época, nossos arqui-rivais eram, digamos, um pouco diferentes. Laus, o capitão deles, viu a irregularidade, obrigou Leonardi a pedir desculpas para o nosso goleiro e, ainda por cima, convenceu o juizão a anular o gol. O Brasil venceu e conquistou seu primeiro título internacional.

Curto e Grosso
Muitas vezes os grandes momentos da história são marcados por frases de efeito, declarações bombásticas ou discursos empolgantes. Mas nem sempre. No ato que determinou a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra, em 1943, o presidente americano Franklin Roosevelt limitou-se a escrever um bilhete ao general Dwight Eisenhower: “Por favor, reúna sua tropa. Vamos invadir a Europa”.

Saindo do anonimato
Mesmo já famoso, Michelangelo não costumava assinar suas obras. Depois de esculpir sua célebre Pietá para a basílica de São Pedro, ele quis saber o que as pessoas achavam da obra antes de colocar seu nome nela. Um dia, disfarçado no meio do povão, ouviu: “Esta magnífica obra não pode ser de ninguém senão de Il Gobbo (”O Corcunda”, apelido de Cristophoro Solari, artista milanês). Naquela madrugada, Michelangelo voltou ao templo e, munido de martelo e cinzel, assinou o próprio nome no peito de Maria.

Aventuras na História n° 035

Julho na História


Maria Carolina Cristianini
1840- Aos 14 anos de idade, após receber a visita de uma comissão de deputados, Pedro II aceita assumir o governo brasileiro e presta juramento diante da Assembléia Geral (que reunia, em ocasiões especiais, os representantes da Câmara e do Senado). Pedro II tinha sido declarado imperador em 1831, após a abdicação de seu pai, Pedro I, mas não podia exercer o cargo por não ter 18 anos – em seu lugar, regentes se revezavam. A campanha para a antecipação da maioridade começara em abril de 1840. O país enfrentava uma série de revoltas nas províncias por conta da instabilidade política (como a Cabanagem) e, para resolver a crise e tirar os adversários conservadores do poder, os liberais resolveram entregar o governo a Pedro II. Tentaram mudar a situação legalmente, mas acabaram derrotados na Câmara. As conspirações então começaram. Quatro anos antes do previsto, o “golpe da maioridade” deu início ao Segundo Reinado.

Dia 23, no Rio de Janeiro
Eu me lembro

"Juro manter a religião Católica Apostólica Romana, a integridade e indivisibilidade do Império, observar e fazer observar a Constituição política da nação brasileira e mais leis do Império, e prover ao bem geral do Brasil, quanto em mim couber."
Trecho do juramento de Pedro II diante da Assembléia Nacional

100 a.C.- Nasce Júlio César, que se tornaria general e ditador romano. Segundo a mitologia, sua ascendência chegava a Julus, filho do príncipe troiano Enéias e neto da deusa Vênus.
Dia 12 ou 13, em Roma

306- Flavius Valerius Constantinus, conhecido como Constantino I, é proclamado Augusto (título que sugeria divindade) por suas tropas e se torna imperador romano – o primeiro a seguir o cristianismo. Governou até sua morte, em 337.
Dia 25, em Roma

1542- Guiado por índios guaranis, o navegador espanhol Alvar Nuñes Cabeza de Vaca descobre a foz do rio Iguaçu. Ele ia para o Paraguai quando viu as cataratas – às quais chamou de Cachoeira de Santa Maria.
Dia 15, no Paraná

1776- Um grupo liderado por Thomas Jefferson elabora e aprova a Declaração de Independência de colônias britânicas que passam a se chamar Estados Unidos da América.
Dia 4, na Filadélfia

 1825- Em homenagem a Simon Bolívar, que lutou pela independência do país em maio daquele ano, a Bolívia recebe seu atual nome. Antes, era conhecida como Alto Peru.
Dia 10, na Bolívia

1890- Aos 37 anos, o holandês Vincent van Gogh morre nos braços do irmão, Theo, dois dias depois de dar um tiro no próprio peito. Segundo cartas que Theo escreveu sobre o ocorrido, as últimas palavras do pintor foram: “A tristeza durará para sempre”.
Dia 29, em Auvers-sur-Oise, França

1984- O grupo dissidente da Frente Liberal sai do Partido Democrático Social, rompe com o governo militar e inicia negociações para lançar a candidatura do peemedebista Tancredo Neves à presidência da República.
Dia 5, em Brasília

Eu me lembro
"Eu era senador e, na época, meu nome era cogitado para candidato à presidência pelo PDS. Rompemos com o governo porque percebemos que o rumo dado à sucessão não era o desejado pelo país. Queríamos deixar claro que não aceitávamos aquele caminho. Naquele dia, formamos a Frente Liberal e houve muita tensão por não sabermos os desdobramentos, mas também muita expectativa porque era o melhor a fazer. Foi um dos movimentos da história republicana que permitiram a volta do Brasil a um estado de direito."

Marco Maciel, senador (PFL-PE)
2005- Quatro bombas explodem na capital inglesa. O atentado, atribuído à organização terrorista Al Qaeda, atinge três estações de metrô e um ônibus urbano. Cerca de 700 pessoas ficam feridas e 52 morrem.

Dia 7, em Londres
Eu me lembro

"Naquela manhã, peguei o metrô na estação King’s Cross, uma das atingidas. Por sorte cheguei ao meu destino antes das explosões. Pensei que fosse piada quando me disseram no trabalho que a cidade estava sendo atacada. Só acreditei quando vi as notícias e a carnificina pela internet. Foi um dia muito triste. No fim de semana seguinte, as ruas estavam vazias e o clima, pesado. Sou carioca, moro em Londres há dez anos e sempre gostei da segurança inabalável daqui, mas isso mudou. Hoje moro perto do trabalho e ando até lá. É mais seguro."
Karim de Oliveira, 33 anos, treinador técnico multilíngue

Aventuras  na História n° 035

Adolescência


Juliana Parente
Transformações no corpo não levavam a crises de rebeldia e transgressões.

Pêlos surgindo, espinhas pipocando, mudanças de voz, menstruação. As alterações físicas pelas quais passam as crianças com a chegada da puberdade são, há milênios, idênticas às de hoje. Mas as coincidências param por aí. Por um motivo muito simples: o conceito de adolescência como um limbo entre a infância e a idade adulta não existia até 300 anos atrás.
Os romanos passavam da infância para a idade adulta sem direito a períodos de adaptação ou amadurecimento psicológico. “As mudanças do corpo eram o único termômetro”, diz Pedro Paulo Funari, professor do departamento de História da Unicamp. Para os meninos, o marco era o aparecimento de pêlos. Bastava surgir uns fiozinhos de barba e o garoto era enviado ao Exército, onde ficava até os 35 anos. Nas meninas, a menstruação colocava fim instantâneo à infância: era hora de casar.
Isso não mudou na Idade Média, quando meninos eram tidos como homens pequenos que, para se tornar adultos, só precisavam fazer uma coisa: crescer. “A criança mal adquiria porte físico e era misturada aos adultos, partilhando com eles trabalhos e jogos”, escreve o historiador Philippe Ariès no livro História Social da Criança e da Família. Segundo ele, essa situação duraria até o século 17, quando a escola substituiu o sistema de aprendizagem, baseado na figura dos tutores e mestres de ofício. “As crianças deixaram de ser misturadas aos adultos e apareceram as salas de aula reunindo alunos em faixas etárias e níveis de aprendizado semelhantes.”
“Mesmo isso mudou pouco a vida das meninas, que continuou, até o século 19, dividida em duas fases: antes e depois do casamento”, diz o historiador Luiz Marques, da Unicamp.
Então a adolescência não é natural? Não. No começo do século 20, a antropóloga Margaret Mead realizou um estudo com habitantes de Samoa, na Polinésia. “Ela mostrou que a adolescência, tal como nós vemos hoje em dia, não passa de uma ficção, de uma construção cultural”, explica Sara Albieri, professora do departamento de História da USP. “Margaret provou que a rebeldia e a insatisfação consideradas típicas da idade não fazem parte da natureza humana. Elas são uma experiência social, não fisiológica.”

Aventuras na História n° 035

 

Entrevista: Michael Baigent


Como surgiu o interesse pelo Jesus histórico?
Michael Baigent – Não tinha um grande interesse em Jesus até escrever O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. A partir daí começamos a pesquisar as inconsistências do Novo Testamento e de que modo ele havia sido escrito e compilado. Percebi então a imensa quantidade de perguntas que precisavam de resposta.

E qual foi o próximo passo?
Fiz uma grande pesquisa sobre a vida política de Jesus. Ficou muito claro que a crucificação foi uma execução política. Também ficou claro que o movimento zelote, que lutava contra a dominação romana, precisava de um líder, um rei que descendesse de Davi. Jesus estava cercado de zelotes, incluindo aqueles que tinham como função matar pessoas. Documentos gregos também provam que Jesus foi crucificado entre dois zelotes, e não entre ladrões, como diz o cristianismo.

E quanto à possível união entre Jesus e Maria Madalena?
Em grande parte desses manuscritos há referências ao relacionamento muito próximo que Jesus manteve com mulheres que estavam entre seus seguidores e, mais especificamente, com Maria Madalena. No fim do século 2, alguns dos seguidores de Jesus passaram a satanizar o sexo feminino, criando um tipo de cristianismo que exclui as mulheres dos papéis centrais da Igreja. O que ocorreu a partir daí é essa bobagem centrada na dominação masculina que impede as mulheres de ocuparem o lugar de padres, bispos, papas.

O fundamentalismo religioso vai acabar um dia?
Não, pois estamos falando de um sistema rígido, como o cristão, por exemplo. O cristianismo limita as expressões de seus seguidores justamente porque eles [a Igreja] têm medo de que, se as perguntas certas forem feitas, o sistema irá entrar em colapso. Acredito que todo sistema rígido, que teme críticas, não tem futuro. Estou convencido de que o Vaticano irá ruir. E isso será uma boa coisa. Adoraria ver o papa se tornar apenas o bispo de Roma.

Aventuras na História n° 035

 

Os 400 anos de Rembrandt


Há exatos 400 anos, no dia 15 de julho de 1606, nascia em Leiden, na Holanda, Rembrandt van Rijn. Um dos mestres do barroco, ao lado de Caravaggio e Velázquez, Rembrandt conheceu, como poucos artistas em toda a história, o sabor do sucesso e a dor do esquecimento com intensidade.
O pintor foi bastante prestigiado na burguesia da Amsterdã do século 17, mas morreu pobre e com má fama, tanto moral quanto artística. Freqüentou as altas rodas, casou-se com uma jovem rica, morou numa das casas mais luxuosas da cidade (onde hoje funciona o Museu Rembrandt, que expõe, em 2006, cinco das 24 mostras espalhadas pelo país em homenagem à data). Teve uma vida próspera, construída com as encomendas que chegavam a seu ateliê.
Pintou de temas bíblicos a paisagens, mas foi a expressão dos sentimentos das pessoas, muitas delas simples e pobres, que o alçou à genialidade. “Não há, na história da pintura, artista que tenha penetrado tão profundamente, com tanta dúvida e angústia, no problema das relações entre o homem e o mundo”, escreveu o historiador de arte Pierre Cabanne em Rembrandt, da coleção “Grandes Mestres da Arte Européia”. O domínio da técnica do claro-escuro e o realismo provocante ficaram marcados na sua obra, com destaque para A Noiva Judia e Os Síndicos, além das três telas que ilustram esta página e dos cerca de 100 auto-retratos que mostram a bonança da juventude e a solidão da velhice.
Rembrandt morreu aos 63 anos, desprezado pelos clientes que não suportavam sua livre interpretação (muitas vezes ele ignorava seus pedidos e pintava como lhe convinha, distanciando-se do idealismo da arte clássica), endividado e marcado pela tragédia. Sua mulher morreu meses após dar à luz o quarto filho do casal, o único a chegar à vida adulta – mas que também viria a morrer pouco depois de se casar.

 Uma vida em três telas
Obras são retratos da fama à decadência.

Clássico da medicina
A primeira obra de prestígio de Rembrandt, A Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp (1632), deu fama imediata a ele. Para o historiador de arte Pierre Cabanne, nele o jovem artista “explora a morte para dar uma lição de vida”.

Ronda diurna
A Mudança de Guarda da Companhia do Capitão Frans Banning Cocq (1642), ou Ronda Noturna (embora a cena seja diurna), foi recebida friamente pelos soldados, talvez porque não tenham sido retratados numa pose heróica, mas numa banal ordem de marcha.

Herói caolho
A Câmara de Amsterdã encomendou a Rembrandt um painel em comemoração à independência da Holanda em relação à Espanha. Julius Civilis (1662) é um retrato ridicularizado de uma cena heróica. Rejeitado, o autor quase o destruiu.

Aventuras na História n° 035

M.A.S.H. e Band of Brothers: a guerra em capítulos


Mauro Tracco
Uma é comédia. A outra, drama. Com vocês, uma batalha entre as duas melhores séries de guerra da TV.

Não são apenas as empreiteiras, a indústria bélica e as companhias petrolíferas que lucram com as guerras: Hollywood já faturou muito em cima de praticamente todo conflito de alguma relevância. Mas, se costuma ser fácil haver bons filmes de guerra, é difícil ver esse tema originar boas séries para a TV. Duas exceções são as americanas M.A.S.H. e Band of Brothers, que se destacam por ter encontrado fórmulas distintas e bem-sucedidas de agradar público e crítica. Em 11 temporadas no ar, de 1972 a 1983, M.A.S.H. passou as últimas nove na lista das dez séries mais assistidas nos Estados Unidos. Já Band of Brothers, minissérie em dez capítulos que foi ao ar pela primeira vez em 2001, é a segunda produção do canal HBO com maior audiência até hoje (atrás de Família Soprano).
O tom escolhido é a principal diferença entre as duas séries. M.A.S.H., baseada no filme de mesmo nome dirigido pelo americano Robert Altman, ridiculariza a guerra e os militares. A comédia mostra o cotidiano de uma unidade médica móvel durante a Guerra da Coréia, na qual os cirurgiões estão mais preocupados em encher a cara e levar enfermeiras para suas tendas do que em servir seu país. Muitos elementos do filme foram preservados, como a total ausência de cenas de batalha, a sátira aos valores norte-americanos e o humor nonsense. Quando M.A.S.H. surgiu, o mundo assistia à Guerra do Vietnã, e o seriado era uma clara crítica a essa impopular ação militar norte-americana.
Em Band of Brothers a comédia dá lugar ao drama. A série nasceu do sucesso de O Resgate do Soldado Ryan, de 1998: após trabalharem juntos no filme, o diretor Steven Spielberg e o ator Tom Hanks resolveram, como produtores, levar ao ar outra saga ambientada na Segunda Guerra. Dessa vez, optaram por contar uma história real: a da 101ª Divisão Aerotransportada, a Companhia Easy. Com depoimentos de veteranos, Band of Brothers se baseia no livro homônimo do historiador americano Stephen Ambrose e glorifica os homens que derrotaram o nazismo. A série estreou em 9 de setembro de 2001, com 10 milhões de telespectadores. Após o ataque terrorista ocorrido dois dias depois, a audiência caiu 40%. Embora estivesse longe de ser um fracasso, os números decepcionaram a HBO, que investiu 120 milhões de dólares na série de TV mais cara da história.

 Aventuras na História n° 035

O fim dos samurais


Em 1868, o Japão estava mergulhado na Restauração Meiji. Apesar de só ser explicitamente citada no fim de Samurai do Entardecer, a revolução permeia todo o filme, que parte da micro-história de Seibei, um samurai que vive na miséria e é obrigado a cuidar das duas filhas, para abordar todo o fim da era dos xogunatos e da classe dos samurais.
Frutos de uma nova vida

Uma das consequências do envolvimento americano na Guerra do Vietnã foi o nascimento de várias crianças mestiças, frutos de relacionamentos das vietnamitas com soldados americanos. Uma Vida Nova retrata a vida de uma dessas crianças que, aos 17 anos, viaja a Saigon para procurar a mãe.
Aventuras na História n° 035

 

Marquês de Pombal contra o velho mundo


Haroldo Ceravolo Sereza e Joana Monteleone
Portugal e Brasil nunca mais foram os mesmos depois do governo do marquês, entre 1750 e 1777. Impiedoso, ele modernizou o arcaico império português. Odiado, acabou morrendo no ostracismo.

Em 1723, o português Sebastião José de Carvalho e Melo raptou Teresa de Noronha e Bourbon Mendonça e Almada, uma formosa viúva pertencente à mais alta elite de seu país. Casaram-se contra a vontade da família dela, que não via com bons olhos sua união com um obscuro membro da pequena nobreza. O matrimônio não gerou filhos, mas foi uma amostra da ousadia do homem que mudaria o destino de Portugal. O futuro marquês de Pombal era tudo, menos um romântico sonhador. Da mesma maneira que traçou com mão de ferro as linhas de sua vida pessoal, Carvalho e Melo conduziu os portugueses após um dos mais terríveis desastres naturais da história da humanidade: o terremoto de Lisboa, que devastou a capital portuguesa em 1755.
A figura do marquês entrou de modo ambíguo nos livros de história. Ora retratado como déspota esclarecido, ora como ditador sanguinário, muitos foram os adjetivos usados para descrever o poderoso ministro, que comandou Portugal durante o reinado de José I. Ninguém questiona, entretanto, o fato de que Pombal tornou-se um marco na história do império português – que, na época, incluía o Brasil. Nascido em 1699, Carvalho e Melo não deu mostras na juventude de que seria um grande líder. Por influência de seu tio Paulo de Carvalho, que dava aula na Universidade de Coimbra, ele conseguiu se matricular naquela instituição. Mas logo abandonou os estudos para entrar no exército, onde não conseguiu passar do posto de cabo. Desiludido, decidiu estudar Direito e História – o que lhe rendeu, aos 34 anos, um posto na Academia Real da História.
Depois do casamento, Carvalho e Melo se mudou de Lisboa para a vila de Soure, onde a família de Teresa tinha propriedades. Em 1738, graças a uma indicação do tio, ele conseguiu o posto de embaixador português na Inglaterra. Sua esposa, muito doente, não pôde acompanhá-lo e acabou morrendo no ano seguinte. Carvalho e Melo ficou na Grã-Bretanha por cinco anos, onde se mostrou um grande negociador e aproveitou para conhecer a fundo as instituições inglesas. Retornou a Portugal e, em 1745, foi enviado como diplomata à Áustria. Lá, casou-se pela segunda vez, desposando a condessa Maria Leonor Ernestina Daun.
O segundo casamento de Carvalho e Melo, abençoado pela imperatriz austríaca Maria Tereza, permitiu-lhe subir mais um degrau no complicado jogo de xadrez da corte portuguesa. Ao ver o ambicioso político se casar com uma conterrânea, a esposa de João V, Ana da Áustria, resolveu torná-lo seu protegido. Em 1749, após assumir o governo por causa do péssimo estado de saúde do rei, ela convocou Carvalho e Melo de volta a Portugal para fazer parte do ministério. Aos 50 anos, ele assistia ao início do auge de sua vida pública.
Com a morte de João V, em 1750, José I assumiu o trono e tomou as rédeas de um dos maiores e mais ricos impérios da Europa. Teve medo e, em vez de encarar a tarefa, preferiu a vida fácil das óperas e das caçadas. Deixou o trabalho pesado de governar nas mãos de seus assessores. Foi quando Carvalho e Melo tomou posse no cargo de secretário dos Negócios Estrangeiros, um dos três ministérios que concentravam as decisões do reino. Seus trunfos eram a experiência diplomática e um círculo de amigos que incluía eminentes cientistas, em especial membros da comunidade de expatriados portugueses – muitos deles tinham sido forçados a deixar o país por causa da Inquisição.
Quando dois terços de Lisboa ruíram com o terremoto, a situação ficou tão caótica que José I transferiu praticamente todo o poder para as mãos de seu ministro predileto. Carvalho e Melo coordenou o socorro às vítimas e rapidamente iniciou a reconstrução da cidade – afinal, era preciso que “se cuidasse dos vivos e se enterrassem os mortos”, conforme ele teria dito na ocasião. Em 1759, quando foi nomeado conde de Oeiras, o ministro já tinha se tornado praticamente um governante absoluto. O título sob o qual seria eternizado, marquês de Pombal, lhe foi dado por José I em 1769.

Lá e cá
Portugal dependia das riquezas brasileiras para sustentar os gastos luxuosos da corte. Em 1755, um jovem membro da Armada francesa, Chevalier des Courtils, resumiu a situação em seu diário de viagem: “Portugal é mais uma província do que um reino. Pode-se dizer que o rei de Portugal é um potentado das Índias que habita em terras européias”. E prosseguiu, atribuindo a grandeza do país apenas às suas colônias: “Os Estados vastos e ricos sob sua soberania no Novo Mundo, como o Brasil, o Rio de Janeiro, Bahia de Todos os Santos, Goa, a Madeira na África e os Açores na Europa, tornaram-no um príncipe considerável e colocaram-no entre as grandes potências européias, se considerarmos o valor de suas possessões”.
A dependência da metrópole com relação ao Brasil tornou-se tão aguda no século 18 que Luís da Cunha, um dos diplomatas e pensadores políticos portugueses mais influentes no período, anteviu a transferência da corte para o Rio de Janeiro (que ocorreria no século seguinte). Segundo ele, o rei tomaria o título de “Imperador do Ocidente” e nomearia um vice-rei para governar Lisboa. “É mais seguro e conveniente estar onde há abundância de tudo do que onde é preciso esperar pelo que se quer”, escreveu. Foi Pombal, aliás, quem tirou a sede do governo-geral brasileiro de Salvador, transferindo-a para o Rio em 1763.
Estava claro, portanto, que era preciso reorganizar todo o império para fazer frente à ascensão das outras potências européias. As chamadas “reformas pombalinas” mudaram drasticamente a economia do reino e das colônias. Inspirado em modelos mercantilistas ingleses, franceses e holandeses, Pombal criou várias companhias de comércio a partir de 1753: da Ásia, do Grão-Pará e Maranhão, da Pesca das Baleias, das Vinhas do Alto Douro e de Pernambuco e Paraíba. Controladas pelo Estado, elas comandavam as atividades econômicas e monopolizavam os negócios. A das Vinhas do Alto Douro, por exemplo, controlava a produção e a venda do vinho do Porto – produto do qual os ingleses eram os principais compradores.
No Brasil, a gestão de Pombal estimulou a diversificação agrícola. A colônia, que se dedicava essencialmente à produção de açúcar, passou a plantar mais arroz, tabaco, algodão e cacau. Ele também foi responsável pelo aumento na arrecadação de impostos sobre o garimpo – medida cada vez mais impopular, principalmente quando o ouro de Minas Gerais começou a se exaurir, a partir de 1760. Empenhado em taxar todas as riquezas que eram retiradas do solo brasileiro, Pombal aumentou a fiscalização nas capitanias (principalmente nos portos exportadores).
Nenhuma reforma de Pombal, no entanto, foi tão polêmica e tão importante quanto a expulsão dos membros da Companhia de Jesus, os chamados jesuítas, de Portugal, do Brasil e das outras colônias. Quando Pombal assumiu o governo, Lisboa era uma cidade rica, mas carola e conservadora. A maioria dos filósofos e escritores iluministas do século 18, quando precisava de um exemplo de superstição e atraso, recorria a Portugal. Voltaire chegou a escrever, sobre o governo de João V: “Quando queria uma festa, ordenava um desfile religioso. Quando queria uma construção nova, erguia um convento. Quando queria uma amante, arrumava uma freira” (de fato, João V teve inúmeros relacionamentos com religiosas).
A medida contra os jesuítas foi o ponto de partida de uma enorme mudança no sistema educacional, antes controlado por eles. Em 1759, Pombal criou a Aula de Comércio, escola destinada a formar homens capazes de atualizar as antigas práticas comerciais. No ano seguinte, tentou tornar os filhos da nobreza mais qualificados para exercer as altas funções do governo, fundando o Colégio dos Nobres – que foi um fracasso. Inspirado nas idéias iluministas, que circulavam havia muitos anos no resto da Europa, reformulou, a partir de 1772, a Universidade de Coimbra (onde costumavam estudar membros da elite colonial brasileira): tornou-a mais pragmática, valorizando as ciências naturais e criando a Faculdade de Filosofia e Matemática. No Brasil, carente de escolas, Pombal unificou a língua, tornando o português obrigatório em todo o território.

A queda
No período em que esteve no topo, Pombal acumulou poder, riquezas e inimigos. Com seus opositores, ele foi implacável: alguns foram condenados à prisão, outros, à morte. O caso mais emblemático de sua gestão foi a execução do marquês e da marquesa de Távora e do duque de Aveiro, em 1759, acusados de tramar um atentado fracassado contra José I no ano anterior. Ao permitir que eles fossem condenados à morte, Pombal deixou claro que seu poder não se sujeitava às antigas convenções e conchavos da política de Lisboa. Diante do ímpeto de Pombal, ser nobre não significava estar seguro.
Enquanto José I reinou, Pombal foi soberano. Mas, após a morte do monarca, em novembro de 1776, seu poder ruiu. Rapidamente, seus inimigos conseguiram neutralizar sua influência na corte. Demitido por decreto real no ano seguinte, acuado e sem apoio, Pombal foi forçado a abandonar a capital e partir para sua propriedade em Oeiras. A regente, a rainha dona Maria I (a mãe de João VI, que ficaria conhecida como “a Louca”), atendendo às solicitações do povo, proibiu o ex-ministro de sair de sua propriedade. A reclusão, entretanto, não foi suficiente para acalmar a reação dos nobres e populares que, durante anos, haviam tido que aceitar sua tirania. Muitos dos que haviam colaborado com o governo de Pombal foram exilados, presos, torturados ou mortos. Nas ruas de Lisboa, ecoavam palavras de ordem como: “Patrícios meus, clamai sobre o tirano/ saiba o mundo que foi o tal marquês/ ladrão, traidor, cruel e desumano”.
Renegado até pelos filhos, sozinho na enorme casa semi-abandonada, não tardou para que Pombal adoecesse. Velho e com lepra, ele lutou com abnegação nos processos movidos contra ele nos tribunais. Ainda possuía forças para escrever em sua própria defesa – incluindo nos textos vários elogios à monarca, numa vã tentativa de agradá-la. Em maio de 1782, ele descreveu seu estado numa declaração pública: “Presentemente me acho quase todo entrevado, sem poder pôr os pés no chão, nem sustentar-me sobre as pernas”. Cheio de dores e feridas no corpo, Pombal morreu logo depois, no dia 8 de agosto. Antes que seu corpo fosse embalsamado, passou por uma autópsia, assim descrita pelo historiador português João Lúcio de Azevedo em O Marquês de Pombal e a sua Época: “O coração, que abrigara tantos ódios, hipertrofiado, era enorme; o cérebro, onde nasceram ambições, também era volumoso”.
Até a invasão napoleônica de Portugal, no início do século 19, a memória de Pombal ficou no ostracismo. Mas, após João VI e sua corte transferirem para o Rio de Janeiro a sede do reino, em 1808, muitos portugueses com orgulho ferido recuperaram a imagem do ministro – como um grande líder que fora capaz de conduzir a nação.

 O dia em que a terra tremeu
Terremoto arrasou  Lisboa na época do marquês.
O primeiro dia de novembro de 1755 brindou Lisboa com uma linda manhã de outono. O ar estava tépido e as igrejas, apinhadas de gente – era o dia de Todos os Santos. “Súbito, um ronco vaporoso, enorme trovão subterrâneo. Cavalgada de ciclopes, que se aproxima em doida correria, arrastar de carros gigantes nos abismos da terra. Nos altares, oscilavam as imagens; as paredes bailam; dessoldam-se traves e colunas; ruem paredes, com o abafado som da caliça que esboroa, e de corpos humanos esmagados; no chão, onde os mortos repousam, aluem-se os covais para tragar os vivos.” Na descrição clássica do historiador português João Lúcio de Azevedo, o terremoto de Lisboa alcança todo seu terror e magnitude. Um dos maiores desastres naturais na história, o evento intrigou filósofos e cientistas durante o século 18 e marcou a ascensão do marquês de Pombal. Acuado e com medo das hordas famintas de sobreviventes, o rei, José I, de seu palácio em Belém, deu plenos poderes ao único de seus ministros que se mostrou capaz de lidar com a tragédia. Pombal não perdeu tempo. Ordenou que os saqueadores fossem sumariamente enforcados, fixou os preços dos alimentos e do material de construção nos níveis anteriores ao desastre e fez com que os corpos das vítimas fossem amarrados a pesos e jogados no oceano. Calcula-se que entre 8 mil e 30 mil pessoas tenham morrido na tragédia. Quem sobreviveu ao tremor teve de enfrentar o maremoto que veio depois – segundo escreveu o então cônsul britânico em Portugal, Edward Hay, as águas “elevaram-se de 6 a 9 metros”. As perdas materiais foram incalculáveis. O Real Teatro da Ópera, terminado no mês anterior, ficou em ruínas. Trinta e cinco igrejas desabaram sobre os fiéis que rezavam – o tremor ocorreu bem no horário da missa. Em uma única mansão da cidade, perderam-se 200 pinturas (incluindo um Ticiano e um Rubens) e uma biblioteca com aproximadamente 18 mil volumes. Depois do socorro às vítimas, Pombal convocou engenheiros e topógrafos e tratou logo de reconstruir a cidade. Lisboa, depois das ações do marquês, tornou-se um exemplo da arquitetura iluminista: traçados retos substituíram as antigas vielas medievais e edificações monumentais foram erguidas para sediar a administração pública. A Biblioteca Real foi reorganizada, a partir de aquisições de livros, mapas e documentos em toda a Europa. Quando a corte portuguesa veio para o Brasil, em 1808, o acervo foi trazido para o Rio de Janeiro – e a maior parte dele ainda está lá, guardada na Biblioteca Nacional.

Cruzada antijesuíta
Vista como obstáculo às reformas, ordem foi expulsa do império em 1759.
Para fortalecer seu governo absolutista, o marquês de Pombal comprou algumas boas brigas. A maior delas provavelmente foi contra a Companhia de Jesus, ordem religiosa fundada na França em 1534. Pombal não nutria exatamente um sentimento anti-religioso. Buscava reduzir a influência do grupo, a parte mais poderosa da Igreja em Portugal. O ministro saiu vitorioso e, em 1759, conseguiu expulsar os jesuítas de todo o império português. A medida teve enorme repercussão no Brasil. No ano da expulsão, os 670 membros da Companhia de Jesus que viviam aqui comandavam as principais instituições educacionais da colônia: os colégios jesuíticos. Além disso, os jesuítas mantinham sob sua tutela milhares de índios – só nas missões guaranis, que ocupavam um território hoje dividido entre Brasil, Uruguai, Paraguai e Argentina, chegaram a viver mais de 140 mil pessoas. Um dos argumentos usados por Pombal contra a ordem religiosa foi a recusa de jesuítas espanhóis em obedecer ao Tratado de Madri, de 1750, que os obrigava a entregar a Portugal as missões a oeste do atual Rio Grande do Sul. Segundo o marquês, os jesuítas incentivaram os índios a mergulhar numa rebelião contra os europeus que só seria controlada em 1767. No norte da América portuguesa, os religiosos bateram de frente com o governador do Maranhão e Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão de Pombal. Organizados pelos jesuítas, os índios muitas vezes se recusavam a se submeter às necessidades da coroa. A expulsão da Companhia de Jesus foi acompanhada por uma vingança pessoal. Pombal denunciou o padre Gabriel Malagrida à Igreja por heresia, se aproveitando do fato de que outro de seus irmãos, Paulo de Carvalho e Mendonça, era o inquisidor-mor de Portugal. Malagrida (que havia fundado o seminário Nossa Senhora das Missões, no Pará) era o maior inimigo do ministro entre os jesuítas. Condenado, o religioso foi enforcado e queimado em 21 de setembro de 1761. Mesmo fora de Portugal, a ordem religiosa não foi deixada em paz por Pombal: continuou sofrendo com seus ataques, agora no campo diplomático. Em 1773, a Companhia de Jesus acabou extinta pelo papa Clemente XIV. Ela seria restabelecida em 1814, mas sem o mesmo poder político de antes.

Aventuras na História n° 035